Porque a África do Sul tem um grande interesse na violência extremista no norte de Moçambique


Por Theo Neethling


Uma crescente insurgência nas partes norte de Moçambique chamou a atenção de analistas e observadores de conflitos em todo o mundo. Agora existe a possibilidade de a Força de Defesa Nacional Sul Africana se envolver na Província na Província nortenha de Cabo Delgado com o objectivo de acabar com a violência mortal, atrocidades, sequestros e destruição de infra-estruturas.

Caso o governo sul-africano decida enviar suas forças armadas, o principal objectivo seria concentrar-se nas actividades violentas de um grupo islâmico extremista e militante, Ahlu Sunnah Wal Jammah. Também é conhecido localmente como Al Shabaab, embora não tenha conexões com o movimento somaliano de mesmo nome. O grupo tem como objectivo estabelecer suas próprias mesquitas e madraças para aumentar a disseminação de seu dogma radical.

Ahlu Sunnah Wal Jammah começou como uma seita religiosa que se transformou em um grupo de guerrilha. Inicialmente, o seu objectivo era impor a lei da Sharia (lei islâmica) em Cabo Delgado. Rejeitou a escolaridade, o sistema de saúde e as leis do estado, o que resultou em muita tensão na província. Alguns analistas argumentam que o movimento é mais motivado pela ganância do que por dogmas ou queixas: Por semana ganha milhões de dólares através de actividades criminosas relacionadas à mineração, exploração madeireira, caça furtiva e contrabando.

Seja como for, muitos de seus membros parecem ser jovens socialmente e economicamente marginalizados, sem educação adequada e emprego formal. A eles se juntam jovens imigrantes em uma posição marginalizada semelhante. Estima-se que os membros do movimento estejam organizados em dezenas de pequenas células ao longo da costa do norte de Moçambique.

Há uma preocupação generalizada com relação a esses desenvolvimentos. Se a África do Sul - e especificamente a sua força de defesa - se envolver, certamente estaria a aventurar-se para um cenário altamente violento e complexo, exigindo operações do tipo antiterrorismo.

Tais operações são sempre altamente desafiadoras. O combate às forças terroristas e insurgentes em Moçambique podem ser tão desafiadores quanto as prolongadas operações contra o Boko Haram e Al Shabaab, as seitas militantes islâmicas que operam predominantemente na Nigéria e na Somália, desestabilizando grandes áreas com suas campanhas terroristas.


Por que deveria haver séria preocupação com a situação em Moçambique?


Moçambique faz fronteira com a Tanzânia, Malawi, Zâmbia, Zimbábue, África do Sul e eSwatini. Quatro desses seis países não estão no litoral e, portanto, dependem de Moçambique como porta de entrada para os mercados globais. Os eventos em Cabo Delgado poderiam, assim, ameaçar a estabilidade regional.

Embora Mocímboa da Praia, considerada a sede dos extremistas, esteja a cerca de 2.500 km da África do Sul, o grupo também apresenta um desafio ao país. Afinal, Moçambique tem fortes laços económicos com a África do Sul como o motor económico da região. A estabilidade regional é certamente do interesse da África do Sul.

Do ponto de vista sul-africano, quatro questões principais se destacam. São eles: o perigo da propagação do extremismo islâmico tão perto de casa; a importância estratégica da área sitiada; fraqueza das forças de segurança moçambicanas; e combater o crime organizado.


Extremismo violento


Este é o primeiro caso de extremismo violento desse tipo na África Austral. É também a primeira manifestação de um movimento militante associado ao Estado Islâmico do Iraque e da Síria, e a noção de uma insurgência jihadista.

Até recentemente, actos de terror realizados por extremistas no sul da África estavam confinados à Tanzânia e Zanzibar.

É difícil verificar o número de mortos e os deslocamentos de cidadãos moçambicanos em Cabo Delgado. Mas no geral os relatórios indicam que mais de 1.000 pessoas morreram e cerca de dois milhões são afectadas pela crise.

