Memórias de Kilimanjaro

Dedico à Mirza, minha filha, que hoje faz 5 anos.


José Dambiro


Dois de Junho de dois mil e treze. Acordei às quatro horas da manhã com o bater da porta do meu quanto por um dos homens da recepção. O meu despertador ainda não tinha dado o sinal. Pedi para que estes viessem-me acordar, porque eu tinha receio de perder o avião. O bilhete expirava no dia do voo. Isso significava se eu perdesse o voo eu estaria frito. Acordar às quatro horas enquanto se estava coberto duma colcha grossa, acho que não é preciso de contar essa parte, a verdade é que saí da cama trinta e cinco minutos depois, com o reforço do meu despertador. Ele é fofo, mas persistente. Estava um barbeiro feroz lá fora. Depois vieram os preparativos. Às cinco horas e cinco minutos, abandonei o quarto, que eu habitara durante os últimos dias que estive naquele hotel. A razão da troca de quartos faz parte duma outra história. Vamos deixar para lá. Na recepção fiquei poucos minutos porque o taxista chegou com uma antecedência de trinta minutos da hora combinada. Mais tarde, ele me confessou que Nairobi é uma cidade de deve-se rumar ao aeroporto mais cedo por causa do tráfego, que cresce com as horas matinais e até pode comprometer a viagem. O motorista era um homem educado e conversador. Cheguei a o destino sem nenhum incidente de realce.

A história começou quando eu cheguei na Terminal 1. Mostrei o meu bilhete e passaporte à senhora que me atendeu, era uma polícia, simpática, com um sorriso disse-me que eu tinha que ir ao Terminal 2. Agradeci. Puxei a minha mala, com toda naturalidade, pois já não estava familiarizado com aquele aeroporto. Já não ia a Quénia mais de dum ano. Ao chegar ao Terminal 2, um moço, sim um moço, eu achei-lhe bastante jovem, disse-me que não era ali e tinha que voltar ao Terminal 1! Ora bolas! As pessoas chegavam segundo-a-segundo e a multidão já estava a me lembrar o txungamoyo do Goto, na hora do peixe. A bicha de acesso às terminais começou a crescer bem rapidamente. E eu pensei que poderia perder o avião, embora eu tivesse chegado a uma boa hora ao aeroporto. Desta vez não fui a bicha, eu me dirigi à agente policial. Ela logo me reconheceu. Autorizou-me entrar. Ela disse para que fosse ao balcão de atendimento da Kenya Airways e disse-me: ‘’Até já!´´ em jeito de despedida. Não entendi. Uma ideia apareceu na minha cabeça. Será que eu teria aprontado e iria-me encontrar com ela esquadra do aeroporto? Suca Sathana! Fui ao balcão do check-in da Kenya Airways. Foi entendido também com simpatia. A senhora que me atendeu disse que o local onde deveria fazer o check-in tinha que ser na Terminal 2. Mesmo assim fez o check-in e disse-me que tinha que ir com a minha mala para o Terminal 2. Fogo! Que dia! Logo de manhã, com 1, 2, 1,2... Puxei a mala, comecei de novo a caminhada para o local de controlo, onde quase se tira a roupa. Que remédio! Puxei a minha mala, o que valia é que ainda tinha o meu casaco pesado no corpo (difícil de gerir na mão), porque ainda estava demasiado fresco. No portão, a simpática agente policial, com um sorriso disse: ´´Boa viagem!´´ Desta vez eu percebi que não voltaria mais para à Terminal 1. Eu apenas anuí com um sorriso de trita e dois dentes. Ao chegar ao terminal 2 fui atendido com o mesmo moço e perguntou-me porque é que eu havia voltado. Mostrei-lhe o meu cartão de embarque. ´´Mandaram te para aqui? Não entendo, mas mesmo assim entre.´´ Uff! Todos aqueles procedimentos que terminam com a tirada do cinto e dos sapatos, de novo, naquele dia. Eu tinha ainda uma escala em Dar Es Salam. O que significava ainda haveria de tirar o cinto e os sapatos de novo durante a revista. Fui ao balcão de check-in errado. Corrigiram-me. Cheguei, finalmente, ao balcão da Precision Air. Sem problemas fui atendido, aliás eu já tinha feito o check-in, na Terminal 1, apenas estava no local para poder despachar a mala. A senhora que me atendeu quis saber se eu tinha o cartão amarelo. Disse-lhe sim, resmungando. Já estava a perder a paciência antes das sete horas da manhã. Que dia!

