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Quinze anos a Pau e Pique


Estacio Valoi

Nampequese em Mecula, na Província do Niassa, envolto num autêntico cocktail da falta de uma escola condigna faz quinze anos, um conflito entre a comunidade e os animais de quatro patas de grande e pequeno porte, a pandemia da COVID-19, deficitária assistência medica e medicamentosa, a ausência do governo que geralmente apenas se faz sentir em fases de campanhas eleitorais, continua viva atormentando o seu dia-a-dia.

Uma comunidade pacata, onde a escola primária local baptizada com o nome da localidade “Nampequise”, faça sol, chuva ou vento, faz quinze anos desde que a própria comunidade a construiu com recurso a materiais locais, estacas, capim, bambu – Pau e Pique, continua lá à espera da modernização.

As marcas são visíveis naquela Escola que lecciona mais de 100 crianças que frequentam a 5ª. e a 6ª. Classes, como se ao relento estudassem. Uma escola descapotável de “pupilos” que durante quinze anos viram governantes visitar o seu distrito, mas que até agora nada foi feito para melhorar as condições dessa escola.

É uma escola simples, composta por três salas com menos de dez metros cada, apetrechada com novas carteiras à luz do programa nacional de produção de carteiras escolares lançado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi na Província de Tete em 2018, através do qual o Governo pretendia produzir cerca de 140 mil carteiras, até ao início do ano lectivo de 2018, e tirar do chão um milhão de crianças.

Com a pretensão do Governo de suprir o défice de 800 mil carteiras que se registava no Pais segundo Nyusi, as escolas mais críticas eram as das províncias da Zambézia, Nampula e Niassa com um défice acima da metade. As mesmas carteiras que custaram milhares de meticais estão prontas a ficarem danificadas numa “coisa” que se chama Escola.

Ainda mais grave, são as crianças que na sua deslocação da machamba à escola correm o disco de voltar às suas casas feridas ou mortas por elefantes ou búfalos, mais agora decorridos dezanove meses com o registo de “Zero Elefante” abatido pelos caçadores furtivos, segundo Baldeu Chande administrador da Reserva Especial do Niassa.



Neima condenada a um futuro incerto

Não existe vedação, e o número de vítimas aumenta, como no caso Neima Issa, criança de 15 anos que foi gravemente ferida por um Búfalo na machamba próxima de sua casa.

Diferentemente das outras crianças que pululavam pelo bairro, iam espalhando sorrisos rasgados, faziam piruetas, rodeavam o carro fazendo gestos de boas vindas, para de seguida nos mostrarem a escola construída a Pau e Pique a cair de “podre” faz quinze anos à espera de melhores dias – de uma construção de raiz, a qual vem sendo prometida pelo Governo do Niassa faz quinze anos. Até aqui nada feito a não ser “promessas” e mais ‘’promessas”, principalmente em anos eleitorais.

Mas a Neima, era a única ou uma das únicas ausentes do grupo de mais de trinta crianças que recebeu o Moz24h. Durante aquela visita inusitada, não fossem as pessoas da comunidade a fazerem questão de levar-nos a ver Neima, assim como a Escola de Pau e Pique.


No dia 31 de Maio deste ano, a Neima saiu de casa como sempre o fez, de manhã com o seu sorriso habitual, aos saltos, feliz da vida, em mais uma jornada diária, e principalmente nesta fase da pandemia da COVID -19 em que as aulas presenciais foram proibidas devido ao estado de emergência, as crianças vão inventando outras formas de passar o tempo. Também não há espaço para aulas com recursos à tecnologia. Zona remota, a tecnologia ainda está a anos-luz para lá chegar e ao dispor destas crianças ou da comunidade em geral.

Nesse dia de Maio do corrente ano Neima fez-se à machamba, mas o seu regresso a casa seria diferente, a sua vida e a sua forma de estar. Tudo mudou! Por pouco não foi morta.

Entrámos na casa da Neima a qual estava sentada numa cama feita de cordas de sisal e uns paus, enquanto seus pais aqueciam outros bancos. Uma família de cerca de 8 pessoas.

