Nós somos ANE


Foto: Estrada Pemba Montepuez

Texto e fotos: Estacio Valoi


Milhões de dólares “voam” anualmente para melhoria das estradas moçambicanas a “tapa buracos” em tempos secos, destapados à velocidade da água assim que a chuva cai.


Desta vez não foi diferente. Numa publicidade pornográfica o governo moçambicano na voz do Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos disse recentemente, que vai investir mais umas verdinhas em 200 milhões de dólares (168 milhões de euros) na melhoria das estradas da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique onde as intervenções terão início em Agosto.


“Estamos investindo aproximadamente US$ 200 milhões na província de Cabo Delgado para estradas de acesso”. “É um investimento significativo” dissera o Ministro João Machatine a jornalistas na sua mais recente visita à província de Cabo Delgado.

Sem grande publicidade a moda chique em écrans gigantes, estão os putos ANE.


São pupilos de diferentes faixas etárias que no seu dia-a-dia vão tapando covas, crateras ontem chamadas de estradas, o abismo em que hoje se transformaram perante o olhar impávido da Agência Nacional de Estradas de Cabo Delgado (ANE).


Os putos varrem areia, pedras sobre covas com suas mãos nuas perdidas no vermelho do solo, rasgadas pelas pedras que vão recolhendo para tapar os buracos ao esquivo permanente de viaturas de toda carga que por elas passam. De braço estendido, palma da mão espalhada, de quando-em-vez cai-lhes umas quinhentas a 10 meticais largados por alguns automobilistas de boa vontade que por ali passam.


Por ali também passam o director da ANE, ministros, generais, directores em viaturas de alta cilindrada de olhos grandes postos nos buracos, à velocidade do vento que quase ou nada sentem nas nádegas amortecidas pelas grandes molas, latas pagas pelo orçamento dos livros, escolas, uniforme.


Uns sim outros não, em viaturas a custo do imposto do cidadão pacato cruzam buracos numa viagem alucinante à moda whiskey, champanhe, vinho, prostitutas a luxo pago pelo orçamento robusto do contributo moçambicano ou a boleia das instituições da Brentwood em milhões de dólares ditos para a reabilitação e/ou construção de estradas. À mistura do sonambulismo nascem como cogumelos básculas, portagens no ghetto em prol duma indústria tapa buracos dos putos ANE que vai crescendo à velocidade da luz.



Manuel tem 12 anos assim como os outros da sua turma. Abdul deixou de estudar a sua 3ª. Classe para inconscientemente fazer parte da nova indústria tapadora de buracos e crateras, substituindo a ANE. Com as suas mãozinhas comparativamente às grandes máquinas empregues em obras de construção de estradas, os putos já cobriram uns bons quilómetros de estrada.


Lá também estava Oussufo, todo rasgado, as fraldas abertas da Guerra em Cabo Delgado, que o deixara despido a ele e a outros milhares de crianças entregues ao Deus dará, pedintes forçados a kg de feijão ou a papinha que não lhes chega.


A 10 meticais dia ou quase 100 por mês diz Oussufo, é para comprar comida, cadernos com recurso à profissão inconveniente que já exerce, tapador de buracos. Por ali também se cruzam umas viaturas, umas com letras azuis, vermelhas carimbadas nas suas portas, aquelas que olham mais para questões da criança como a UNICEF, outras que vão distribuindo redes mosquiteiras ou paracetamol com as da Cruz Vermelha, outras que vão deixando uns kits de alimentos como o PMA.


Esses, os putos da ANE, lá continuam com seus baldes tortos, mãos rasgadas, cobertas de poeira, linhas reentrantes e salientes, rugas que vão fermentando sobre dedos cujo lápis e caneta se perderam no longínquo horizonte, olhos vergados, de tocaia nos rodopios inocentes da mão estendida a 10 meticais.



O senhor da ANE, de vento em popa lá cruza os buracos, “olhe os pobrezinhos” deixando-os pelo retrovisor a ver se pela mão-leve não foi assaltada a sua garrafa de whiskey ou o pisca não lhe ficou pelo caminho, ou se o rato do mato ou dos rubis não estava por ali para contrabandear uns, a sua aquisição em notas grandes para aquecer a sua amante ou prostitutas no regresso ao Palácio.


Uns já nem os pneus roçam os buracos ou crateras, e sobre estas voam de peneira ou vassoura de pouco ou nada fazerem para manter o emprego. Não fosse aquela estrada – buracos de Montepuez a Pemba, as alfândegas que os rubis, o ouro ou corno de rinoceronte passam. Pelo menos os agentes das alfândegas até conseguiram tapar um buraco pela estrada. Fizeram uma grande apreensão, o gel lubrificante dos LBTG. Os putos da ANE pés descalços vão comendo a poeira, suas pás meadas, perdidas, a areia que levam vai vertendo antes que esta seja descarregada no buraco, sendo necessário mais umas quantas meadas até que o buraco fique cheio.


As mãos dos putos substituíram o tractor, o cilindro ficou-se pelos calos dos pés dos miúdos que vão passando a palma do pé em giros, frente, lado, atrás, de quando-em-vez deitada. O pé brinca em manobras de engenharia a multinacionais contabilizadas em milhões de dólares. Os putos da ANE. Cozem quilómetros de estrada a 10 meticais. Manuel não sabe sobre seu futuro, apenas sobre os dias em que é ANE faz meses que chegou àquela zona, transformado em deslocado de guerra.


Nem 10 meticais deixam ao Manuel se não aprontar o dedo a umas bolachas estendidas como se Manuel tivesse pedido bolachas, espelho criado à sua volta. Manuel virgem, morreu virgem. Os amigos contaram-me dias depois da nossa conversa em malta. Foi atropelado pelo director da ANE que nem parou para ver, até tentou depois, mas o corpo do Manuel ficou perdido na enorme cratera. Depois ouvimos na radio que o director vai reabilitar as covas, até criou portagem para recolher dinheiro para a reabilitação.


Também por ali, todos os dias passam os carros das multinacionais a bilhões de dólares feitas com a nomenclatura política moçambicana, camiões de grande tonelagem a zig-zag.

ANE ali entre as bombas da Êxito que nem mais combustível cospem, sai o Director, no começo da estrada duas faixas a custo de 472.007.726,40 Meticais, a qual, a passo de camaleão vs acelerada vai entre adjudicação direta aos amigos na moda “comissões”, mãe, filha, filhos até vendem os seus ao baile de umas notinhas, no meio ventam restaurantes sem travessia para os clientes, bombas de combustível, moradores sem aviso prévio, sem indeminização palmilham a terra vermelha, seus carros dispostos em esquinas à mercê da mão leve do Presídio Municipal na próxima eleição. Lá passa o Diretor da ANE na sua Toyota .



Milhões de dólares “voam” anualmente para melhoria das estradas moçambicanas a “tapa buracos” em tempos secos, destapados à velocidade da água assim que a chuva cai.

Somos os putos, somos a ANE. (Moz24h)

9 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo