Insurgentes isolam Palma e população queixa-se de grave crise alimentar


Localizada no extremo norte de Cabo Delgado, Palma encontra-se isolado do resto da província devido à violência armada na região. As principais vias terrestre que ligam Palma e outros distritos estão encerradas, nomeadamente a Estrada Nacional Nº 380 (Pemba – Macomia – Mocímboa da Praia – Palma) e a estrada que parte do Distrito de Mueda, atravessa o Distrito de Nangade, e entra no Distrito de Palma, através do Posto Administrativo de Pundanhar. Até Julho de 2020, Palma era abastecido através da vila municipal da Mocímboa da Praia, que acabou caindo nas mãos dos insurgentes em Agosto do ano passado. Depois da ocupação da mais movimentada vila do norte de Cabo Delgado, a insegurança na região inviabilizou a circulação de pessoas e bens pela EN 380, que liga Mocímboa da Praia e Palma. A única via alternativa, uma estrada terraplanada que parte de Mueda até Palma, também tornou-se intransitável devido aos sucessivos ataques

armados que se registam em alguns troços de Nangade e de Pundanhar, desde finais de 2020. Isolado do resto do País por via terrestre, Palma começou a enfrentar uma grave crise de bens, sobretudo produtos alimentares, situação que precipitou a subida generalizada de preços. O Governo, em parceria com o sector privado de Cabo Delgado, activou o abastecimento por via marítima, mas nunca foi regular. Com o espetro de fome a rondar a vila, as Forças de Defesa e Segurança (FDS) introduziram, no início de Fevereiro, escoltas militares no troço Nangade – Palma para permitir o abastecimento. A entrada de camiões com produtos alimentares aumentou a disponibilidade e, por conseguinte, uma ligeira descida dos preços nas primeiras duas semanas do mês1 . Mas nos últimos dias houve uma redução de escoltas militares que garantiam o abastecimento do Distrito de Palma. Na semana passada, por exemplo, havia na vila sede de Nangade mais de 50 viaturas que deveriam seguir até à vila de Palma com diversos produtos alimentares, mas os motoristas foram aconselhados a regressar à vila de Mueda devido à insegurança na via que vai até Palma. Aliás, fonte das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) disse à TVM, a televisão pública, que as FDS neutralizaram duas tentativas de ataque à vila de Palma nas últimas duas semanas. Com a redução de escoltas, a escassez de produtos alimentares voltou a agravar- -se e, com ela, os preços dispararam. Um saco de arroz de 25 quilogramas chega a custar entre 2.000 e 3.200 Meticais; a mesma quantidade de farinha de milho é vendido a preços que variam entre 2.000 e 3.000 Meticais. Um quilograma de açúcar custa entre 150 e 350 Meticais. Alguns comerciantes aproveitam-se da situação para açambarcar os produtos para posteriormente especular os preços. Esta semana, a vila de Palma recebeu um abastecimento via marítima, mas a procura é tão grande que em pouco tempo houve escassez de produtos alimentares. Um quilo de açúcar já chegou a custar 500 Meticais, antes do início do abastecimento por via marítima. A gasolina é vendida a 500 Metiais por litro. “Mesmo assim, é difícil comprar porque há muita procura. Aqui nós sofremos com dinheiro nas mãos”, disse um residente local. “Quando amanhece, toda gente sai à procura de comida. As ruas da vila ficam cheias de pessoas. São enormes filas nas poucas lojas que têm tido produtos. Eles recebem alimentos através de barcos. A situação está muito mal. Há pessoas que desmaiam por causa de fome. Cinco litros de óleo é vendido a 2.000 Meticais”.


Insurgentes intensificam ataques em Nangade e Palma


Nos últimos meses, as FDS realizaram várias incursões contra posições e bases dos insurgentes. Além de abater alguns extremistas e recuperar parte de território que antes era ocupado pelo inimigo, incluindo armamento, as FDS afastaram a ameaça de ataques contra sedes distritais, uma das apostas dos insurgentes em 2020. Apesar do aparente silêncio, a verdade é que os ataques terroristas ainda não cessaram em Cabo Delgado. No lugar de fazer incursões de grande envergadura, os insurgentes investem em pequenos ataques nas aldeias e contra posições remotas das FDS com o objectivo de saquear produtos alimentares. Por exemplo, na manhã do dia 22 de Fevereiro, os insurgentes decapitaram três pessoas na aldeia Ngalonga, Distrito de Nangade. As vítimas foram surpreendidas quando saíam das suas machambas na aldeia Mitope, em Mocímboa da Praia. No último fim-de-semana, os insurgentes tinham realizado uma incursão armada na sede do Posto Administrativo de Quionga, Distrito de Palma, com relatos de pelo menos quatro mortos e vários danos matérias. Na semana passada, as FDS abortaram uma tentativa de ataque na aldeia Nanil, a cerca de 30 quilómetros de Mueda. Na aldeia de Xitaxi, Distrito de Muidumbe, uma posição das FDS foi alvo de um ataque terrorista, na última semana. Xitaxi é a aldeia onde no dia 7 de Abril de 2020, mais de 50 jovens foram decapitados após recusarem integrar as fileiras dos grupos extremistas. Na altura, o Governo prometeu apresentar um relatório detalhado sobre as circunstâncias em que o massacre ocorreu, mas até hoje ainda não se pronunciou sobre o assunto. Os ataques em Cabo Delgado iniciaram em Outubro de 2017 na vila municipal de Mocímboa da Praia e mais tarde alastraram-se para outros distritos. Em 2020, os insurgentes assaltaram quatro sedes distritais e dezenas de aldeias, causando a pior crise humanitária dos últimos anos em Cabo Delgado. Na sequência dos ataques, a vila sede do Distrito de Quissanga está deserta e abandonada desde Abril, enquanto que Mocímboa da Praia continua ocupada pelos insurgentes desde Agosto, quando se deu o terceiro assalto à vila. Além de destruição de infra-estrturas públicas e privadas, o extremismo violento já causou a morte de cerca de 2.000 pessoas e a deslocação de perto de 600.000. No início do ano, a intensificação dos ataques nas proximidades de Afungi, zona das operações petrolíferas, forçou a francesa Total a paralisar os trabalhos de construção das infra-estrturas de liquefacção de gás natural do projecto Mozambique LGN. (Centro para Democracia e Desenvolvimento)

207 visualizações0 comentário

Subscreva a nossa Newsletter

  • facebook

Ficha técnica

Director Editorial: Luís Nhachote (+258 84 4703860)

Editor: Estacios Valoi 

Redaçao: Germano de Sousa, Palmira Zunguze e Nazira Suleimane

Publicidade: Jordão José Cossa (84 53 63 773) email jordaocossa63@gmail.com

 

NUIT: 100045624

Nr. 149 GABIFO/DEPC/2017/ MAPUTO,18 de Outubro  

Endereço Av. Cardeal Don Alexandre dos Santos 56 (em Obras)

© By BEEI