Neima com problemas vocais, muda, apesar de ter tentado usar a linguagem dos sinais para com ela comunicar, a dada altura fiquei perdido na tradução, mas o estado físico e os seus olhos revelavam muita angústia e dor. Foi necessário ter o auxílio do seu Pai Issa Maida que nos foi contando sobre as peripécias que deixaram a Neima a andar em duas muletas e com um futuro desconhecido.


“No dia 31 de Maio deste ano a minha filha ia para a machamba colher verduras, ia se aproximando do local mas quando já estava próxima da machamba cruzou-se com um Búfalo que a atacou, foi directamente para a zona da coxa esquerda, partiu a perna da menina e causou outros problemas mais para cima na zona da anca, bacia.”

Após o incidente, Neima foi evacuada para o hospital distrital de Mecula mas devido às condições precárias em termos de assistência que o mesmo apresenta a criança foi transferida para o hospital provincial em Lichinga, que dista cerca de 350 quilómetros de Mecula - Reserva Nacional do Niassa onde foi assistida. Pela gravidade da situação foi sujeita a uma intervenção cirúrgica - e “lá fizeram uma operação, porque tinham que fazer a ligação do osso colocando lá dentro, um ferro.

Neima está engessada, de muletas desde o mês de Maio, mal consegue caminhar e a sua situação piora a cada dia que passa. Sem meios quer financeiros ou outros para se deslocar a Lichinga para observação médica, e o pouco que os pais amealhavam para sua alimentação e outras necessidades, foi tudo aplicado no tratamento da criança. Sem qualquer apoio não sabem a quem recorrer.

No princípio ainda tiveram um apoio simbólico da RNN. “Primeiro deram-nos 2.000 meticais, mas porque o processo de assistência estava a levar muito tempo, estávamos a sofrer por falta de alimentação, acabámos pedindo mais um reforço à reserva que nos enviou mais 2.000 meticais. Só assim conseguimos voltar de Lichinga para Mecula”.

Mas era preciso voltar a Lichinga para fazer o controlo médico no dia 31 de Agosto. Sem carro específico para levar a criança e o seu Pai de volta a Lichinga, segundo Aquimo Aguane Ali, esta manha em contacto com o Moz24h, a ida ao hospital não se realizou “ não foram, não tem meios.”

Ali não tem carro específico para atender a família. Aqui são duas coisas. A “Reserva” não disse que nos vai ajudar com boleia, não disseram que existe um carro para nos levar e trazer-nos de volta de Lichinga a pedir esmola. Difícil confiar na “Reserva” porque mesmo da outra vez, quando foi para fazer o controlo, por várias vezes falámos com as pessoas ligadas à área comunitária as quais prometeram apoiar-nos até que a data marcada para o controlo passou” - disse Maida.

Sem dinheiro para dar prosseguimento ao tratamento da Neima, sem dinheiro para a alimentação, do pouco que poderiam tirar da machamba, os búfalos e elefantes fizeram a festa. Comeram, destruíram culturas, tudo.



Grito de socorro

Segundo Aquimo Aguane Ali, Delegado da organização de Deficientes militares em Mecula, o conflito homem animal acentua-se muito mais pela falta de uma vedação, o hospital distrital tem uma ambulância “ absoleta” para transportar doentes, o administrador local anda numa viatura alugada e por vezes tem que pedir apoio à administração da “Reserva”.

“Nós, como comunidade, entendemos que acabou a caça furtiva, não é o fiscal, mas a própria comunidade porque ela própria conhece, sabe de onde o furtivo vem e onde está. Nós bloqueámos aquela parte, demos toda a informação a quem de direito, à “Reserva”. E quais são os deveres, direitos e responsabilidades da “Reserva” para com as comunidades? Ainda nós perguntamos e eles nada dizem. Muitas destas crianças deixam de ir à escola Pau e Pique e na machamba não podem passear à vontade. - Os búfalos e os elefantes tomaram conta desta zona - disse Ali”.

A Neima, possivelmente resta lhe apelar pela organização BioFund Mocambique, muito próxima dela a qual segundo sua website esta a apoiar com salários algumas concessões dentro da Reserva Nacional do Niassa, nomeadamente os blocos L-7, L8 E L-9 ( Luwire). Biodundo- fundo recentemente criado para apoiar os fiscais durante a COVID-19. Partimos deixando a Neima para trás com espectativa de que ela tenha dias melhores.

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