Outra coisa curiosa aconteceu, quando cheguei na migração. O homem da segurança, depois de verificar o meu bilhete e disse-me para ir à porta do fundo. Perguntei se era a mim a quem se referia. Ele confirmou. Fui até à porta do fundo. Ao chegar no corredor que dava ao guiché vi que no soalho estava estendido um tapete vermelho. Bom, eu estava de sapatilhas… A frente de mim estavam uns senhores que europeus, presumi, distintamente vestidos. Foi quando eu li, ´´ Diplomatas e classe executiva´´. Olhei para o meu cartão de embarque, eu disse para comigo mesmo que alguma coisa estava errada. Porquê aquele homem teria confundido? Foi pelo facto de eu estar na terceira linha 3A? O avião que tinha que subir todo ele era classe económica. Era AKR-72. Sim, isso mesmo. Graças a Deus, não me chutaram para bicha normal. O homem da migração me observou como se estivesse a analisar algo para comprar para o uso pessoal. Eu sabia porque, mas ele ficou na mesma. Depois de todos os procedimentos, subi as escadas para a zona das salas de embarques e lojas. Como não tivesse provisão financeira não parei nos dutty free, fui directamente para a sala de embarque.

Era suposto que ficasse uma hora e meia antes do embarque. Ao entrar fui sentar-me no fundo, a duas cadeiras duma senhora europeia, de cabelo loiro e longo. Olhei para ela e vi algo familiar. Não sabia o que era. Eu ainda estava a pensar na milha jornada do dia: Nairobi-Kilimanjaro-Zanzibar-Dar-Pemba! Fiquei no meu canto. Foram entrando mais passageiros. Chegou um jovem alto, loiro, de musculatura elaborada. Este pareceu-me um russo. E era. Ele foi ter com aquela mulher que estava a duas cadeiras da minha. O que ela tinha de familiar é que ela era russa. Os russos são-me familiares. Vivi com eles durante meia dúzia de anos. Começaram a conversar, na língua deles. Chegou mais um homem, de cabelo escuro. Foi juntar-se à eles. Mais tarde chegou mais um, que falava em inglês com o grupo todo. Nisto o tempo estava a passar. Já tinham passado trinta minutos do tempo previsto do início da jornada aérea. Ao grupo dos meus vizinhos veio juntar-se uma senhora que não falava a língua russa. Bom, faço um apontamento deste grupo porque eles estavam tão à vontade, sem nenhuma ideia de que alguém poderia estar a escutar a conversas. Eram uns tipos porreiros que iam curtir Zanzibar.

Com uma hora e meia de atraso partimos em destino ao aeroporto de Kilimanjaro. A justificação atraso foi que o avião estava estacionado num local onde as viaturas de abastecimento tinham chegado tarde. Justificação esfarrapada, para mim. Não entendo nada de procedimentos na aviação. Chegou a hora do pequeno-almoço, pois já estava sentir fome. Recebi a minha marmita e pedi um café. Tomei dois goles. Num mau gesto associado a vibração do avião chávena voou e o café derramou-se para minha camisa, de cor azul e calças verde militar. Molhei-me até ao assunto. Não piei, apenas decidi continuar a comer o que tinha-me restado. A cadeira gémea estava vazia, o que foi bom para mim. Não fazem a ideia como eu fiquei chateado comigo mesmo. Pensei, em fim há dias Não. Este era um deles. Usei todos os guardanapos disponíveis. A mesa ainda estava borrada. Chegou a hospedeira que estava em missão de recolha os utensílios usados. Solicitei mais guardanapos. Disse-me que ia trazer. Ela foi-se e não voltou mais.

Por sorte eu estava do lado certo do avião e deu para tirar umas fotos ao pico nevoso do Monte Kilimanjaro, que estava acima das nuvens. Beleza! O bichinho turista, que mora na minha cabeça, disse-me: ´´Tens que voltar aqui com a missão de escalar esta montanha. Vais gostar, vais-te sentir nas alturas´´. Sorri comigo mesmo e eu prometi-me que isso seria mais uma missão privada na minha vida. Quem sabe em 2015, para 2014 o plano de férias já está feito.

O meu problema com a hospedeira ainda não estava resolvido. Insisti, tocando a campainha que solicita a presença do pessoal de bordo. Veio a correr e disse-me que já não podia trazer guardanapo, porque o avião já estava aterrando e só poderia atender depois do avião aterrar.

