“Resgate”: O retrato do abismo dos nossos dias


https://www.youtube.com/watch?v=FRHwvDcGA8Q

Para o Stewart Sukuma (que me acusa de não escrever sobre a cultura)


Por Luís Nhachote


No ar quente das salas do Numetro cinemas, no coração do segundo andar do Mall do Glória Hotel, ontem tivemos a oportunidade de ir ver o “Resgate”, a mais nova obra prima da sétima arte da nossa parca, mas riquissima galeria nacional. Na decáda dos anos de chumbo, desde a produção até chegar as salas de cinema, tivemos a impar oportunidade de formar as filas de então, iguais a que faziamos para comprar pão, para ver o “Tempo dos Leopardos”, com Salimo Mohamed (então Simião Mazuze), Ana Magaia, Marcelino Alves no elenco de actores.

O Tempo dos Leopardos é um filme moçambicano-jugoslavo do género drama de guerra, escrito e realizado por Zdravko Velimirović, Branimir Šćepanović, Luís Carlos Patraquim e Licínio Azevedo em 1985. É considerado ‘o primeiro filme moçambicano’ que retratava a luta de um grupo de guerrilheiros moçambicanos contra o sistema colonial português.

Em 1987, dois anos depois José Cardoso nos entregou “O Vento Sopra do Norte”. Com um elenco onde despontavam Lucrécia Paco, Gilberto Mendes, Emídio de Oliveira entre outros, vimos na obra a reconstituição de alguns dos ultimos anos do colonialismo português.

O cinema nessa epóca era então um produto de massificação cultural emanado das directivas “revolucionárias” no defunto e sepultado processo da “construção do homem novo”. Com a liberalização da economia então centralizada, nasceu a iniciativa privada e realizadores como Licinio de Azevedo, Sol de Cardoso, João Ribeiro, Gabriel Mondlane que, com esforços descomunais e uma crença inabalável, já produziram outras longas metragens que tem “EXALTADO” o nome de Moçambique em festivais internacionais.

Dizia que ontem fui ver o “Resgate” produzido por uns “miúdos”!

Sei que o Pipas Forjaz, Mickey Fonseca e, Maura Quatorze vão me perdoar pela catologação propositada (a Maura XVI outra minha editora das minhas cartas presidênciais a Joaquim Chissano deverá me ligar), conseguiram e rebentaram com a escala. De 0 (zero) a 10 (Dez) consegueriam arrebantar um 19 nas minhas lupas...

O Sonho alicerçado na produtora Mahla, começou com um “Crownfunding” nas redes sociais para angariação de fundos para a sua primeira longa-metragem, inspirada no terrivel fenoméno dos raptos e desemprego, inspirados na realidade do país. O M-pesa, entre outras plantaformas de pagamento electrónico, foram o caminho para que o sonho virasse realidade

Pensado em 2012, o “Resgate”, narra a história de um jovem à procura de redenção, após passar quatro anos numa penintênciaria. Uma dívida contraída pela sua falecida mãe o jovem “Bruno”vê-se novamente enredado nos meandros do crime para fazer face a sua condição social precária com uma filha menor que “concebida” na cadeia como acontece na realidade....



Em nome das micro-finanças, um artefacto legal da agiotagem que habita no cosmos moçambicano, os autores do “Resgate”, abordam magistralmente a corrupção sexual de que são vitimas as ambulantes vendedoras da nossa existência. No “Resgate” temos e a personificação do esterco policial, da corrupção, seu rosto e estatisticas indesmentivéis. Temos os “patrões dos raptos” e os seus nócivos lucros, partilhado com a “Grunhice” dos novos riquinhos de colarinho branco. E temos sangue, sangue esse que jorra no quotidiano de mentes em exponencial no caos social. A trilha sonora, com a portentosa mensagem do rapper “Azagaia” (outro “Mulato”) entrelaçado com o enredo, se esvai como a brisa no tempero da refeição perfeita!

Não encontraria mais palavras, senão apelar que “Exaltação” este filme. Estão de parabéns os autores.

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Ficha técnica

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Editor: Estacios Valoi 

Redaçao: Germano de Sousa, Palmira Zunguze e Nazira Suleimane

Publicidade: Jordão José Cossa (84 53 63 773) email jordaocossa63@gmail.com

 

NUIT: 100045624

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