Os apelos do músico Costa Neto ignorados pelo Papa Francisco


No dia 12 de Junho uma carta do músico Costa Neto era expedicta de Lisboa, capital portuguesa, para o Vaticano, na Itália, onde se encontra a sede da Igreja Católica Apostólica Romana. Dirigida ao PAPA Francisco, o músico originário desta pátria e radicado na diaspora tal como outros expatriados, se dirige de peito aberto ao sumo pontífice da igreja. Depois de fazer uma breve cronologia dos eventos do país desde a independência nacional, o músico remata no final da missiva “incita-me a consciência, sugerir com a devida humildade e vénia, a relevância de se rever o calendário da visita da Vossa Santidade a Moçambique, sob pena da interpretação menos abonatória de ingerência politica interna, o que seria certamente penoso para a Igreja, depreciativo para o Vosso Bom Nome e geraria indubitavelmente consequências negativas na convivência social.”

Pela relevância da mesma, o Moz24h que a obteve uma cópia da mesma, publicamos de seguida na integra.




Vossa Santidade

Papa Francisco


Sou cidadão Moçambicano

Tenho a honra de dirigir-me a Vossa Santidade, por quem granjeio enorme admiração e respeito, pela coragem, mas especialmente pela reconhecida determinação na defesa dos mais desfavorecidos.

Como povo, nós moçambicanos, tivemos um sonho colectivo em 1975, ano da independência nacional. Neste sonho, acreditávamos que o paraíso se chamava Moçambique, mas infelizmente, o que se seguiu foi um enorme pesadelo que já perdura a 44 anos.

De sinistro a sinistro, inscrevem-se muitas tragedias naturais, mas as naturais são incomensuravelmente maiores em número, na sua magnitude e pelo seu impacto; umas são mediáticas mas a maioria são dolorosamente silenciosas, diria mesmo, silenciadas.


Não sou pessoa abalizada para descrever com minucia o perfil técnico das causas da situação calamitosa do meu país, mas as consequências estão a vista de todos; o paciente padece de dor, mas quem definitivamente explica a patologia é o médico. Se o povo diz que “ quem não sente não é filho de boa gente”, eu diria mesmo, quem não sente não é humano.

Entre rumores de gestão económica promiscua, depois da tão anunciada prosperidade que resultaria de enormes recursos que o país possui, ainda carece de clarificação, por quem de direito, a profunda desgraça que se sujeitou o povo Moçambicano nos últimos anos.

Neste corrente ano de 2019, o país foi alvo do já considerado, maior desastre natural do hemisfério sul, que se tornou, por isso, numa notícia incontornável em todo o mundo e motivou uma onda de solidariedade sem precedentes, da qual somos eternamente gratos.


Em anos transatos , Moçambique foi palco de uma guerra civil que durou cerca de 15 anos e vitimou mais de um milhão de moçambicanos. O seu termo e reposição da paz em 1992 teve o mérito nos reconhecidos auspícios da Igreja Católica que Vossa Santidade dirige, mas lamentavelmente ainda se mantem inúmeros resquícios do conflito no terreno.

São, infelizmente, infindáveis os episódios dramáticos do quotidiano do povo Moçambicano, continuamente alimentados por perspectivas sempre frustradas pela desonestidade intelectual de alguma elite politica que, paulatinamente, o tempo tem vindo a descortinar, repercutindo-se num crescendo generalizado de descrença social das promessas do sistema.


Em outubro deste ano, realizar-se-á mais um acto nacional eleitoral, num ambiente total de descrença e desespero social, cujos preparativos implicam grandes estratégias de “ marketing “ que já estão, naturalmente, a ser engendrados. Em paralelo, e dando enfase ao ambiente “ politico-publicitário”, é anunciada a visita de Vossa Santidade a Moçambique para Setembro, precisamente o mês que acontece o respectivo pleito eleitoral, ficando a ideia de que Vossa visita tem uma relação directa com os eventos políticos locais, o que remete automaticamente ‘a interpretação ambígua de uma cumplicidade com o ambiente perplexo e dramático que se vive no país.


É a primeira vez que ouso escrever uma missiva a tão alta entidade, impulsionado por um histórico que corrói a minha alma de há muitos anos; e encorajado particularmente, pelo principio de Vossa Santidade que define como prioritários os desventurados. Sou absolutamente apartidário e sempre me distanciei de interesses corporativos, sejam eles políticos ou de outra índole, mas não me abstenho dos valores sociais, e preocupa-me profundamente o impacto que a sua visita criará na nossa sociedade nestas circunstâncias.

Em nome do bom serviço social aos desfavorecidos e pela prosperidade dos povos, incita-me a consciência, sugerir com a devida humildade e vénia, a relevância de se rever o calendário da visita da Vossa Santidade a Moçambique, sob pena da interpretação menos abonatória de ingerência politica interna, o que seria certamente penoso para a Igreja, depreciativo para o Vosso Bom Nome e geraria indubitavelmente consequências negativas na convivência social.

Tenho a honra de professar-lhe o meu mais profundo respeito


Para com toda a boa vontade de Vossa Santidade

Eu sou, sinceramente

Costa Neto

12 de Junho de 2019

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