Os Malfeitores não Dormem


Por: Estacio Valoi


Segunda-feira de manhã e o mundo continua temoroso por causa da crescente pandemia de origem desconhecida que continua a expandir-se e que tem causado um grande número de mortes. Com início na China, o novo Coronavírus tornou-se viral, espalhando-se por muitos outros países. Pelo que agora, enquanto se prolonga um conflito armado aqui em Moçambique, na Síria e noutros locais, luta-se uma outra guerra na China, EUA, Europa e África – aliás, em todo o mundo – contra o vírus conhecido por Covid-19. Cientistas, políticos, ambientalistas, e outros especialistas acham-se contra a parede, tentando combater um inimigo invisível.

Desde então, este Coronavírus está diariamente, 24 horas por dia, nas manchetes dos jornais praticamente a nível mundial. Todos concentrados ou a atender ao problema, vão ignorando outros assuntos importantes que acontecem no mundo. Enquanto a atenção é virada para o número de afectados e mortes pelo vírus, e estados de emergências são impostos ou amenizados nos vários países, esquecemo-nos de olhar para o que se passa nos nossos próprios quintais. Por outro lado, para alguns a pandemia representa uma forma de aumentar os seus lucros, produzindo rapidamente meios necessários, mesmo que por vezes resultem em produtos de má qualidade.

Outros encontram no vírus novas oportunidades para fortificar as suas práticas maliciosas de saque, furto, lavagem de dinheiro e corrupção. Adquirem ainda grandes contratos relacionados com a pandemia ou expandem o mercado e distribuição de drogas ou as suas actividades de terrorismo extremista. Em Moçambique, com a campanha de antiterrorismo em Cabo Delgado, ao norte, os generais militares e outros indivíduos estão no negócio da guerra, alcançando contratos, e portanto milhões de dólares, para logística e protecção das empresas de petróleo e gás!


Dormindo por Baixo da Sombra!


O novo Coronavírus também está a alimentar a corrupção. A velha/antiga rede de contrabando encontrou uma forma de aumentar o seu rendimento: ”É óptimo que o Covid-19 apareceu para podermos fazer mais dinheiro.” Parece que se tornou um bom negócio para os malandros.

De facto, o vírus representa um problema sério para o continente Africano, em particular para a Região SADC, que à partida sofre já apresenta muitas dificuldades. Olhando apenas para Moçambique, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que apenas 36% dos seus cidadãos têm acesso a instituições de saúde a menos de 30 minutos das suas residências e que existem apenas 24 ventiladores em todo o país. De acordo com o Estado Moçambicano, este requisitou já aos seus parceiros “700 milhões de Dólares Americanos para combater o Covid-19.” Um país rico/pobre que vive com a mão estendida, mendigando fundos monetários a doadores ocidentais.

Isto num país em que os membros do Parlamento recebem 42 a 77 vezes mais que o salário mínimo. Estes salários elevados são perturbadores, especialmente quando aos mesmos são adicionados pagamentos-extra ou subsídios. O resultado? Os orçamentos disponíveis para a agricultura ou saúde são reduzidos, e portanto limitado o acesso a equipamento protector (máscaras e luvas), ventiladores e outros meios de saúde.

“Um membro comum do Parlamento recebe 33.357 Dólares Americanos por ano, acrescidos de 6.251 em despesas eleitorais e de 52.690 e de 9.313 para outras despesas. Podemos dizer que é um salário alto? Membros seniores de organizações não-governamentais locais financiadas por doadores, obtêm também muito mais que o salário mínimo. Quando se comparam os salários mínimos estabelecidos por sectores, verificamos que um membro comum do Parlamento arrecada 15 vezes mais que o salário mínimo de um trabalhador de banco e 42 mais do que o de um trabalhador da construção covil ou agricultura. Este valor aumenta para 50 vezes mais quando se incluem as despesas eleitorais, que alguns empregam como parte do seu rendimento. O salário de um membro da Assembleia da República, vice-presidente ou presidente de partido constitui 23 vezes vezes o salário mínimo de um trabalhador de banco, 67 vezes o de um trabalhador na agricultura, ou 77 vezes o do mesmo sector quando incluídas despesas.”

