Os refugiados da guerra e das mudanças climáticas’ (The refugees of war and climate change)


Por Estacio Valoi, em Praga


Um dedo de conversa com o fotógrafo Moçambicano António Cossa radicado em Praga, depois da sua mais recente visita a Moçambique e a exposição fotográfica intitulada ‘ os refugiados da guerra e das mudanças climáticas’ ( The refugees of war and climate change) realizada na Cidade do mesmo nome onde vive faz mais de uma década, em resultado do seu périplo pelo arquipélago das Quirimbas, do no findar do período emocional das cheias que abalou Moçambique, a ajuda humanitária e a militarização das zonas afectadas no Norte de Cabo Delgado.

Depois de uma viagem que teve o seu prelúdio pelas quatro horas, o barco largou do porto de Pemba indo pela Ilha do Ibo adentro onde permaneceu alguns dias, retornando à cidade de Pemba via terrestre depois de ter saído de Ibo com emergência, deixando para trás os sapatos. Para fechar a entrevista tive que escalar Praga e ver a exposição. Contudo, com uma falta vermelha por lá me ter feito tardiamente.


Ibo tão perto e tão distante!


Tinha que sair daqui para o Ibo. Era um Ibo fantasiado e, a mistura daquela fantasia de Ilha, e também com o drama do ciclone, tinha em mente uma curiosidade enorme de palmilhar o lado terrestre. Visto pelo mapa, para chegar a Ibo é como estar em Pemba e no salto seguinte já lá estás.


Mas ao Ibo é mesmo dar um salto. Foi?


Na altura, uma das pontecas ou ponte estava destruída. Perguntei a algumas pessoas sobre o acesso via Quissanga, Tanganhica, um acesso que para aquelas famílias que da ponte dependem! Algo surreal! O que fotografei é algo diferente do ciclone Keneth ou do Idai. Naquela via da ponte sobre o rio Montepuez para o outro lado, mulheres nuas pousando para atravessar a ponte com sacos de tudo que pudessem levar, tudo no saco avaliado nuns 150 meticais.

Lá vivem quem da ponte depende, é algo surreal. O que fotografei não é algo ao estilo ciclone Keneth ou Idai. Aquela via da ponte do rio Montepuez, para o outro lado, são mulheres casadas pousando nuas perante milhares de homens e mulheres, sendo o homem obrigado a ver isto, mas é a única maneira que as mulheres têm de atravessar com sacos e sacos de peixe seco, e no saco tudo que vem dentro vale por aí apenas uns 150 meticais. Terem que meter a mota no rio para a travessia todos os dias.

Paquitequete para lá, apanhou um Chapa. 3 Horas de trajeto é o que te leva para um sítio, para a ponte principal que os separou sendo uma das piores coisas. Estás a ver alguém com uma mota mas a ter que meter a mota todos dias num rio para poder passar!

A água que se bebe na ilha do Ibo é água misturada, salgada e doce. Tive que beber Gin para desinfectar. Psicologicamente até podia ser uma desinfecção! Fiquei lá quatro dias a dormir por cima de pedras e, desde de Pemba donde saí descalço, assim foi até ao meu regresso.


Referiste as mulheres de seios de fora como fazendo parte do hábito, costume por aquelas zonas ou nuas a exibirem o seu corpo?


Não. Os seios estão expostos, mas tem clientes, tem bicicletas, motas! Digo, ficarem nuas no sentido de uma mulher com o marido, principalmente nesta zona onde não são cristãos, cada parte do corpo tem um sentido, e devido às águas e cheias, terem que todos os dias passar por um rio, expor-se perante todas aquelas pessoas! Elas expõem-se porque têm que atravessar o rio, puxar a capulana para cima, as calças, as gangas. Eh pá! Só as fotos é que podem falar por elas.


A maior parte dos jornalistas foi e esteve no Ibo na fase emocional, da água. As ONG’s, algumas nos seus relatórios chegaram a usar fotos das cheias do ano 2000. Na fase da reconstrução, ninguém anda por lá. Que comentário?


Não foram lá jornalistas! Em dois ou três distritos onde o ciclone teve um impacto nefasto, de Macomia, eles vêem o ciclone como outro filme e, foi ali onde precisamente me sentei três a quatro horas à espera de um Chapa que não vinha! Via um carro lá! Um vinha e outro ia! Nós estamos mal mas lá também está mal, pois a comunicação na Ilha acabou! Eu não estou a dizer que Ibo em si foi a parte mais afectada. Claro que tem problemas de acesso, uma desculpa que o Estado-Governo usa como carta-branca! As pessoas vivem em tendas. Vi pessoas com sacos de arroz, os ditos “cheaps” rebuçados que chegavam como parte da ajuda humanitária. Claro que as crianças vão ficar felizes com um sorvete! Para sobreviver vou comer Xima com peixe ou mandioca. O ciclone matou muito peixe.


