• estaciosvaloi

"Quando quisermos discutir de Moçambique como país e Nação"



*Quando quisermos discutir de Moçambique como país e Nação, vamos encontrar Eduardo Mondlane que está a nossa espera* - afirma filósofo Severino Nguenha O filósofo moçambicano, Severino Ngoenha está a preparar um livro sobre a intelectualidade e o nacionalismo de Eduardo Mondlane. Para fazer essa análise o académico teve que ler a vasta publicação científica do nacionalista que ascende a mais de 60 artigos publicados em revistas científicas, seminários e palestras que realizou no mundo académico e não só.

Esta aventura permitiu a Ngoenha conhecer um Mondlane que antes não imaginava que existiu e agora fascinado diz que quer apresentá-lo aos moçambicanos. Na entrevista abaixo ele apresenta parte do que descobriu sobre Eduardo Mondlane. Por aquilo que tem estado a ler a investigar para o seu future livro, como pode descrever Eduardo Mondlane como um académico? A Universidade Pedagógica, o ano passado, surpreendeu-me com um convite para abrir uma série de diálogos e colóquios que iam realizar-se em 2019 e 2020, dois anos consagrados a Eduardo Mondlane. Ano passado 50 anos da sua morte e este ano 100 anos do seu nascimento. Tive que levar a sério o convite e comecei a meter-me a trabalho a volta de Eduardo Mondlane, figura do qual, confesso, nunca me tinha interessado muito. Parecia-me muitas vezes como alguém que nos foi imposto pelos Americanos, pelo liberalismo e que não merecesse atenção académica que a gente dispensa a grandes personalidades. A Universidade Pedagógica dizia que a motivava a celebração de Eduardo Mondlane por duas dimensões fundamentais: a primeira a sua intectualidade, a segunda pelo seu nacionalismo. Ora, o que é nacionalismo hoje num mundo em que as nações perderama sua exuberância e todo o seu significado. Nós falamos de uma época pós-política e pós-nacional e isso justifica a globalização das políticas e das economias.


Em segundo lugar, era tentar ver o que era intelectual, muitas vezes o intelectual é aquele que é entendido que sabe muito, uma enciclopédia ambulante, um erudito, mas a palavra intelectual geneticamente tem a ver com um caso acontecido no Século XIX em volta de um Judeu que foi condenado injustamente e que levou que um grupo de pessoas se reunisse em volta dele para reivindicar o direito a justiça, o direito a um processo justo, a um reconhecimento como pessoa possuidor de direitos. Então intelectual não é aquele que sabe muito, é aquele que usa o seu saber em prol ou em militância em vanguarda dos direitos humanos e dos sujeitos que têm de ser respeitados. Então nacionalismo e intelectualidade são os dois vectores de base. Quando comecei a trabalhar Mondlane, fiquei perplexo, fiquei surpreendido porque descobri que há muitas imagens de Mondlane. A primeira imagem de Mondlane nós a temos de André Clerc que foi o mentor dele quando adolescente e jovem, foi ele que o trouxe a Lourenço Marques, trabalhou na casa dele como doméstico, foi ele que o encaminhou África do Sul, que o conduziu a Portugal e de Portugal para os Estados Unidos. E escreveram juntos aquele famoso livro, Chitlango, o filho do chefe. Que é uma construção, não mitológica, mas digamos assim com bases reais mas que não corresponde a algo historicamente efectivo, mas que foi o primeiro livro de Eduardo Mondlane que se conheceu e dos poucos livros que alguns jovens moçambicanos terão lido. Temos um segundo Mondlane que nos foi apresentado pela Frelimo. É um Mondlane que temos de 75, da Universidade Eduardo Mondlane, de 3 de Fevereiro, mas ele resume-se a poucas coisas. O que sabemos de Eduardo Mondlane é onde nasceu, quando nasceu, onde morreu, que fundou a Frelimo e que é o pai da Unidade Nacional. Se a gente compara Mondlane a por exemplo Amílcar Cabral, Cabo Verde e Guiné-Bissau realizam todos anos há mais de 30 anos congressos a volta de Amílcar Cabral, então a ideia que muitos moçambicanos têm é que Amílcar Cabral fosse um grande intelectual e que Mondlane não seria.