A lavagem de dinheiro, fuga aos impostos, tráfico de drogas, e outras ilegalidades continuam. Esta situação é bem ilustrada com a captura do procurado por suspeição de ser um importante traficante de drogas, Leonardo Simbine, mais conhecido por Fuminho. “Um conhecido barão de drogas, indiciado por vários crimes e procurado pelas autoridades Brasileiras há cerca de 21 anos, é o sujeito de um mandato de captura internacional,” foi detido em Moçambique. Quem são os políticos e indivíduos por trás que protegem o Fuminho em Moçambique? Distraídos com o Covid-19, descuramos que este país é um ‘corredor de drogas’ para o mundo. A realidade é que Fuminho vivia uma vida de luxo neste país, viajando regularmente para a Cidade do Cabo na África do Sul. Com certeza não se deslocava entre os diferentes países para desfrutar da brisa, bronzeando-se, banhando na linda praia da Ponta do Ouro, ou mergulhando nas águas frias do afamado Cabo.

Entretanto na vizinha Zâmbia a economia vai de mal a pior devido aos ‘cleptocráticos’ e à má gestão, enquanto que a liberdade de expressão é comprometida. Isto acontece também em muitos outros países, que evitam que os jornalistas denunciem os malfeitores e as suas actividades ilegais, tudo sob a sombra da eminente pandemia.

Parece que, de uma forma ou de outra, quando um membro da imprensa se concentra apenas no Covid-19, acaba formatado ou aprisionado no objectivo dos regimes actualmente no poder. Do Canadá surgiu a notícia de que 1 milhão de máscaras adquiridas da China eram afinal de contas inadequadas para o coronavírus! Como é que isso aconteceu?

Há ainda as revelações da rota de pilhagem para o Panamá – o projecto dos Documentos do Panamá, que revelou o ano passado que vários líderes e políticos Africanos, em conjunto com seus familiares e amigos, estão entre os que acumulam riquezas recônditas em contas bancárias offshore.

“Foi por causa de relatos como a do First Quantum, e por causa dos Documentos do Panamá, que decidimos dar uma olhadela mais de perto aos líderes políticos Africanos.” No Togo, o presidente e os seus comparsas lidam com os Fosfatos. Em Moçambique, as licenças de mineração estão nas mãos de generais. Na RDC, o assessor anticorrupção não paga impostos. No Ruanda, são óbvios todos os arranha-céus do partido no poder. No Burundi, a milícia de protecção. Na África do Sul, os Zuptas possuem impérios de bancos no Dubai. No Botsuana, o presidente é dono do paraíso.”

“Os oligarcas Africanos fazem muito mais do que aceitar subornos. Eles travam o desenvolvimento de sistemas de governança ou destroem os que já existem para abrir caminho para o saque. Extraindo riquezas dos seus países e acumulando-as em destinos fora do continente, deslocando-se aos mesmos frequentemente para fins de educação, tratamento médico, férias e residência, tornaram-se quase indissociáveis aos colonizadores do passado.”

É como se de repente o mundo, jornalistas, imprensa investigadora e financiadores tenham se tornado cegos para estas preocupações. O número de investigações parece ter reduzido e os vigilantes parecem estar a dormir. Fundos centrados no maldito coronavírus são atribuídos a jornalistas que, consequentemente, acabam por ser obrigados a relatar apenas histórias relacionadas com o mesmo.

Quando olhamos para o nosso próprio pátio, como a Colectivo Investigativo AIPC demonstrou, os oligarcas Africanos continuam a saquear as suas nações de riquezas e recursos naturais e minerais – madeira, recursos pesqueiros e fauna bravia. Estes saques frequentemente envolvem gangues criminosas de nacionais e de cidadãos Chineses. Até nas eleições há furto de votos. Urnas eleitorais são previamente empilhadas com votos, por vezes até de defuntos. Biliões de dólares desaparecem continuamente todos os anos, que são ocultos em países offshore. Os patifes não dormem. Em vez disso, os seus negócios estão a prosperar e a expandir, e as suas actividades ilícitas legalizadas pelos respectivos governos.

