‘Não dar esmola, mas sim ‘dignidade’

Atualizado: Mai 26



Texto e foto por: Estacio Valoi


Decapitações, execuções sumárias, pessoas retirados a força pelos terroristas das suas zonas de origem a uma crise humanitária sem precedentes que já causou 700.000 pessoas deslocadas, mais de 2.500 mortes são o resultado da violência armada em Cabo Delgado desde Outubro de 2017 perpetrados pelos denominados ‘Al - Shababs."


O mais recente ataque armado a Palma no norte de Moçambique registou se um total de deslocados registados subindo para 20.558, segundo anunciou a Organização Internacional para as Migrações (OIM) na sua última actualização sobre a crise humanitária.

Criação de meios de subsistência, inclusão, auto-suficiência e sustentabilidade económica para as famílias deslocadas em Cabo Delgado

No apoio a pessoas deslocadas naquela Província nortenha a Plataforma Makobo, a Dathonga Designs e a Faculdade de Turismo e Gestão Informática da Universidade Católica de Moçambique (UCM) estão a implementar um projecto em Pemba com impacto social para os deslocados de guerra em Cabo Delgado.


O projecto teve o seu prelúdio no acampamento 25 de Junho em Metuge. Este é o maior centro de acomodação para as vítimas da insurgência nas localidades mais ao norte da Província de Cabo Delgado com mais de 20.000 pessoas vivem em situação de vulnerabilidade, pobreza extrema e exclusão económica e social.


Segundo Bianca Gerente, Directora da Faculdade de Gestão de Turismo e Informática da Universidade Católica de Moçambique (UCM) em Cabo Delgado com a oficialização do lançamento da Wiwanana marca de produtos de artesanato feito por artesãos, deslocados internos de Cabo Delgado vindos de Quissanga acomodados no centro 25 de Junho de Metuge estão criadas condições para a auto-sustentabilidade dos deslocados. A Wiwanana é um dos objectivos da iniciativa ‘Missão Coração solidário Cabo Delgado.”


“Wiwanana é a marca de produtos de artesanato feitos por artesãos do centro 25 de Junho de Metuge um dos resultados da iniciativa Missão Coração Solidário Cabo Delgado da Plataforma Makobo. Uma das habilidades identificadas em relação aos deslocados deste centro é o trabalho com a palha por isso procurou-se elevar estas habilidades para um nível de comercialização, criando aqui uma iniciativa de geração de renda. Então a Dathoga Designers.”




A Dathoga Designers foi convidada pela Plataforma Makobo para partilhar sua técnica com os artesões em Cabo Delgado tendo já como resultado inicial do trabalho a produção dos primeiros produtos artesanais já a serem comercializados.

Depois daqui vamos passar para a linha da comercialização destes produtos. Vamos apoiar os artesãos a criar condições de formalização de uma associação em Metuge. Nós inicialmente seleccionamos cerca de 300 artesões e eles fizeram as amostras e destes seleccionamos aqueles que tinham alguma habilidade para este trabalho.

O projecto iniciou através do conhecimento tradicional, esta iniciativa promove oportunidades para a criação de meios de subsistência, inclusão, auto- suficiência e sustentabilidade económica e social de famílias deslocadas em Cabo Delgado. “Disse Gerente


Segundo Rui Santos da Plataforma Makobo, a sua ida a Cabo Delgado em Julho do ano passado foi com o intuito de apoiar “ nossos irmãos e irmãs feitos deslocados” cujo primeiro passo foi a identificação das necessidades daquelas pessoas tendo decidido por uma dupla intervenção.


“Decidimos que pela intervenção em dois eixos, um mais humanitário de apoio com produtos de primeira necessidade, o primeiro é mais emocional, primeira fase fazer com que as pessoas tenham alimentação, água, etc. e o outro mais racional que é o segundo eixo que é mais virado para a subsistência destas famílias. E é preciso lembrar que esta situação não vai ser resolvida com doações, esmola, é preciso criar condições para que estes nossos irmãos possam viver com dignidade e, estamos a criar condições alternativas de subsistência. “Disse Santos


“Começamos com este projecto de artesanato, são 12 comunidades do Distrito de Bilibiza – Quissanga que tinham como base para além da agricultura e da pesca o artesanato. Foi por isso que nós enveredamos por esta iniciativa, a primeira de várias que vamos lançar neste acampamento que tem mais de 20 mil pessoas e é preciso dotar estas pessoas de dignidade, subsistência, que se fixem neste local do Pais onde foram acomodadas. Enfatisou Santos.