Quando a gente começa a estudar Mondlane, apercebe-se que Mondlane é de longe mais intelectual que Amílcar Cabral. Um homem que escreveu uma série enorme de cartas, artigos científicos, de livros, fez inúmeros de discursos primeiro religiosos, depois políticos, com uma carreira diplomática for a do comum. A questão é como é que nós moçambicanos não conhecemos este Mondlane? É que se Mondlane que nos é apresentado era um homem de consenso porque aglutinou os três movimentos que fundaram a Frelimo, as ideias de Mondlane não corroboravam com a Frelimo vencedora da Guerra de libertação que se apresentou a nós em 1975.


O verdadeiro pensador Mondlane era um homem liberal, era mais do que hoje chamaria da Direita, era um homem que escreveu em 1962 antes de ingressar na Frelimo um livro sobre Woodrow Wilson e a Auto-determinação Africana em que o ponto central era o federalismo. Então as ideias vencedoras, primeiro no II Congresso em 1968 e aquelas que se apresentam depois do acordo de 1974 e na independência em 1975 não se coadunavam com as ideias que Mondlane trazia. Então pegou-se no Mondlane dos ideais e meteu-se num placar, porque esse Mondlane não era consensual na Frelimo vencedora, e nos foi apresentado um Mondlane de conveniência.

Quer dizer que há um terceiro Mondlane muito mais interessante que nós não conhecemos, é um Mondlane escondido, o Mondlane não revelado, o Mondlane com ideias políticas que hoje até podem ser de uma grande ajuda para nortear o debate politico de Moçambique, o que tento trazer no livro que vou publicar brevemente é este Mondlane que nos foi Escondido, que não conhecemos, que talvez não era adequado à política de Moçambique em 1975 mas que talvez hoje ele pode ter propostas interessantes para o Moçambique ideal. Até que ponto esse Mondlane pode ser últil hoje? A mim parece que há quatro razões para invocar Mondlane para um debate moçambicano hoje, há uma razão que vou chamar de Política. Mondlane desde sempre foi um defensor acérrimo do compromisso e do diálogo. Mondlane teve como concorrente Urias Simango, mas ele conservou Simango como seu vice-presidente, Mondlane sempre teve contraposições ideológicas com Marcelino dos Santos mas sempre trabalhou com ele. Ele estava convencido que é no diálogo, é na palavra, é no consenso que se faz política e se fazem avançar nações.


O Moçambique que nós conhecemos que caiu na violência, nas contraposições, nos conflitos é um Moçambique em que prevaleceu mais a ideia da linha correcta, daqueles que têm razão, do uso da força política e das armas para fazer vincar a ideia em detrimento da ideia dos adversários. Ora a violência já mostrou todos os seus limites. A Guerra dos 16 anos, a Guerra constante, o não entendimento, o parlamento que não funciona, são todos limites evidentes dum processo de violência que estão a dizer em outras palavras, a gritar de uma forma forte para a necessidade de encontrarmos uma nova via de fazermos política, mais de paz, da palavra e de busca de consensos. Então aquele Mondlane que 1975 não tinha espaço ele constitui um passado não ultrapassado, talvez um passado que tenha muito futuro, então susceptível a ser convocado para um debate actual da moçambicanidade. Quer dizer que ao relermos toda a produção intelectual de Mondlane podemos encontrar os remédios para os males de hoje? Há uma segunda razão que eu chamo de hipótese epistemológica. Se você olha para Lutar por Moçambique, há uma frase que foi posta numa exposição no Museu Nacional há pouco tempo atrás em que dizia assim “os portugueses querem negociar nas condições deles, mas nós queremos negociar nas nossas condições”. O que significa isto, qual é a força disto? Quando você olha para o que era a Frelimo, que era um punhado de jovens com muita vontade e muita energia, não tinham Estado, não tinham uma Nação, não tinha um exército organizado, não tinha escolas, não tinha universidades, mas Mondlane estava convencido de que era possível ter uma posição e um ponto de vista moçambicano.