As pessoas esquecem-se de olhar para os seus próprios quintais, para factores como a malária e o Ébola. Mais uma vez, esta semana “quatro pessoas faleceram com Ébola num novo surto na RDC,” declarou o Ministro da Saúde daquele país. “O novo caso do vírus mortal surgiu na Província Oeste de Equateur, a mais de 1.000km do surto em curso a leste.” Cólera, fome, e falta de alimento são também endemias permanentes.

São agora também ignorados a falta de investimento agrícola, as mudanças climáticas, as cheias e os sistemas de saúde pobres – consequências principalmente da usual cleptocracia e do assalto a nações Africanos em triliões de Dólares Americanos, que depois desaparecem em contas bancárias offshore. Estados de emergência foram instituídos em quase todo o lado. Nalguns locais é exigido um confinamento, mesmo em regiões onde se podem encontrar 10 pessoas a viverem juntas num quarto, sem água ou condições sanitárias. Para muitos o distanciamento social é quase impossível, em particular para indivíduos que vivem do comércio informal diário.

As sociedades acordaram um dia e tropeçaram na pandemia. E mesmo no meio de governações que bloqueiam a liberdade de imprensa e violam direitos humanos, todos parecem estar a pensar, comer, dormir e mesmo a sonhar com o Covid-19.

É o caso de Moçambique, em que grupos extremistas parecem estar aproveitar esta fase do novo coronavírus. O lema da União Africana (UA) para este ano de 2020: "Silenciar as armas." O objectivo da África do Sul, como presidente da UA, era realmente o silenciamento das armas. No entanto, isto não parece ser alcançável, especialmente agora que o país se debate com a pandemia. Na realidade os ataques do Estado Islâmico (EI) intensificaram-se em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, desde o início do surto viral. Mais do que nunca, a UA enfrenta uma verdadeira e real ameaça do EI que promete alastrar-se para a região.

Numa conferência de imprensa que decorreu faz mais de mês sobre esta situação, o Secretário-Adjunto do Departamento de Estado do Centro de Imprensa da Região Africana dos EUA, Tibor Nagy, expressou a sua inquietação: “Uma situação muito preocupante, que começou num movimento miúdo e é agora um movimento muito maior.” Como exemplo, ele comparou a situação em Cabo Delgado com o risco que a Boko Haram impõe na Nigéria. “A Boko Haram iniciou como um pequeno movimento, mas por causa da forma como as autoridades Nigerianas responderam inicialmente, cresceu para uma ameaça muito séria, não só a noroeste da Nigéria, mas também em países vizinhos.”

O número de pessoas afectadas pela violência armada no norte de Moçambique cresceu de 152.000 para 162.000, declarou uma fonte oficial há algumas semanas. De acordo com o relatório da situação humanitária na Província de Cabo Delgado do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), os principais afectados localizam-se nos Distritos de Macomia (29.000), Mocímboa da Praia (26.000), e Quissanga (15.000),” estando os restantes distribuídos pelos sobrantes 14 distritos. Mas este número parece ter aumentado para quase 200.000 após os últimos ataques.

Os relatórios das Nações Unidas (NU) e do Programa Mundial de Alimentação (PMA) afirmam que, a medida que a pandemia do Covid-19 propaga, espera-se que resulte uma pandemia de fome no mundo. Estas instituições estimam que serão necessários, anualmente, cerca de 267 biliões de Dólares Americanos para fazer face à referida crise. Acrescentam ainda que actualmente aproximadamente 821 milhões de pessoas deitam-se à noite com fome, 300.000 estão em risco de morrer de fome todos os dias num período de 3 meses, e que 135 milhões de pessoas no mundo encaminham-se para a beira de uma situação de fome.