Questionado sobre a implementação deste projecto solidário cultural, humanitário porque não enveredaram pela oferta de sacos de arroz, farinha, abertura de barracas mas sim focalizaram o aspecto cultural, arte na vertente do artesanato como forma de criação da auto-sustentabilidade destes deslocados que acabam produzindo sua própria estabilidade financeira


“A nossa filosofia é não dar esmola mas dar dignidade as pessoas, nós acreditamos que a partir de iniciativas de trabalho de geração de renda estas pessoas vão voltar a ter aquela dignidade que lhe foi retirada porque elas perderam tudo nas zonas de onde elas vinham e já percebemos esse impacto porque eles ficam. Nós trabalhamos de segunda a Sábado em Metuge, garantimos todo o material, refeições durantes essas actividades e elas já se podem sentir abraçados, acolhidos por nós e para além disto, este trabalho com a Márcia procurou trazer a identidade cultural de Cabo Delgado, por isso nós para além da palha temos o pau – preto, temos algum material que é local de Cabo Delgado.


Então tentamos fazer essa ponte entre a cultura, a sustentabilidade desta iniciativa e também aqui questão humanitária que é envolver esses artesãos que são de zonas de ataques terroristas, Nós estamos com algumas iniciativas, conseguimos fazer alguma intervenção imediata quando são deslocados recém-chegados mas também esta questão da vertente de renda para o artesanato mas também temos a produção agrícola que é outro projecto que vamos iniciar daqui a nada em Mieze, entre outras, nós sempre buscamos respostas a longo prazo e não de forma imediata, embora também seja grande necessidade a questão da alimentação, as pessoas já chegam debilitadas a cidade de pemba. Nós sempre pensamos procurar soluções a longo prazo.



Produto das mãos da mentora Dina Márcia Nangy

“Não é só das minhas mãos mas também das mulheres de Bilibiza que estão agora no campo 25 de Junho em Metuge. O que significa para mim é muito nem sei como explicar, é um projecto que nós tivemos a ideia para ajudar as mulheres aqui, deslocadas de Bilibiza, ao em vez de nós darmos um saco de arroz, porque elas podem comer hoje e acabar amanha. Sim dar habilidades, que elas possam ser independentes, criar produtos de artesanato para venda. Habilidades é criar produtos. Elas estavam habituadas a criar silhas que são cordas, amarar as casas, fazer esteiras, que são bem conhecidas aqui de Cabo delgado e o que nós fizemos foi usar essas técnicas e criar produtos que sejam bonitos, que sejam apreciados no mercado.


Trabalhei em Gaza com o INGC, criei, um grupo de artesanato, neste momento, continuo a trabalhar com elas em Inhambane em Lingalinga, o princípio é o mesmo é ajudar a elas a criar um auto sustento e serem independentes.” Disse Márcia


Facto é o número de deslocados de guerra continua a aumentar numa Província que rebentou pelas costuras por não mais poder acomodar mais deslocados recorrendo as províncias vizinhas como a de Nampula, Niassa e outros quadrantes do País.


A violência na província de Cabo Delgado, em Moçambique, deixou milhares de desabrigados e mais de 50.000 pessoas afectadas, disse o Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA) em um relatório publicado quinta-feira última

“As pessoas se espalharam em muitas direcções diferentes desde os recentes ataques em Palma, na província de Cabo Delgado. Os sobreviventes estão traumatizados. Tiveram que fugir deixando para trás todos os seus pertences e as famílias foram separadas ”, disse Antonella Daprile, directora do PMA em Moçambique, segundo o relatório.

“Encontramos uma jovem mãe que fugiu da violência com suas duas filhas. Elas caminharam durante três dias sem comida ou água e não fazem ideia se o resto de sua família sobreviveu ”, acrescentou Daprile


O PMA disse que embora muitas pessoas tenham fugido de Palma para Pemba em barcos, “milhares ainda estão presos em Palma e Quitunda”.

A organização da ONU apelou que são necessários com urgência US $ 82 milhões para responder à crise e apoiar as vítimas vulneráveis, em grande parte mulheres e crianças.

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