Hoje Moçambique nunca teve uma dimensão tão fraca em termos de posicionamento como hoje, nossa política é feita pela vontade do FMI, do Banco Mundial, daqueles que vão a busca de petróleo no norte, é feita por qualquer empresa que chega a Moçambique, a Mozal, Vale, o Prosavana, nós não temos um ponto de vista moçambicano. Nós carecemos de uma vontade moçambicana, o que nós queremos como Moçambique. Nós estamos sempre a seguir aqueles que vêm fazer-nos propostas para tirar o mínimo de conveniência. Mondlane em 1969 sem país, sem república, sem universidade, sem exército, sem intelectuais, sem Estado, queria ter um ponto de vista moçambicano. Eu penso que retrazer Mondlane para o debate de hoje temos que nos interrogar quanto à necessidade de termos um ponto de vista moçambicano para a solução dos nossos problemas. Para fazer confluir os moçambicanos e termos uma visão e orientação comum. Há uma Terceira coisa que me parece extremamente importante trazer da visão de Mondlane, é que quando você olha para a dimensão política é que Mondlane defendia o Federalismo, o que entendia por federalismo? Era a necessidade de criar um país, estava consciente da sua unidade, mas também da sua diversidade estrutural em termos religiosos, políticos e culturais. Hoje as guerras que temos em Cabo Delgado invocados razões religiosas e culturais, a Guerra que tivemos no centro até invocamos razões étnico-religiosas, Mondlane queria que fôssemos conscientes que somos uma pirâmide e que a mesma nos levasse a que as comunidades na sua diversidade participassem na vida política comum numa interacção em que o polo de cima influenciasse o polo de baixo e vice-versa num processo de interacção simbiótica recíproca.

Se você olha até para o sistema de descentralização a que chegamos depois de termos sido centralizados, termos negado a ideia de que todos participassem e todos os grupos na sua diversidade, fomos recuando pela força da Guerra e hoje estamos na descentralização. Mas a nossa descentralização fica muito aquém daquilo que eram os ideais de Mondlane. Porque a nossa descentralização leva-nos a termos um governador e a ter o seu guarda-costas ou o seu vigilante que é o Secretário de Estado. Ainda não estamos na confiança uns para com os outros para criarmos um sistema de participação em que as pessoas, grupos, comunidades participem num sistema simbiótico na interacção e construção dialéctica do país. Em ultimo lugar, Mondlane não esteve na primeira República, Mondlane não esteve em 1975 quando nos proclamamos Estado Socialista, mas Mondlane não esteve em 1992 quando assinamos os acordos de paz e nos encaminhamos para uma República Pluralista. Na senda daquilo que chamei a Terceira via, Mondlane não está atrás de nós, nos 50 anos da sua morte e no Centenário do seu nascimento, mas me parece alguém que está em frente de nós a nossa espera para que quando nós estivermos prontos como país, como povo e como nação vamos iniciar a intimar um diálogo necessário com ele, com seu pensamento e suas ideias. O que aconteceu para que este Mondlane não fosse compreendido? Não foi que não foi compreendido. É que houve uma dialéctica política que se passou no interior da Frelimo de 1964 a 1968, essa dialéctica era interna na Frelimo protagonizada por alguns membros que tinham percurso, ideias e valores diferentes mas também era premiada pelo conflito da Guerra fria e intervindo sistematicamente na dinâmica da evolução da Guerra e do conflito. E em terceiro lugar pelo posicionamento Americano a que Mondlane estava ligado que a certa altura tiveram que escolher ou estar próximo de Portugal ou estar próximo dos movimentos de libertação.

John Kennedy e logo a seguir os Americanos que dirigiram o país decidiram que para os interesses deles era melhor estar ao lado de Portugal. Então Mondlane perdeu, no conflito ideológico que opunha essencialmente a tendência guiada por Marcelino dos Santos ganhou e Mondlane perdeu. Mondlane ficou sem os apoios necessários.


E a perda de Mondlane levou a que a sua influência no interior da Frelimo fosse diminuída e que ideologia de esquerda daqueles que estavam prontos a apoiar materialmente fosse prevalecendo. Há uma entrevista que ele fez a Aquino de Bragança que é muito significativa, ele diz que chegaram lá com um único objectivo que era a libertação do país, mas as circunstâncias históricas e da História Mundo, foram se metamorfoseando até fazerem dele quase socialista, eu acho que essa entrevista é quase tendenciosa porque tenho dificuldades que Mondlane tenha chegado de facto a ser socialista.

0 visualização

Subscreva a nossa Newsletter

  • facebook

Ficha técnica

Director Editorial: Luís Nhachote (+258 84 4703860)

Editor: Estacios Valoi 

Redaçao: Germano de Sousa, Palmira Zunguze e Nazira Suleimane

Publicidade: Jordão José Cossa (84 53 63 773) email jordaocossa63@gmail.com

 

NUIT: 100045624

Nr. 149 GABIFO/DEPC/2017/ MAPUTO,18 de Outubro  

Endereço Av. Cardeal Don Alexandre dos Santos 56 (em Obras)

© By BEEI