Noite de pânico em Mocímboa da Praia após passagem de terroristas pelos arredores da vila


Várias vezes aterrorizados por ataques violentos, os residentes da vila municipal da Mocímboa da Praia voltaram a experimentar momentos de pânico na noite de terça- -feira, tudo porque quatro carvoeiros tinham estado nas mãos de um grupo de terroristas em Buji, aldeia que fica a menos de cinco quilómetros da administração local. Na verdade, os quatro homens foram libertos pelos terroristas que teriam justificado o gesto afirmando que seus alvos eram as Forças de Defesa e Segurança (FDS). Já de volta à vila, os carvoeiros entraram pelo mercado “30 de Junho” e espalharam a notícia, situação que gerou pânico entre os residentes locais que ainda têm memória fresca do último assalto à Mocímboa da Praia. Foi na madrugada de 23 de Março que os terroristas atacaram e ocuparam a vila, depois de terem entrado de mansinho pela noite adentro. Por isso, muitas pessoas receavam a reedição da mesma estratégia de invasão durante a noite de terça-feira. Mas tal não aconteceu pois, conforme veio a confirmar-se mais tarde, o grupo de terroristas que foi visto a menos de cinco quilómetros da vila estava a fugir dos ataques das FDS, que desde a semana passada estão numa forte ofensiva por terra e ar, nos distritos de centro e norte de Cabo Delgado. Ainda assim, muitas famílias continuam a abandonar as suas casas em Mocímboa da Praia, deixando para trás uma vila fantasma sem serviços públicos (municipais e do Governo distrital) e sem a habitual azáfama do comércio e da actividade piscatória. Na semana passada, o novo administrador da Mocímboa da Praia fez uma convocatória para que todos os funcionários se apresentassem nos seus postos de trabalho até 10 de Junho, mas é pouco provável que tenha acontecido. Além do susto da noite de terça-feira, o desaparecimento forçado de pelo menos 10 raparigas na semana passada agravou o sentimento de insegurança na vila. A população acredita que as vítimas foram raptadas por terroristas nos bairros de Nabubussi e Nacala, nos arredores da vila da Mocímboa da Praia. A Cidade de Pemba e os distritos do norte da província de Nampula são os principais destinos das pessoas que abandonam a vila, usando a rota Mocímboa da Praia - Mueda e Mueda – Montepuez. “É muito arriscado viajar de Mocímboa para Mueda, apesar da existência de muitos militares na estrada. Devia haver escolta militar, sobretudo no troço entre a vila da Mocímboa e Awasse, porque já houve ataques”, apela um professor refugiado em Mueda, distrito onde se localiza o Posto do Comando Operacional – Norte das FDS. Awasse é o local onde a estrada que liga Palma e Pemba, EN 380, faz uma bifurcação: um troço segue em direcção à Macomia e outro para Mueda. Enquanto neste último a viagem é feita com o coração nas mãos, no troço Awasse – vila de Macomia ninguém se atreve a circular devido à forte presença de terroristas. Nas rotas onde ainda é possível circular, o medo é não é único problema: os preços de passagens quase que triplicaram. “Na rota Mocímboa da Praia - Mueda pagávamos entre 200 e 300 meticais, mas os preços subiram para 500 e 600 meticais depois dos ataques de Março. E quando há um novo ataque, os poucos carros que circulam cobram até 1.000 meticais por uma viagem de aproximadamente 100 quilómetros”, detalhou o professor. Antes da insurgência armada, Mocímboa da Praia era um importante entreposto comercial e placa giratória da zona norte de Cabo Delgado, com acesso por estrada e via aérea, através do aeródromo local reaberto em 2018 para facilitar a ligação entre Pemba e Palma, a capital dos projectos Gás Natural Liquefeito (LGN). Mas depois dos ataques – que atingiram o aeródromo, Mocímboa da Praia virou uma vila dependente dos distritos do interior da província, sendo que actualmente é abastecida por Mueda. Com o restabelecimento do serviço de cabotagem em Moçambique, o porto local poderá voltar a receber navios de carga diversa, incluindo produtos da primeira necessidade que tanto escasseiam em Mocímboa da Praia. Aliás, conforme foi anunciado ontem após o relançamento da cabotagem na costa moçambicana, há um navio preparado para fazer a ligação Pemba – Mocímboa da Praia – Afungi (Palma) e vice-versa. Entretanto, enquanto a ofensiva das FDS prossegue, há informações segundo as quais os terroristas atacaram, na terça-feira, o posto administrativo de Quitarejo, no distrito de Macomia, tendo decapitado 11 pessoas, todos de sexo masculino. Na aldeia de Natugo 2, onde entraram pela primeira vez, decapitaram seis pessoas, e em Mitacata, onde atacaram pela terceira vez, fizeram cinco vítimas. Esta incursão violenta dos terroristas acontece numa altura em que algumas famílias estavam a voltar às suas aldeias do posto administrativo de Quiterejo. O retorno às origens foi forçado pela intensificação de ataques contras vilas-sedes distritais, onde a maioria da população se tinha refugiado desde a primeira vaga da insurreição armada em 2017/2018. Enquanto os ataques não cessam, a crise humanitária continua a ganhar terreno e a conquistar novas vítimas. Se nas zonas afectadas pelos ataques não há condições de segurança para a assistência humanitária às famílias que ainda permanecem nas suas casas, nos locais de acolhimento de deslocados os apoios não chegam para todos. Tendas, produtos alimentares e de higiene são as principais carências nos centros de acomodação instalados no distrito de Metuge, com cerca de 10 mil deslocados. Isto significa que a esmagadora maioria dos mais de 200 mil deslocados não está nos centros de acomodação, mas espalhada pelas províncias de Cabo Delgado e Nampula. Alguns deslocados foram acolhidos em casas de caridade, de familiares, de amigos e de pessoas solidárias. Há famílias que improvisaram residências e outras que juntaram dinheiro para arrendar habitações precárias, havendo casos em que numa casa chegam a viver mais de 20 pessoas. Apesar de Cabo Delgado ser uma das províncias mais afectadas pela covid-19, a crise humanitária causada pelos ataques é que demanda cuidados intensivos. (Centro para Democracia e Desenvolvimento)

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