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Nasci para sofrer na Guiné-Bissau. Os espancamentos começaram em 1992 e não pararam mais


O jornalista guineense António Aly Silva relata como foi raptado, ameaçado com uma AK-47 e espancado, acusando o presidente Umaro Embaló de ter estado por detrás do caso.


Era ano sim, ano sim. Fuga para o Senegal, para o além e depois para parte nenhuma - o exílio, diz-se, não é pátria que convém a ninguém. Desta vez escolhi ficar.

No dia 9, Bissau e todos nós acordamos para mais um dia sem segredos. As voltas na cidade, compras aqui e ali. E já era hora do gin na ‘Garagem’, propriedade do meu homónimo.

Trazem-me o almoço encomendado nas primeiras horas e traço a rota. Deixar o comer em casa e ir ao banco pagar a promissória. Qual quê. Alguém escolheu trocar-me as voltas e estragar o meu dia.

Se no dia 16 de março de 2020 consegui qual fittipaldi escapar aos meus algozes, numa perseguição a alta velocidade pelas estradas da cidade, desta vez chegaram em grande - um automóvel ultrapassou e meteu-se à frente. De dentro saiu alguém com ar de quem estava drogado, apontando e fazendo dançar a AK-47 com os uivos de "sai já do carro, sai já senão matamos-te. Sai, já, já".

A moeda caiu finalmente na ranhura. Era mais um daqueles dias. Friamente, saí do carro com as mãos ao alto. Não, não era um assalto. Tratava-se de um rapto à luz do dia, presenciado por mais de uma dezena de pessoas, algumas anónimas e outras em fuga.

Enfiaram-me no banco de trás de uma carrinha de caixa aberta, em meio a berros descontroláveis. "Vamos, arranca, arranca!". O automóvel virou à esquerda e a carrinha seguiu em frente.

"Vais morrer hoje", diziam. E quando levantei a cabeça,levei o primeiro murro. "Estás a ver se nos reconheces, é isso?" - Não, respondi, embora fosse verdade. Arrancaram-me a camisa, os botões saltaram cada um para o seu lado. O meu destino pertencia agora a terceiros, talvez drogados, talvez malucos mas de certeza absolutamente descontrolados.

Quando chegamos à zona industrial de Bolola, deram conta do erro - matar alguém ali, àquela hora, não era para qualquer um e a ordem foi avançar "para o Alto Bandim".

Mesmo vendado, consegui reconhecer alguns edifícios, e o do PNUD era o mais evidente. Grande e desengonçado, o edifício que, juram os profetas da desgraça, afunda uns tantos milímetros por ano, continua em pé rijo como um fuso. E a estrada para o Alto Bandim não engana ninguém - 3 quilómetros de pó fino e agua dos dois lados.

Quase a chegar ao Alto Bandim, encostaram-me uma AK-47 à cabeça com uma ordem: "desbloqueia o telemóvel". - Não, disse eu. O desafio foi demasiado para eles. Ao sentir o aço frio da besta na tola, não tive outra opção e o indicador direito desbloqueou o aparelho. Uns minutos depois, mais um pedido: "e a senha em números, qual é, diz, qual é? - Não tem. "Tem sim", gritou o magrinho, afagando a arma. E lá dei...

Chegados ao Alto Bandim "onde seria morto", tiraram-me do carro, o motorista sai para me dar um golpe conhecido como mata leão para me fazer ‘dormir’. Consegui, com uma dentada, libertar-me. O magrinho continuava a saltar de um lado para o outro com a Kalashnikov, sem saber o que fazer.

Foi então que os meus raptores viram um pedreiro numa casa em obras, tremendo quem nem uma vara verde por ver tantas armas. "Se alguém souber o que aconteceu aqui, vamos atrás de ti". O pobre coitado atirou a colher de pedreiro ao chão e desapareceu. Ponho-me a pensar se já terá voltado ao trabalho...

Quanto ao magrinho da AK, pensei "será que não me vê por eu ser ainda mais magro?" Nisto vem o motorista e, comigo já deitado no chão, vejo o seu punho acertar o meu rosto umas duas ou três vezes. Depois apaguei.

Não sei quanto tempo estive desmaiado, mas ao recuperar os sentidos e vendo-me na presença de quatro rapazes perguntei "mas afinal não me iam matar". Descansaram-me - a tropa deu-te um enxerte de porrada e abandonaram-te ali, junto ao rio. Se a maré enchesse ias com ela e depois diriam que morreste afogado.

Agradeci (agradeci mesmo?) e dois deles acompanharam-me até à estrada onde um desconhecido parou e perguntou o que se passara. Contaram-lhe e ele perguntou se eu queria ir com ele. Entrei e pedi que me deixasse no PNUD, o que fez.

Acusei Umaro Sissoco Embalo pelo meu rapto e espancamento e estou seguro do que disse. António Aly Silva


FONTE: Revista Sábado

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