Em segundo lugar, nos últimos anos foram identificados grandes depósitos de gás natural offshore, atraindo alguns dos maiores produtores de energia do mundo. A exploração offshore na área de Cabo Delgado está entre os três maiores projectos de gás natural líquido da África.

Já forma feitos investimentos de bilhões de dólares, mas uma escalada de violência poe em risco o futuro desses investimentos.

Esses projectos podem ser de grande importância para o alívio da pobreza no país. A pobreza afecta a maioria das pessoas nas áreas rurais com baixos níveis de educação formal. A actividade económica em Moçambique melhorou nos últimos anos e tem potencial para se fortalecer num futuro próximo. Mas muito dependerá dos megaprojectos em Cabo Delgado, reestruturação da dívida, COVID-19, estabilidade macroeconómica, a melhoria da governança política e económica, entre outros factores-chave.

Durante décadas, a África do Sul sofreu um índice elevado de migração ilegal de moçambicanos devido a desafios de desenvolvimento em seu país. Assim, o desenvolvimento económico, político e social em Moçambique é da maior importância para a África do Sul, que luta contra a pobreza maciça e o desemprego.

Embora a exploração em Moçambique seja offshore, as instalações de apoio são onshore e mais vulneráveis ​​aos ataques. As empresas estrangeiras com seus investimentos maciços se sentem ameaçadas, especialmente agora que as decisões finais de investimento precisam ser tomadas.

A África do Sul tem outro interesse nesses desenvolvimentos. Desde 2014 a SASOL multinacional sul-africana de energia e química investe avultadas somas em projectos de exploração de gás.

A chegada de empresas estrangeiras levou a um profundo descontentamento entre as pessoas locais, profundamente afectadas por suas actividades. Tiveram que se mudar para abrir espaço ao desenvolvimento da infra-estrutura, e, ainda as reclamações sobre a compensação que receberam, também insatisfeitos pelo facto de terem sido reassentados mais para o interior, longe da costa, das áreas de pesca.

Esses factores complicam ainda mais os desafios de segurança num cenário social muito delicado. Além disso, os insurgentes podem explorar facilmente as fragilidades locais, à medida que as coisas acontecem no seu meio.

Os militares e a polícia de Moçambique provaram não serem capazes de conter os militantes. Não conseguiram impedi-los de tomar a cidade estratégica do norte de Mocímboa de Praia, bem como invadir uma cidade perto de Quissanga.

Para combater a crescente insurgência, o governo moçambicano contratou o grupo Wagner, uma empresa militar russa privada, para ajudar as forças do governo. Mas a situação parece ter ido de mal a pior.

Um grupo de segurança sul-africano, o Dyck Advisory Group, alegadamente também estava a apoiar o governo moçambicano.

Uma quarta causa de preocupação com a dinâmica na província de Cabo Delgado está relacionada ao crime organizado. A área é um importante canal para contrabando de drogas e outros. O volume de heroína produzida, enviada do Afeganistão ao longo de uma rede de rotas, via leste e sul da África, aumentou consideravelmente nos últimos anos.

Cabo Delgado é um ponto-chave para o contrabando de drogas, animais selvagens, madeira, pedras preciosas e ouro. A insurgência dificulta a aplicação da lei na província.


Sem escolha


As operações destinadas a combater os extremistas islâmicos tendem a continuar por muitos anos. O sucesso na contenção de ataques terroristas violentos requer respostas cuidadosas e de longo prazo.

O ideal é que estas devem incluir um conjunto misto de intervenções, incluindo reforma social, desenvolvimento económico e níveis da força militar.

O envolvimento político da África do Sul é agora quase inevitável, já que a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral já se comprometeu a ajudar Moçambique na luta contra a insurgência. Isso torna altamente provável que as forças militares da África do Sul se envolvam de alguma forma. (Fonte: The Conversation)

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