“Guebuzistas” na presidência da Assembleia e na liderança da Bancada da Frelimo


Quando Filipe Nyusi chegou ao poder em 2015, trabalhou com uma Assembleia da República praticamente liderada por figuras próximas a Armando Guebuza, à época presidente da Frelimo. Verónica Macamo e Margarida Talapa tinham sido reconduzidas para os cargos de Presidente da Assembleia da República e de chefe da Bancada Parlamentar da Frelimo respectivamente, depois de terem desempenhado as mesmas funções na VII Legislatura, que coincidiu com o segundo mandato de Armando Guebuza. Apesar de o Parlamento ter viabilizado todas as iniciativas legislativas do Governo e do Presidente da República, a relação entre os poderes Executivo e Legislativo nem sempre foi pacífica. Em 2018, Filipe Nyusi insurgiu-se publicamente contra a demora da Assembleia da República em aprovar a revisão da Constituição da República, uma iniciativa que visava acomodar o projecto de descentralização exigida pela Renamo como condição para a paz afectiva. Em meio a crise económica (e de ideias) agravada pelo escândalo das dívidas ocultas, Nyusi tinha na paz efectiva a principal trunfo para salvar o mandato, por isso a demora do Parlamento em viabilizar o projecto de descentralização era vista como um acto de sabotagem. Para evitar os mesmos dissabores no seu segundo mandato, Filipe Nyusi estudou bem a lição e apostou em figuras da sua confiança para a corrida à liderança da Assembleia da República, nomeadamente Basílio Monteiro (ex-ministro do Interior) e Carlos Agostinho do Rosário (ex-primeiro- -ministro). Nas eleições internas deste sábado, Basílio Monteiro e Carlos Agostinho do Rosário perderam para Esperança Bias, que vai suceder Verónica Macamo na liderança do Parlamento. Há duas leituras que se podem fazer à inesperada ascensão de Esperança Bias para a segunda figura mais importante na hierarquia do Estado: A primeira sugere que Filipe Nyusi ainda não conseguiu assegurar o controlo político da Frelimo, facto evidenciado pela derrota das suas apostas para a liderança do Parlamento. Aqui vale lembrar Carlos Agostinho do Rosário e Basílio Monteiro são membros da Comissão Política e no mandato passado ocuparam cargos relevantes no Governo. A segunda leitura remete para a vitória da ala de Armando Guebuza dentro do partido no poder. Esperança Bias foi aposta de Armando Guebuza para o estratégico Ministério dos Recursos Minerais, no momento crucial de assinatura dos principais contratos de projectos de exploração do carvão de Tete e do gás natural da Bacia do Rovuma. Quando Guebuza saiu do poder em 2015, Esperança Bias assumiu as funções de deputada da Assembleia da República e em Abril de 2019 substituiu Eneas Comiche na presidência da Comissão do Plano e Orçamento, a segunda mais importante do Parlamento.

Com uma figura de confiança na direcção do mais alto órgão legislativo, a ala de Guebuza já pode desenhar estratégias para manter a influência política no Parlamento, numa altura em que o caso das dívidas ocultas está longe de terminar. Será interessante assistir como é que a Assembleia da República liderada pela gente próxima ao antigo Estadista irá se comportar perante uma provável proposta de lei de recuperação dos activos. Nascida em 1958 na província de Inhambane (passou a sua infância em Nampula), Esperança Bias é economista de formação e membro sénior da Frelimo, estando actualmente a dirigir a brigada central do partido na Cidade de Maputo. Durante a era de Armando Guebuza, chegou a integrar a Comissão Política, mas viria a perder o assento no XI Congresso da Frelimo, já com Filipe Nyusi como presidente do partido. Mas ela voltará a integrar a Comissão Política, uma vez que os Estatutos da Frelimo dizem que o Presidente da Assembleia da República tem assento naquele órgão de decisão do partido. Apesar de ter dirigido um ministério estratégico para o futuro de Moçambique, seu nome nunca esteve envolvido em esquemas de corrupção. “Essa é a vossa proposta”. Foi com estas palavras secas que Filipe Nyusi apresentou Esperança Bias como candidata da Frelimo a presidente da Assembleia da República. O presidente da Frelimo não conseguiu esconder o desconforto com a primeira derrota sofrida dentro do partido e fez todo o seu discurso com um semblante carregado. Filipe Nyusi apresentou também Sérgio Pantie eleito para o cargo de chefe da Bancada Parlamentar da Frelimo. Descrito como uma pessoa humilde e próxima a Armando Guebuza, Sérgio Pantie teve uma ascensão política nos últimos 10 anos, tendo sido eleito membro da Comissão Política da Frelimo e mais tarde chefe da brigada central do partido em Sofala. Na VIII Legislatura, Pantie trabalhou com Margarida Talapa como vice- -chefe da Bancada Parlamentar da Frelimo. (Centro para a Democracia e Desenvolvimento)

0 visualização

Subscreva a nossa Newsletter

  • facebook

Ficha técnica

Director Editorial: Luís Nhachote (+258 84 4703860)

Editor: Estacios Valoi 

Redaçao: Germano de Sousa, Palmira Zunguze e Nazira Suleimane

Publicidade: Jordão José Cossa (84 53 63 773) email jordaocossa63@gmail.com

 

NUIT: 100045624

Nr. 149 GABIFO/DEPC/2017/ MAPUTO,18 de Outubro  

Endereço Av. Cardeal Don Alexandre dos Santos 56 (em Obras)

© By BEEI