Um olhar literário à vencedora do Prémio Camões de 2021


Por Nito Ivo*


Como se procede a caracterização de uma pessoa cuja majestade própria, e da sua obra, não cabem em descrições literais? E de resto, ela própria teve dificuldade em fazê-lo com frases exactas:

“Paulina Chiziane, sou eu! Mais do que isso, é muito difícil de dizer. Contudo, eu gosto de sublinhar algumas coisas: nasci em Gaza, numa família de oito irmãos; aprendi a escrever na areia do chão; e usei o primeiro par de calçado com dez anos de idade.” — Disse ela no programa Moçambique em Concerto, espaço Paredão, da TV Sucesso.

Mas, se a descrição for temperada com duas pintadas de literatura, constata-se que Paulina é uma mulher que ao longo dos seus trinta e dois anos de carreira vem deixando um longo rasto do mais doce perfume de simplicidade pelos trilhos do mundo literário e social, e naquele caminhar assaz humilde, porém desinibido, subiu ao pódio e arrebatou, por unanimidade do júri, o Prémio Camões, o mais destinto Prémio Literário do MundoLusófono.

A Paulina possui um brilho vital assaz peculiar. Não como o do sol, que quanto mais próximo mais ofusca, repele e queima. Não! Paulina exala um brilho aconchegante e adocicado, emanado de um olhar de fera. Não quando ataca. Mas quando resguarda as suas crias. As criais da Paulina somos nós. Todos nós moçambicanos, em particular, e africanos no geral. Os livros dela são o longo e poderoso braço que estende ao nosso redor para proteger-nos, algumas vezes de nós mesmos. Com efeito, disse ela à Televisão de Moçambique por ocasião da sua victória do Prémio Camões, que “para mim, a literatura é um espaço para negociar a identidade. Isto é, levantar o conhecimento sobre o que quer que seja, e colocar o debate”.

É através destas ideias, muitas vezes que só ela, como mãe que é, é capaz de dizer frontalmente aos filhos, mesmo quando magoa, tal como o faz no livro O alegre canto da Perdiz, quando exumou um dos maiores desafios da África Negra, um que tem andado sepultado em cova-rasa, e que convenientemente nós mesmos africanos evitamos

encará-lo, estudá-lo, e dá-lo o apropriado destino. Diz ela que “tudo começou no princípio, vieram os árabes. Os negros converteram-se. E começaram a chamar-se Sofia, Zainabo, Zulfa, Amade, Mussá. E tornaram-se escravos. Vieram os marinheiros de cruz e da espada. Outros negros converteram-se. Começaram a chamar-se José, Francisco, António, Moisés. Todas as mulheres se chamaram Maria. E continuaram escravos. Os negros que foram vendidos ficaram a chamar-se Charles, Georges, Christian, Joseph, Charlotte, Johnson. Baptizaram-se. E continuaram escravos. Um dia virão outros profetas com as bandeiras vermelhas e doutrinas messiânicas. Deificarão o comunismo, Marx, marxismo, Lenine, leninismo. Diabolizarão o capitalismo e o ocidente. Os negros começarão a chamar-se Iva, Ivanova, Ivandra, Tânia, Kasparov, Nádia, Nadioaka. E continuarão escravos. Depois virão pessoas de todo o mundo com dinheiro no bolso para doar os pobres em nome do desenvolvimento. E os negros chamar-se-ão Karen, Érica, Tânia, Tatiana, Sheila. Receberão o dinheiro deles e continuarão escravos. Nossas línguas? Aprenderão apenas sons. Nomes? Invocarão alguns. Crenças? Profanarão todas as nossas. Nós aprendemos tudo: árabe, português, francês, inglês, norueguês, russo, alemão e tantas outras desconhecidas. E continuaremos escravos. Faremos guerras uns contra os outros. Matar-nos-emos. Elegeremos presidentes. Ergueremos bandeiras. Mudaremos bandeiras, hinos e símbolos. E continuaremos escravos.”

Em Maio de 2021, a Paulina, sempre gerações de moçambicanos e africanos.

Desde então, tal papel vem sendo desempenhado com grande mestria.

Num momento em que a liberdade de movimento pelo mundo segue restringida pela Covid-19, a mensagem da Paulina, derramada em catorze dos seus livros, circula livremente, e enfim, no dia 20 de Outubro de 2021 convergiram num estrondoso eco a partir das cordas vocais da Ministra da Cultura de Portugal quando a proclamou vencedora do Prémio Camões.

A atribuição do Prémio Camões foi decidida por algumas pessoas assaz abalizadas em matérias de literatura, mas a Paulina já era premiada pelo reconhecimento de um infindável número de leitores no mundo lusófono, e não só, desde que aos trinta e quatro anos de idade, no decorrer do ano de 1990, publicou o seu primeiro livro, Baladas de amor ao vento. Um livro que também foi a catapulta que a lançou para o primeiro bater de asas, e nunca mais parou de subir até que chegou a este pináculo (Prémio Camões), que, apesar de ser de grande importância, esperamos que seja uma passagem a outros graus de reconhecimento, sem que sejam vistos como mais ou menos importantes. Orgulhar-me-ia, por exemplo, se

ela tivesse um reconhecimento africano, afinal de contas é esta terra e os valores do seu povo que ela mais eleva. Nalgum canto de Moçambique, gostaria de caminhar por uma longa avenida Paulina Chiziane, sombrejada por acácias, onde os transeuntes não tivessem que disputar o espaço do passeio com automóveis mal estacionados, a ao fundo da avenida uma Biblioteca farta, com desenho arquitetónico inusitado, ladeada por uma editora de livros que pudesse dar oportunidade a novos escritores, e no outro, mesmo na esquina um museu de literatura, e um bem na diligência de mostrar as melhores veredas aos moçambicanos, voltou a repisar, no programa Moçambique em Concerto, que “a agenda da colonização ainda está em marcha”. E no seu activisto literário, ao que parece, a agenda da Paulina, enquanto subsistirem as ameaças aos valores e à integridade dos africanos, será de lutar para proteger-nos. E a maior proteção é o conhecimento que nos chega pelos seus livros e pelos seus discursos.

Neste percurso, a Paulina igualmente absorve maternalmente a dor da mulher, logo escreve, não como uma escritora que simplesmente escreve para que alguém a jusante leia, mas como uma protectora cujas palavras dirigidas aos filhos revestem-se de pedacinhos da sua própria alma. E de facto, há mais do que letras, frases, parágrafos, etc. nos textos da Paulina. Há alma, porque sente-se, não só com a imaginação e a empatia, mas um pouco mais ao fundo... com o sexto sentido. São palavras além da lógica. São palavras que tocam a essência moçambicana. É através da literatura que a Paulina Chiziane nos protege. Tem sido assim desde o início da sua jornada. A Paulina deixou de estudar para escrever. Mães

abdicam de si mesmas para cuidar dos filhos, mas naquela total dedicação sentem como se cuidassem delas próprias.

Na altura, ela sentira que havia chegado o momento de pegar numa caneta e papel para escrever mensagens eternas a várias lo jardim repleto de pessoas a lerem os

mais diversos livros.


*Excertos de um longo ensaio publicado no BRADO LITERARIO — Jornal Literário Electrónico

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