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No coração do ataque em Palma, a emboscada ao Hotel Amarula



Pessoas a serem evacuadas da vila de Palma, para o aeroporto de Pemba (Mozambique) . (ALFREDO ZUNIGA/AFP)


Por : Estacio Valoi, com Cécile Andrzejewski / International Media Support


Mais de duas semanas depois do ataque por um grupo jihadista na Cidade de Palma, na Província de Cabo Delgado em Moçambique, os corpos de doze pessoas de cor branca decapitadas, provavelmente estrangeiros foram encontrados nas imediações do Hotel Amarula. Cerca de duzentas pessoas que se haviam refugiado naquele hotel durante o ataque Islamita. Dois sobreviventes contaram a história do inferno que passaram ao caírem na emboscada.


O que aconteceu no Hotel Amarula? No final do mês de Março, cerca de duzentas pessoas, entre as quais expatriados, trabalhadores estrangeiros e Moçambicanos, refugiaram-se naquele hotel quando a Cidade de Palma, a nordeste de Moçambique, foi atacada for jihadistas do Al-Shabab. Desde essa altura a referida cidade costeira, localizada a poucos quilómetros do megaprojecto de gás do grupo Francês Total, foi retomada pelo exército e, pouco a pouco, pequenos grupos de habitantes regressam a casa. Retornam a uma cidade que foi danificada pelo impiedoso ataque.


Foram eles que fizeram a descoberta trágica: à sombra das árvores, frente ao hotel, doze corpos deitados com as mãos atadas atrás das costas e as suas cabeças cortadas. Da sus identidade pouco foi dito, mas as autoridades anunciaram tratarem-se de estrangeiros. Lionel Dyck, chefe do Dyck Advisory Group, um militar privado Sul-Africano confirmou à AFP que “um dos seus homens” se encontrava entre as vítimas.


Um motorista, Afonso, empregado por uma empresa contratada pela Total, encontrava-se de serviço não muito longe de Palma quando o ataque começou no dia 24 de Março. "A caminho do mercado para ir comprar comida, vimos pessoas a correrem,” lembra-se. Um colega levou-o e a outros de carro para o Hotel Amarula. “Quando lá chegámos apercebemo-nos de que estávamos a viver a guerra. Não tenho outra palavra, era mesmo um massacre.”

Domingo, também sobrevivente, envergando um boné preto, acena em acordo: “Muitos tentaram entrar no hotel, mas os donos não deixaram; eles fecharam a porta. Nós conseguimos entrar graças ao nosso gerente, Tobias.“


Eles passaram lá três dias, durante os quais os insurgentes Islamitas cercaram o hotel. "O som das balas ecoava por todo o lado," disse Domingo. De acordo com vários testemunhos, no segundo dia o dono do hotel fugiu num helicóptero, levando consigo os seus cães e deixando atrás muitos refugiados. Numa entrevista a 31 de Março com a Ouest France , Lionel Dyck, o chefe da empresa militar privada – acusado pela Amnistia Internacional de ter desencadeado "repetidos e cruéis ataques" contra cidadãos Moçambicanos em 2020 – explicou: "Os nossos pilotos detectaram pedidos de socorro traçados no chão por indivíduos que se refugiavam nos hotéis. Primeiro resgatámos 20 pessoas do Hotel Amarula. No total conseguimos resgatar 240 pessoas e ainda não terminámos." Num tom cansado Afonso diz, "Eles só levaram as pessoas importantes. O dono levou três mulheres, provavelmente funcionários, e os seus dois cães. Partiram. Só resgataram os estrangeiros que estavam lá, deixando todos os Moçambicanos atrás."


"Nós estamos detidos aqui juntos, escapamos juntos"

Alguns dos oficiais dos assentamentos ligavam para Afungi, o enclave onde o grupo Francês Total se encontra a construir as suas instalações de exploração de gás, para averiguar se os helicópteros iriam voltar. A resposta era negativa. "Um tipo de manifestação" irrompeu no hotel para protestar contra a decisão de evacuar estrangeiros primeiro. "Nós manifestámo-nos no interior do Hotel Amarula: estávamos detidos lá juntos, tínhamos que escapar juntos," disse Domingo. “Depressa nos apercebemos que se ficássemos lá, a situação poderia tornar-se pior," disse o seu colega, ainda calmo. Apenas alguns quilómetros separam o hotel da praia de Palma, para onde muitos dos habitantes fugiram ao ataque; por mar, a bordo de barcos de todos os tipos.


Ao fim da tarde do dia 26 de Março, uma coluna de 17 veículos fez-se à estrada a partir do hotel. Mas assim que passou o portão, a coluna foi emboscada. Apenas sete carros conseguiram escapar. Até ao momento o número oficial de mortos mantém-se em sete, com sessenta desaparecidos. De acordo com o New York Times, pelo menos um indivíduo Sul-Africano, Adrian Nel, de 40 anos de idade, foi morto na emboscada.



De acordo com Domingo, o assalto iniciou-se nos postos de controlo militar, que havia caído nas mãos dos jihadistas. “A cerca de um quilómetro depois de sair do Amarula, fomos atacados,” disse Afonso. Eles dispararam contra nós com bazucas, atingindo o carro atrás do nosso. Algumas pessoas saltaram do carro, outras correram. Deus não quis que fossemos atingidos.” Continuou a conduzir nos próximos quase dois quilómetros, contando mentalmente o número de corpos que passava – seis, um decapitado com a sua cabeça na capota de um camião branco abandonado. “O nosso carro não tinha travões, nada. Capotámos e batemos numa árvore. Quase todos no carro desmaiámos." Quando acordaram caminharam várias dezenas de quilómetros no mato e chegaram finalmente a Afungi, antes de passarem para Pemba, para onde convergiram milhares de residentes de Palma que escapavam aos jihadistas. “O nosso desejo era deixar este lugar. Graças a Deus conseguimos.”


https://clubofmozambique.com/news/mozambique-terrorists-murdered-12-foreign-citizens-aim-

‘As campas foram expostas às equipas de televisão na Quarta-Feira, e o Comandante da Polícia, Pedro Silva, afirmou aos jornalistas que todos os corpos sepultados pertenciam a indivíduos brancos e portanto presumivelmente estrangeiros; estes apresentavam mãos atadas nas costas e haviam sido decapitados. A sua descrição não foi confirmada, e não há relatos de tantos estrangeiros desaparecidos.’


https://www.liberation.fr/international/afrique/mozambique-au-coeur-de-lattaque-de-palma-le-piege-de-lhotel-amarula-20210412_3VG6LVMUT5HCPDORS7WPDIB5S4/


Fonte : Liberation

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