“IRAQUIZAÇÃO” DE CABO DELGADO



“Não há ajuda entre Estados, Ruanda está agir como uma empresa mercenária”


As informações que indicam que as despesas da intervenção militar das tropas ruandesas em Cabo Delgado serão pagas pela França levantam uma série de preocupações. Os contactos ao mais alto nível entre Paris e Kigali em torno de uma intervenção militar em Cabo Delgado ganharam ímpeto depois do ataque à vila de Palma em finais de Março, que obrigou a petrolífera francesa Total a declarar força maior no projecto Mozambique LNG e a suspender todos os trabalhos em Afungi.


Em finais de Abril, o Presidente mo-çambicano, Filipe Nyusi, viajou para Kigali onde discutiu com o seu homólogo Paul Kagame a “experiência do Ruanda no combate ao extremismo violento”. Dias depois da visita, um grupo de oficiais do Exército ruandês estava em Cabo Delgado para avaliar as condições de “ajuda” na luta contra o extremismo violento.


O que não se sabia é que a França estava envolvida nas negociações para uma intervenção militar das tropas ruandesas em Cabo Delgado. No âmbito da realização da cimeira França – África em Maio, o Presidente do Ruanda manteve um encontro com o Presidente francês Emmanuel Macron. Uma semana depois da cimeira, o Estadista francês efectuou uma curta visita a Ruanda, e o extremismo violento em Cabo Delgado foi um dos temas abordados.


Na primeira semana de Julho, o Governo do Ruanda deu início do destacamento de um contingente de mil homens da Força de Defesa do Ruanda (880) e da Polícia Nacional do Ruanda (120) para Cabo Delgado. Através de um comunicado, o Governo do Ruanda informava que a “Força Conjunta” vai trabalhar em “estreita colaboração” com as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) e as forças SADC “em sectores de responsabilidade designados”.


O comunicado de Kigali faz notar que o “desdobramento assenta nas boas relações bilaterais entre a República do Ruanda e a República de Moçambique, na sequência da assinatura de vários acordos entre os dois países em 2018, e está alicerçado no compromisso do Ruanda com a doutrina da Responsabilidade de Proteger (R2P) e com a Princípios de Kigali de 2015 para a Proteção de Civis”.


Entretanto, informações mais recentes indicam que as tropas ruandesas foram contratadas pela França para o restabelecimento de segurança em Afungi e criação de condições para a retoma dos trabalhos de construção do complexo de LNG. Na verdade, Ruanda está a agir como outra empresa mercenária. “Não há aqui ajuda entre Estados, Ruanda está a agir como uma empresa majestática ao estilo das antigas companhias majestáticas que estavam aqui em Moçambique ao serviço das metrópoles. Significa, então, que se está a voltar para aquele problema que já denunciamos, que é da “iraquização” de Cabo Delgado”, denuncia Adriano Nu-vunga, Director Executivo do CDD.


A preocupação da França e do Ruanda não é resolver o extremismo violento em Cabo Delgado, mas sim “limpar” a área em torno do projecto Mozambique LNG para permitir a retoma dos trabalhos.


“Não é a questão das vidas humanas, não é a questão de devolver paz e segurança à população de Cabo Delgado, a questão é criar condições para que o projecto da Total possa avançar. E isso significa “iraquização”, uma nova forma disfarçada de estabelecer um muro à volta daquela área de Afungi. E isso vai encarecer demasiadamente o projecto. Moçambique até pode estar feliz com a situação, mas significa que vai precisar de muito mais gás natural para pagar os custos operativos”.


Adriano Nuvunga não tem dúvidas de que cada euro que a França está a investir em operações militares vai ser recuperado através do gás de Moçambique. “Significa que Moçambique está a correr para uma solução bastante dispendiosa, ao invés de apostar no diálogo que nós, como CDD, estamos a advogar, para uma solução mais estável e mais equilibrada do conflito”. E avisa que a solução militar pode levar a mais militarização de Cabo Delgado:

“Quando as tropas ruandesas terminarem a sua missão, as operações militares terão que ser continuadas, porque não terá havido uma solução de diálogo. Uma solução militar pressupõe sempre a presença de forças militares. Significa que Moçambique continuará a ser uma vaca leiteira de gás natural, como já acontece em Pande e Temane (Inhambane) onde a sul-africana Sasol explora gás há 20 anos. O gás da Bacia do Rovuma vai sair sem criar benefícios para Moçambique, negando o direito ao desenvolvimento dos moçambicanos” (CDD)

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