Isabel dos Santos admite funeral em Angola mas só depois das eleições


Filhos mais velhos do ex-presidente acusam João Lourenço de querer retirar dividendos políticos com a realização das cerimónias fúnebres em Luanda. Como condição, exigem que funeral só tenha lugar após as eleições marcadas para 24 de agosto e querem garantias de que Isabel e Tchizé dos Santos podem entrar e sair do país sem risco de serem presas


Esta posição, segundo apurou o Expresso, foi vincada por Isabel dos Santos à saída do primeiro encontro exploratório mantido ontem, na capital da Catalunha em sistema de vídeo-chamada, diante de uma delegação governamental chefiada pelo Ministro de Estado e Chefe da Casa Militar, general Francisco Furtado. De costas viradas para o governo, os restantes filhos mais velhos do antigo Presidente, através de Tchizé dos Santos, partilham essa posição e acusam o sucessor do pai de pretender retirar dividendos eleitorais com a realização do funeral em Luanda. Por isso, não pretendem deixar sair o corpo antes de Agosto. Por esta razão, nos meios oficiais admite-se já que, concluído na próxima sexta-feira o período de luto sem a presença do corpo, venha a ser decretada tolerância de ponto no dia do enterro. As conversações iniciadas ontem, em consequência das desavenças instaladas no interior do clã dos Santos, decorrem em separado e contam também com a participação do Procurador-Geral da República, Hélder Pita Gróz. A abordagem, por um lado, com Ana Paula dos Santos - a mulher que se separou de JES em 2017 e se reconciliou com este há dois meses – e os filhos de ambos, Danilo e Jesoane, foi considerada “pacifica” pelas autoridades. Ao solidarizar-se com Ana Paula dos Santos, a irmã mais nova do antigo Presidente, a empresária Marta dos Santos, está a ser acusada por alguns sobrinhos de ser “traidora” e de “estar preocupada apenas com a preservação dos seus negócios”. Quando chegou, por outro lado, a vez dos representantes do governo conversarem com os filhos mais velhos de JES, o ambiente esteve rodeado de grande tensão e distanciamento. “Recusaram estar presentes fisicamente”, revelou ao Expresso uma fonte do governo. Como alternativa, as conversações com esta ala da família, marcada pela ausência de Tchizé dos Santos e de Coreon Dú, contaram apenas com a participação de Isabel dos Santos. Iniciativa do Presidente João Lourenço, este encontro constitui o primeiro passo para o governo tentar desbloquear o impasse instalado à volta do local da realização do funeral. Em cima da mesa, como condição para chegarem a um acordo, segundo apurou o Expresso, Isabel dos Santos impôs ainda a apresentação, por parte de João Lourenço, de garantias jurídicas para a sua livre entrada e saída do país sem nenhum risco de ser presa, assim como da sua irmã, Tchizé dos Santos. Outras das condições é que a madrasta, Ana Paula dos Santos, seja afastada deste processo ao mesmo tempo que exigem que o Estado organize um funeral com a mesma honra de Agostinho Neto. “Querem também que a cerimónia tenha lugar num local com a dimensão do mausoléu”, disse ao Expresso fonte governamental. Respondendo ao sentimento da família, a partir de amanhã, segunda-feira, o governo dará início, defronte ao mausoléu, a um gigantesco velório em homenagem a JES que se prolongará até ao fim do luto. A travarem uma guerra sem quartel contra a madrasta, as duas garantiram já a primeira vitória ao verem anuído por um juiz espanhol a realização de uma autópsia para apurar as suspeitas de um eventual homicídio. A autópsia realiza-se na terça-feira e antes da revelação dos resultados, que só deverá ter lugar na próxima sexta-feira, o corpo não deverá sair de Espanha. Mas, a realização do funeral em Luanda, como já está empenhado o governo, depois do sentimento de mágoa que se apossou dos filhos pela forma como João Lourenço tratou o pai, segundo alguns analistas, ainda vai obrigar o governo a “partir pedra”. Tchizé dos Santos, que vem atuando como porta-voz desta ala da família e que moveu processos- crime contra a madrasta e o médico pessoal do pai, João Afonso, nesta matéria foi categórica: “JES não será enterrado em Angola enquanto João Lourenço for Presidente!” Alicerçado numa eficaz estratégia de comunicação, com uso das redes sociais e de alguns meios de informação espanhóis, Tchizé dos Santos tem alimentado a opinião pública angolana com informações que tendem a atiçar a revolta contra João Lourenço. O efeito desta estratégia observa-se nas manifestações de rua de veneração ao antigo chefe de estado em contraponto com as acusações que populares desferem contra o Presidente apontando-o como responsável pela morte de JES. Em vésperas da realização das eleições, começam, por isso, a surgir apelos à contenção e à reconciliação entre as partes para pôr fim ao acirrar da divisão interna no seio do MPLA. “Não se pode enterrar JES com o governo de costas viradas para com os filhos ou com estes com o dedo acusador apontado para o Presidente. Tem de haver cedências de parte a parte”- alertou um dirigente do MPLA, que pediu anonimato.(In Expresso)

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