Abdul Ibrahimo: relatos de uma vitima da guerra em Cabo Delgado



Por Estacio Valoi


Cerca de 500 pessoas terão sido mortas em resultado da guerra que dura faz mais de dois anos entre as tropas governamentais moçambicanas e insurgentes na provincia de Cabo Delgado. São pessoas não apenas vitimizadas por esta guerra mas, também como o mais recente ciclone Keneth que devastou os distritos de Macomia, Palma, Mocímboa da Praia que continuam a ser palco deste conflito armado.

A questão humana uma das questões relegadas para o segundo plano, primeiro pelas condições em que os refugiados da guerra se encontram, que vão desde da falta de alimentos, abrigo, água o Moz24h foi ao encontro de cerca de 100 destas pessoas espalhadas entre a cidade de Pemba, localidade de Mpiri, até as cercanias do distrito de Macomia.


Momade Abubacar*, na primeira pessoa do singular


Momade de 25 anos relata que teve que abandonar a aldeia, quase aos solovancos devido aos horrores da guerra. “Foi um deus nos acuda, cada um para o seu sítio ‘Onde estávamos, fomos atacados, pessoas mortas de qualquer maneira. Matavam só homens mas agora também mulheres. Nós homens cortam pénis e garganta usa catanas e armas.

Momade narra que primeiro sofreram com ciclone “depois nossa aldeia foi invadido por malfeitores, corremos, fomos estar em Macomia sede, ficamos nas escolas e outros lugares que fomos deixados pelos chefes da zona. Fomos apoiados, deram-nos comida, arroz, óleo e outras coisas mas quando voltamos para a nossa aldeia, logo no dia seguinte voltaram a invadir, destruíram casas e levaram a comida.”

“Não sabemos como é que eles têm informação de que nós já temos comida. Tentamos resistir mas esta cada vez mais pior. Nós aqui somos cerca de cinquenta e cinco pessoas que viemos da nossa aldeia ….Mas ainda existem outros que saíram de la e foram para outras zonas, como Pemba, Montepuez. La já não ficou muita gente. Quase todos já saíram e outros acabaram morrendo. Dormimos aqui mesmos nestes abrigos de lonas todos juntos., no chão, sem tecto, só estendemos um saco e dormimos.

Estamos a sofrer e não sabemos quando chegar o tempo chuvoso como será, vai acontecer, uma lástima. Para comer dependemos apenas de alguns vizinhos aqui da zona que por vezes ou as vezes nos dão algo para cozinhar. Óleo carvão arroz.

“O chefe da aldeia fala com as pessoas daqui para nos ajudarem com bens, comida roupa, arroz, óleo. Constinuamos a cultivar mas nas machambas das pessoas aqui da zona de forma a ter algo.”

Não temos ajuda gostaríamos de ter ajuda catana eixada para abrir as nossas próprias machambas e ter a nossa própria comida. Tendas ou lonas para melhoras as nossas casas só que la estão a matar muita gente e estamos com medo.

As vezes policiam e militares fogem connosco e para se protegerem juntam se a população porque os insurgentes aparecem em mais ou menos número de trinta enquanto os militares são 8, 10 máximo. As escolas já não funcionam, professore abandonaram e os alunos todos eles fugiram, nos hospitais já não se trabalha ou fazem no e terminam muito cedo.

Os preços, com falta de tudo no mercado subiram muitíssimo. Nós temos medo de voltar a aldeia. Policias e militares patrulham mas mesmo assim não eh suficiente. Quando os insurgentes, querem a seu bel-prazer queimam casas e matam pessoas. Não sabemos o que eles querem, Só, chegam cortam pessoa com catana, queima casas, levam comida, eles falam português, muâni, e swahili. Nós a população quando eles chegam a aldeai, conseguimos ouvir quento eles falam ente eles. No sabemos de onde eles vem mas parece que lês tem toda a informação sobre a nossa aldeia, de onde entrar, passar e sair. Nos estamos a sofre muito, perder família, amigos. Vimo-nos invadidos, corremos para o mato, pessoas a gritar, chorar, casas a arder. Fugimos para o mato.

Dia seguinte fomos levados para Macomia sede, encontramos la policia militares, não sabíamos o que estava a acontecer, ‘ Fogo e tudo a arder, peguei no meu filho e corri para o mato, um nas costas e outro na mão e com a maioria dos que fugiram, apenas nos encontramos no dia seguinte. Ninguém sabia oque estava acontecer, deve ser guerra de Mocímboa e palma e agora entraram aqui na nossa aldeia.

“Quando começaram a queima as casas peguei no meu filho para as costas e puxei o outro pela mão fugiu para o mato, ao correr pelo caminho encontrei outras pessoas que também estavam a fugir pegamos o mesmo rumo de manha voltamos para a aldeia e fomos mandados para Macomia sede.”

“ Quando vi casas a arder sai a correr para me esconder, encontrei outras pessoas que corriam a chorar porque alguns dos seus conhecidos tinham sido capturado e catanados antes de queimarem as suas casas”.

“Entraram na casa vizinha começaram a pegar pessoas para matar, quando ouvi gritos chamei minha mulher levamos os nossos dois filhos e saímos para esconder no mato.

“ Muitos que eu conhecia na aldeia foram mortos outros com alguns membros cortados (garganta e pénis) ”

“As vezes nos seguiam ate la mesmo no mato”

“Saímos a correr para nos esconder, os que eram atacados primeiro não tinham muitas possibilidades de fugir mas quando chorassem ou a gritassem, conseguíamos ouvir e saiamos para esconder no mato”

“ O mais velho de todos, de 54 anos em Mpiri depois de ter fugido de uma aldeia de Macomia para se esconderem em Mpiri. Tenho problema nos pés, estão inchados não consigo andar bem mas tive que arranjar forcas para correr alguns fora apanhado e morto eu escapei por sorte ou porque não chegou o meu dia ainda. Vivo na aldeia há muito tempo, muita gente que eu conhecia foi morta outros porque não conseguiram fugir eram apanhados e catanados no local.”

“Em Miangueleue tenho um sobrinho que e aleijado não anda, tem problemas nos pés, quando invadiram o nossa casa encontraram-lhe abandonado porque todos fugiram e lhe deixaram sozinho, quiseram-lhe queimar junto com a casa um dos insurgentes pegou – lhe pela mão e viu que ele não pode andar disse aos outros insurgentes que que ele e aleijado não podemos lhe matar, discutiram entre eles depois decidiram-lhe deixar. Uns dos insurgentes disseram vamos lhe deixar fora e queimamos a casa porque se ele estiver dentro pode morrer por causa do fumo. Então queimaram a casa com ele fora, depois lhe deixaram dentro da casa queimada para lhe proteger dos outros (insurgentes) e não sentir pelo facto de ele ser coxo.”


*Nome ficticio

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