Disseram-me que no Ibo até havia comida de sobra! Vi helicópteros sair de Pemba para aquelas zonas incluindo Ibo!


Eu passei fome! Não tem nada, nada, nada. Tu vais falar com a população. Receberam um balde amarelo, mesma cor, por aí podemos descobrir de que organizações receberam, São todos iguais! Uma lona branca que todos têm, lá nada chegou de verdade!


Essas organizações que lá chegam?


Não vão fazer nada, digo isso no fundo do meu coração, nada. Falei com algumas pessoas, tenho nomes aqui.


A questão da militarização naquela zona?


O Estado deu aos militares uma autoridade para explorar o povo. Tenho imagens. Têm postos de controlo falsos, com um papel escrito ‘stop’ a caneta, uma corda esticada. Os comerciantes que por aquela zona passam vão vender mandioca e os militares vão extorquindo-os. Tenho fotos de militares que de militar apenas tem o casquete e uma AKM, o resto do traje é de um civil que trás sapatilhas. Como é que vais distinguir “quem” e “donde vem”?

Tudo que não conhecem na vila, no distrito, o povo lá é que faz justiça. Quando eu saí da ilha, tinha medo dos militares mas depois comecei a ficar com mais medo do povo, sempre vigilantes. Se não fosse o meu guia que fala língua local, estarias a ver alguém entre a espada e a parede! É perigoso para um jornalista que queira investigar. Pior é que o povo tem certeza que é Al-shabaab!

Já pois na cabeça. E, apareço eu assim sujo… (Risos). Exibi o passaporte, BI. Na mesma altura apareceu uma pessoa de Maputo que por lá anda perdido faz muito tempo. Falou comigo em Changana.

Mas o mesmo e outros militares, SISE o Serviço de Inteligência e Segurança do Estado, andam por la. Já te conhecem, sabem que és jornalista. Mas depois de umas três cervejas quentes, o mesmo militar que esteve contigo durante o dia, já começa com muitas perguntas. ‘ Mas você mesmo quem e’ , de onde vem mesmo Cossa?”

Paguei mais umas quantas boas cervejas e baldei-me. Dia seguinte já estava na no asfalto. Não perceberam como sai!

Então nós agora que não somos do norte viramos vítimas, só por ser estranho, porque antes de nós nos identificarmos querem saber, e tornas-te um algo e pior se não tiveres uma interferência rápida! Chegas numa barraca, eles rodeiam-te, não fazem perguntas ou falam contigo. Entre eles cogitam, deve ser aquele.

E a outra cena é a atenção, a paranóia que os gajos é prá informação, a Mídias que não existe, não existe porque não tem ninguém. Se tivéssemos estado lá juntos, acho que não voltávamos! O povo está chateado. São as pessoas que fazem controlo nos chapas em cada distrito, passar de Bilibiza e esconder o chapéu de cor verde apenas porque parece militar. Mas os militares conhecem.

Eu de 'dreads', e, eles é tanzaniano esse é Al Shabab. Não percebes macua mas consegues ouvir, estás a ver aquela mamana que tem voz na aldeia a dizer este aqui é tanzaniano de Al Shabab, estás a ver descalço assim! O chapeiro a dizer olha, vou ter que deixar aqui! Ele já a começar a tremer “vou ter que deixar aqui, acho que a população quer te comer meu e antes de eles queimarem o carro.”

Uma senhora e um senhor que viajou no mesmo barco connosco, estiveram em Pemba e vieram do mesmo barco, vão ao Ibo ou vêm do Ibo. O cenário não é porque a ilha foi vítima, mas é um ponto que foi abandonado mesmo e tu sentes isso.

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Ficha técnica

Director Editorial: Luís Nhachote (+258 84 4703860)

Editor: Estacios Valoi 

Redaçao: Germano de Sousa, Palmira Zunguze e Nazira Suleimane

Publicidade: Jordão José Cossa (84 53 63 773) email jordaocossa63@gmail.com

 

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Nr. 149 GABIFO/DEPC/2017/ MAPUTO,18 de Outubro  

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