O caçador de elefantes invisíveis*


Por Mia Couto


Surpreenderam o caçador Lauro Tsatso a preparar uma armadilha junto a uma picada que leva ao Parque do Chimanimani. O homem reagiu defensivamente, pensando que esses que o abordavam eram fiscais da fauna e o tomavam por um caçador furtivo.

Suspirou de alívio quando se apercebeu de que se tratava de uma brigada dos serviços

de saúde. Vinham da capital da província, e o seu propósito era informar as comunidades remotas sobre a Covid-19. Falavam em português, mas tinham dois tradutores para a língua shona. A mensagem principal era a mesma que tinham usado na cidade: recomendavam que todos ficassem em casa, respeitassem o distanciamento social e obedecessem às normas de higiene.


– Ouvi falar dessa doença – disse, de imediato, o caçador. – Escutei na rádio do Zimbabwe. Elestransmitem na minha língua, o shona.

Os técnicos do ministério tinham a lição preparada e desbobinaram a receita. Explicaram, primeiro, que o vírus era invisível. O homem acenou com a cabeça, em vigoroso assentimento. Era a sua especialidade, as criaturas invisíveis. E sorriu, confiante. Estava, afinal, entre colegas. Porque não havia competência maior: os bichos que ele caçava surgiam na véspera como entidades sem corpo. Até o elefante aparecia mais pequeno do que o nada. São espertos os bichos deste mundo. Não se deixam ficar por um único tama-

nho, por uma única vida.

Educadamente, escutou as prédicas dos visitantes, aguardando o seu momento. Pediu as mais variadas licenças, porque havia ali gente de idade e géneros bem diversos. E apresentou, então, o seu método para vencer os seres que fingem ser invisíveis. Esse método tinha um nome: o sonho. Devia dizer no plural: a sua produção onírica era,

na verdade, bem diversa. Os sonhos eram o laboratório de Tsatso. Eram o seu tubo de ensaio, o seu microscópio privado, a sua cabine de fluxo laminar. Os visitantes que estivessem à vontade para lhe pedir toda a colaboração. Podiam encomendar-lhe um sonho para ele descobrir por onde andava escondido o tal vírus.


– Não sou como os outros. Eu penso por sonhos.


Em silêncio, a brigada da saúde concordou que o melhor seria centrarem-se no essencial. Dedicaram-se, a seguir, a explanar sobre os mecanismos de transmissão do vírus.

A transmissão aérea, as gotículas, os aerossóis. Tudo isso foi comentado. Lauro Tsatso encolheu os ombros.


– Fiquem descansados – disse ele –, eu raramente respiro. Durmo longe da minha mulher exatamente por isso. Ela farta-se de respirar. É de dia, é de noite, ela não se cansa.

Complacentes, os da saúde sorriram: a reação do caçador não resultava de qualquer intenção irónica.

Havia apenas um erro de tradução.

Mudaram o tradutor e, de uma assentada, falaram de tudo: do vírus, da pandemia, dos assintomáticos, do achatamento da curva, do retardar do pico. Usaram todos estes termos em português. As mãos do tradutor, em apressado desespero, tentavam compensar a complexidade do discurso. Os olhos de Tsatso eram intermitentes faróis perdidos entre as curvas e as contracurvas do discurso.

Um dos brigadistas explicou, numa espécie de representação teatral, a necessidade do distanciamento social. O próprio tradutor mostrou-se renitente. Tinham a certeza da relevância daquela instrução ali, no meio do deserto?

A recomendação seguinte foi mais concisa: o homem devia ficar em casa. E o caçador disse: – Mas eu já estou em casa. – E apontou a paisagem em volta. De novo, os da Saúde sorriram, complacentes. Uma das senhoras que trazia uns sapatos de tacão alto aproveitou para esmiuçar as instruções: sempre que chegasse do trabalho, ele devia deixar os sapatos à porta da residência. E ela até exemplificou, apoiando-se no ombro de Tsatso para erguer a perna e libertar-se do calçado. O caçador também se ergueu para executar

uma vénia e inquirir, com o devido respeito:


– Vão-me dar quando? – Os visitantes não entenderam.

– Os sapatos, é para agora? – voltou a inquirir o caçador, já com o pé erguido para lhe tirarem as medidas.

Por fim, anunciaram o objetivo final das medidas de prevenção.

Tratava-se de aliviar a sobrecarga nos hospitais, Tsatso voltou a interromper. Essa era uma das criaturas mais invisíveis naquela região: o hospital. Mesmo nos sonhos, ele

não vislumbrava nenhum posto de saúde. O mais próximo ficava para além do alcance dos melhores dos sonhadores.

E confessou: já antes tinha chegado uma outra brigada com ordens de fechar a escola. Fechar é um modo de dizer. Como se pode fechar o que não tem paredes nem porta? Agora, por baixo do frondoso cajueiro restavam os bancos corridos, uma tábua pintada de

preto e pedaços de mandioca seca que faziam de giz. Tudo desolado, vazio e solitário. Mas é assim, a vida é que manda. A escola é como o mundo dos vírus. Parece vazia. Mas há quem a povoasse. Quem sabe, daqui a uns dois meses, quando a reabrirem já as suas netas não voltem às aulas.

Lugar de rapariga é em casa. Elas, sim, iriam ficar em casa. Agora e sempre. Que é para não apanhar a doença de sonhar. Nem com coisas visíveis e, menos ainda, com coisas invisíveis.

Os brigadistas juntaram numa mala a parafernália de materiais de educação: cartazes, panfletos, marionetas e um megafone. Foram caminhando com dificuldade, arrastando os pés na areia solta. E ainda escutaram os gritos do caçador. À distância, os braços erguidos, o homem clamava na sua língua materna. Observando melhor, ele sustentava um par de botas na ponta dos dedos.

O tradutor apurou os ouvidos, encheu o rosto com um largo sorriso e explicou aos colegas:


– O homem está a perguntar se, desta vez, não lhe deixamos um frasquinho com álcool-gel.


*Texto extraido com a dévida vénia da Revista Visão, www.visao.pt

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