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Militarização de Cabo Delgado



880 militares e 120 polícias do Ruanda + 3.000 militares da SADC: E agora, Senhor Presidente, isto não é uma “salada de intervenções”?


Desembarque de 1.000 militares e polícias do Ruanda começou na sexta-feira e a informação só aos moçambicanos através de um comunicado do Governo de Kigali. No mesmo dia, Filipe Nyusi foi a Mueda informar às FDS sobre a chegada do apoio do Ruanda e da SADC, sem deixar claro como é que será feita a coordenação das operações no terreno. Até aqui não se sabe quanto tempo irá durar a “ajuda” de Kigali na luta contra o terrorismo e quem vai pagar a fatura.


Número de tropas estrangeiras em Cabo Delgado (3.000 da SADC + 1.000 do Ruanda = 4.000) poderá ultrapassar o total de militares nacionais envolvidos no combate contra o terrorismo naquela província. E a população de Cabo Delgado – principal vítima do terrorismo e cuja colaboração com os militares seria fundamental para a vitória - não está informada sobre o desdobramento de tropas estrangeiras nas suas terras. Nem a Assembleia da República, órgão de soberania representativo de todos os moçambicanos, foi informada sobre a vinda de militares estrangeiros.


Com a intervenção militar do Ruanda e da SADC, estão acautelados os interesses da França, a potência mundial que viu a sua estratégica petrolífera (Total) a suspender, devido aos ataques de Março, o projecto de gás natural em Palma avaliado em mais de 20 mil milhões de dólares, o maior investimento directo estrangeiro em África. Em Maio, o Presidente francês reuniu várias vezes com os Estadistas da África da Sul (potência da região austral) e do Ruanda para influenciar e apoiar um apoio militar a Moçambique.


Foi na apresentação do informe so-bre a situação geral da Nação, em Dezembro de 2020, que Filipe Nyusi defendeu na Assembleia da República que Moçambique devia ter cuidado na gestão de apoios na luta contra o terrorismo e extremismo violento para evitar “uma salada de intervenções”. “Muitos países estão a manifestar interesse de apoiar Moçambique. São muitos países, mas muitos mesmo.


Mas temos que ter cuidado para evitar uma salada de intervenções. O que temos estado a fazer é dizer o que é que nós queremos, e isso não podemos revelar publicamente”. Na verdade, o Presidente da República estava a reagir às vozes que defendiam que o Governo devia solicitar apoio regional para a luta contra o terrorismo, face à manifesta incapacidade das Forças de Defesa e Segurança (FDS) de conter o avanço dos grupos extremistas. Sete (7) meses depois, já começaram a chegar os primeiros contingentes de militares estrangeiros em Cabo Delgado. E as previsões apontam para a entrada de cerca de quatro (4) mil militares estrangeiros.


Na sexta-feira, o Governo do Ruanda iniciou o destacamento de um contin- gente de mil homens da Força de Defesa do Ruanda (880) e da Polícia Nacional do Ruanda (120) para Cabo Delgado, em resposta ao pedido formulado pelo Executivo moçambicano de apoio na luta contra o terrorismo e o extremismo violento.

Através de um comunicado publicado na sexta-feira, o Governo do Ruanda informa que a “Força Conjunta” vai trabalhar em “estreita colaboração” com as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) e as forças SADC “em sectores de responsabilidade designados”.


Além de realizar operações de combate para apoiar os esforços de restabelecimento da autoridade de Estado nos distritos afectados pelo terrorismo e extremismo violento, o contingente do Ruanda vai trabalhar na estabilização e reforma do sector de segurança de Moçambique.


O comunicado de Kigali faz notar que o “desdobramento assenta nas boas relações bilaterais entre a República do Ruanda e a República de Moçambique, na sequência da assinatura de vários acordos entre os dois países em 2018, e está alicerçado no compromisso do Ruanda com a doutrina da Responsabilidade de Proteger (R2P) e com a Princípios de Kigali de 2015 para a Proteção de Civis”.


Na sexta-feira, Filipe Nyusi foi a Mueda anunciar às FDS a chegada de militares do Ruanda e dos países da SADC. Pedi- mos apoio aos nossos amigos do Ruanda. Eles começaram a chegar hoje, já estão aqui, já estão a chegar. Vão trabalhar connosco, não são eles que mandam”, disse o Presidente da República durante a visita à base central do Comando Operacional Norte (em Mueda) e a algumas posições das FDS em Cabo Delgado. Nyusi anunciou ainda a chegada, a partir de quinta-feira, de militares da SADC. “Já escreveram a carta para as Nações Unidas para dizer que a partir de dia 15 vão ajudar Moçambique.” (CDD)

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