Com o aparecimento da pandemia, um número adicional de 130 milhões de pessoas poderão ser impulsionadas para uma situação de fome até ao final 2020, 77 milhões sofrem uma insegurança alimentar como resultado do conflito em 2019, 34 milhões experienciam também insegurança alimentar como resultado das mudanças climáticas em 2019, 24 milhões são vítimas de insegurança alimentar crónica devido à crise económica em 2019, “enquanto que ao lidar com a pandemia de Covid-19, também nos encontramos à beira de uma pandemia de fome.”

Apesar das estratégias antiterroristas, e enquanto o mundo se encontra sob quarentena imposta, o EI mantém as suas operações. Durante as actividades de 2014, para travar estas operações no Médio Oriente, foi referido que, “o sul da Ásia é anfitrião de mais organizações terroristas Islâmicas que qualquer outra região do mundo. O Al-Qaeda nasceu lá, no Afeganistão, e o EI tem as suas raízes nessa região.” Mesmo com a perda do seu líder, tudo indica que conseguiu manter a sua estrutura de comando e capacidades operacionais. O EI "permaneceu coeso, com uma estrutura de comando e controle intactos, redes clandestinas urbanas, e uma presença insurgente na maior parte da Síria rural," desde que Baghdadi foi morto numa incursão dos EUA em Outubro de 2019.

“Desde o início da pandemia, e que a capacidade de impor a lei e segurança a nível mundial enfraqueceu, o EI persiste com as suas operações no Afeganistão, África Ocidental e Central, Sahel, Egipto, e Iémen,” afirmou Rita Katz, directora do portal ntelligence Group. Esta tem vindo a acompanhar as redes virtuais afiliadas a jihadistas e organizações de supremacia branca. O EI tem “propositadamente tirado partido da pandemia com ataques no Iraque, Maldivas, e Filipinas,” acrescentou, e publicou de forma intensa apelos para ataques ao Ocidente.

O Secretário das Nações Unidas, o General António Guterres, lançou o aviso também de que grupos extremistas estão a tirar proveito dos confinamentos devido ao novo coronavírus para disseminar ódio e intensificar os esforços nas redes sociais para recrutar jovens que passam agora mais tempo ‘ligados’.

Durante o mês de Março de 2019, as Forças Democráticas Sírias (FDS) apoiadas pelos EUA capturaram a vila de Al-Baghouz, onde o EI perdeu algum território. No entanto, de acordo com o Centro para o Estudos Estratégicos Internacionais (CEEI) baseado em Washington, permanecem ainda cerca de 20.000 a 25.000 combatentes do EI no Iraque e Síria. Ainda em 2017, alegados ‘bandidos do Al-Shabbab’ foram responsáveis por inúmeros ataques que resultaram em cerca de 1.000 mortos, e deslocaram mais de 150 mil.

Quanto à guerra em Cabo Delgado, os malfeitores tiveram uma despedida entusiástica em Mocímboa da Praia e noutros distritos (https://www.moz24h.co.mz/post/guerra-em-cabo-delgado-malfeitores-tiveram-despedida-apoteótica-em-mocimboa-da-praia).

No dia 24 de Abril do corrente ano, as autoridades Moçambicanas reconheceram pela primeira vez que os terroristas do EI estão presentes em Moçambique. Isto depois da polícia anunciar um “massacre” de 52 habitantes na região rica em petróleo de Cabo Delgado. A matança foi reivindicada por um grupo local afiliado à jihadista internacional no boletim al-Naba.


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Inicialmente, a revista semanal em língua Árabe do EI, Al Naba, sugeria que o novo vírus era um castigo divino contra a China. No entanto, quando os casos aumentaram no Irão, Al Naba passou a admitir que Muçulmanos podem ser afectados pelo Covid-19, declarando tratar-se de um aviso aos “politeístas” Xiitas e, na Europa, que o Covid-19 tratava-se de uma retribuição às “nações dos cruzados.” Os seus artigos acautelam agora os seus seguidores para não se deslocarem aos países afectados, ao mesmo tempo que exortando aqueles já na Europa para executarem ataques.

O Covid-19 está a limpar o mundo, mas não podemos nos esquecer de manter olho nos nossos próprios pátios. Os Malfeitores não Dormem . (Moz24h)

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