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Os moçambicanos têm um problema: não estão a ser decapitados por brancos


O problema dos moçambicanos é que o seu agressor não é branco, o vilão desta história não é o "homem branco", não é a velha África do Sul, não é Israel, não é a América. Como os seus agressores são outros negros (radicalizados pelo isis), as boas consciências de Lisboa calam-se. É só isto


A situação em Moçambique é infernal há bastante tempo. No norte do país, grupos radicais islamitas matam e decapitam populações inteiras. Esta semana ficámos a saber que estes radicais também decapitam crianças. A dimensão do inferno moçambicano só é equiparável ao silêncio lisboeta sobre o assunto. Em Lisboa, na 'Lesboa' mediática dos políticos, comentadores, intelectuais e profissionais da indignação, não se ouve um piu. A situação em Moçambique é uma obscura nota de rodapé.


O Presidente não coloca o assunto na agenda. O primeiro-ministro não coloca o assunto na agenda. O ministro dos Negócios Estrangeiros não coloca o assunto na agenda. As redações não colocam o assunto na agenda. Os intelectuais não colocam o assunto na agenda. Os profissionais do cancelamento e das fúrias mediáticas não colocam o assunto na agenda. Há um silêncio abjeto sobre uma situação que afeta as populações do norte de Moçambique. Figuras moçambicanas como Mia Couto lançam alertas que caem em saco roto. Porquê? Ora, o problema dos moçambicanos é que o seu agressor não é branco, o vilão desta história não é o "homem branco", não é a velha África do Sul, não é Israel, ou os EUA. Como os seus agressores são outros negros (radicalizados pelo isis), as boas consciências de Lisboa calam-se. É só isto.


As boas consciências de Lisboa estão mergulhadas numa espécie de racismo invertido que segue este guião: só nos indignamos com a violência praticada pelo homem branco; não nos podemos indignar com a violência praticada pelo homem negro ou castanho, pois isso será sinal de racismo! Na geração anterior, as boas consciências só se indignavam com a violência das potências capitalistas; ao mesmo tempo, calavam-se ou apoiavam a violência das potências comunistas. Esta fraude que nos apascenta em 2020 é uma versão recauchutada dessa vulgata.


EXPRESSO(Lisboa) – 18.03.2021

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