Bom, coisas estranhas não só estavam a acontecer comigo. O avião ia rolando na pista quando foi anunciado que os passageiros em trânsito não deviam abandonar o avião. Este anúncio foi repetido. O avião vinha lotado. Acima de 60 pessoas. No avião só havia duas pessoas que seu destino era Kilimanjaro. A maioria ia Zanzibar e Dar. Estes dois passageiros estavam nos bancos que estavam a minha frente. De repente, começaram a falar em russo, algo assim, ´´… algo está estranho. Não entendo o quê é que está a passar…´´ Estes não eram os mesmos que estavam perto de mim na sala de embarque. Já estávamos a uma hora no aeroporto. Estavam a entrar os passageiros que iam para o percurso seguinte do avião. Finalmente chegou a hospedeira para limpar a minha mesinha que estava borrada de café. Um dos passageiros, meu vizinho da cadeira da frente, reivindicou a dilucidação da razão da tanta demora para a saída do avião. Ela disse nenhum passageiro em trânsito estava autorizado a descer. Ele disse que o destino dele e do seu companheiro era Kilimanjaro. A senhora lestamente disse-lhes que eles poderiam abandonar o avião. Assim, em tresmalho, saíram do avião. Isso provocou uma gargalhada geral nos passageiros remanescentes. Meu Deus, que dia! Não tardou um anúncio do comandante do avião a dizer que estávamos atrasados, de novo, e não havia previsão da hora de partida, porque estavam a ser tratados os procedimentos burocráticos, que habitualmente levam 45 minutos, e já tinha passado uma hora e meia.

Finalmente, partimos para Zanzibar. Já tinha um vizinho, que chegou a resmungar por causa do atraso do avião. Ele disse-me que tinha acordado as seis e não tinha tido tempo de tomar o pequeno-almoço. O lanche não tardou. Uma lata de Pepsi ligth, com uma coloria e uma embalagem de 50 gramas de castanha de caju. Eu comi. Tive a curiosidade de ver o que estava escrito na embalagem. A embalagem tinha sido feita por encomenda: Precision Air – Tanzanian Finest. Bom, deixei para mim a minha frustração do dia.

Um bom bate-papo com o vizinho. Ele ia a Dar, assim como eu. Falamos de sustentos mútuos de vida, de viagens, educação, culturas africanas… Adormeci. Não sei o que aconteceu, mas a verdade é que em Zanzibar ele preferiu ir para outro banco, doutro lado do corredor. Esta atitude deixou-me pensativo. Eu tinha dormido nalgum momento durante a conversa. Talvez tenha ressonado ou bufado ou duas coisas juntas e ele preferiu ficar longe dos meus atrupidos e maus eflúvios. Acontece. Durante as nove noites e dez dias que fiquei naquele hotel, eu comi alimentos vegetais e carnes. O meu tracto intestinal ficou infestado de compostos nitrogenados e sulfurosos. Na noite anterior eu havia comido um frango com castanhas. Não tenho a certeza do nome do prato: Pum Chicken. Deve ser disto mesmo.

Em Zanzibar tivemos mais um atraso. Este foi diferente. Depois dos motores ligados, o comandante anunciou que ia desligar os motores porque tinha-se que atender um assunto médico. De facto desligou os dois motores. A demora foi de meia hora. Bom começou a pensar o que haveria de acontecer comigo caso chegasse a Dar atrasado para ligar para Pemba. Felizmente, nada disso aconteceu. Pensamentos pessimistas.

Cheguei no balcão de transferências, para mandar re-etiquetar a minha bagagem, porque eu tinha despachado para Dar. O meu destino final era Pemba. Aqui foi uma maravilha. Sem stress. Passei a revista e entrei para zona dos Dutty Free e restaurantes. Comi uma empada halall e bebi uma Tusker. Fui a sala de embarque. Na hora a TV estava a mostrar um jogo entre o Manchester United e Arsenal. Resultado, na altura estava 4-1. Desinteressei-me. Abri o computador e comecei a escrever estas memórias.

No avião da LAM, o transtorno que tive foi de estar na fila 10 e as cadeiras tinham as seguintes escritas ´´A RECLINAÇÃO DO SEU ASSENTO ESTÁ LIMITADA DEVIDO AS RESTRIÇÕES DAS NORMAS DE SEGURANÇA´´. Como já estava a escrever, não tive mais espaço para abrir o meu computador. O meu vizinho tinha a sua cadeia inclinada durante todo o voo. Desliguei o meu computador e o meu comando também desligou-se para seguir o exemplo…

5 visualizações

Subscreva a nossa Newsletter

  • facebook

Ficha técnica

Director Editorial: Luís Nhachote (+258 84 4703860)

Editor: Estacios Valoi 

Redaçao: Germano de Sousa, Palmira Zunguze e Nazira Suleimane

Publicidade: Jordão José Cossa (84 53 63 773) email jordaocossa63@gmail.com

 

NUIT: 100045624

Nr. 149 GABIFO/DEPC/2017/ MAPUTO,18 de Outubro  

Endereço Av. Cardeal Don Alexandre dos Santos 56 (em Obras)

© By BEEI