Grupo Estado Islâmico reivindica ataque contra Palma, no norte de Moçambique



O grupo jihadista Estado Islâmico anunciou nesta segunda-feira que tinha tomado o controlo de Palma, vila do norte de Moçambique onde um consórcio liderado pela francesa Total tem estado a erguer um dos maiores empreendimentos africanos para a exploração de gás, na zona que faz fronteira com a Tanzânia.

Num comunicado publicado num dos seus órgãos de propaganda, o ISIS disse ter atingido "quartéis militares e instalações do governo" e anunciou que tinha tomado "o controlo da cidade" e morto pelo menos 55 pessoas, incluindo soldados "do exército moçambicano e cristãos, incluindo cidadãos de estados cruzados".

No final desta tarde, a ONU condenou firmemente o ataque e declarou-se "profundamente preocupada com a situação que continua a evoluir em Palma". As Nações Unidas referiram ainda "continuar a coordenar-se com as autoridades no terreno com vista a fornecer assistência às pessoas afectadas pela violência", sublinhando que "apoia o governo moçambicano nos seus esforços para proteger os civis, restabelecer a estabilidade e levar perante a justiça os autores destes actos horrendos".

De acordo com informações comunicadas ontem à noite pelo Ministério Moçambicano da Defesa, o ataque contra Palma, conduzido na quarta-feira em três pontos distintos da localidade, provocou várias dezenas de mortos entre os civis, nomeadamente de 7 pessoas que tentavam fugir do principal hotel desta vila de 42 mil habitantes.


"Um grupo de terroristas penetrou, dissimuladamente, na vila sede do distrito de Palma e desencadeou acções que culminaram com o assassinato cobarde de dezenas de pessoas indefesas e danos materiais em algumas infra-estruturas do Governo", declarou ontem no final do dia Omar Saranga, porta-voz do Ministério da Defesa Nacional de Moçambique. Pelo menos um cidadão sul-africano está entre as vítimas, bem como, segundo o 'Times', um cidadão britânico.

Desde o ataque, milhares de pessoas estão a fugir da vila por todas as vias possíveis, nomeadamente pelo mar, rumo a Pemba mais a sul na província de Cabo Delgado. Ouvidos pela reportagem da agência Lusa, Ismar Nordino, empresário, conta que deixou tudo para trás, Merina Simão não sabe do marido que trabalha para o Programa alimentar mundial e Assumane Gari desconhece o paradeiro da família.

Habitantes de Palma chegados a Pemba em testemunhos recolhidos pela agência Lusa

Outras centenas de pessoas têm estado a chegar por via terrestre em Namoto, a cerca de 50 quilómetros de Palma, junto ao rio Rovuma, na fronteira com a Tanzânia, estimando-se que se encontrem refugiadas 200 a 500 pessoas naquela localidade.

Noutro testemunho recolhido pela agência Lusa, Denis Iloko, um dos habitantes de Palma em fuga, contou que conseguiu chegar a Namoto após três dias de caminhada e apelou para que se envie um barco para levar as pessoas rumo a Mueda, mais para o interior da província de Cabo Delgado. "Temos muitas crianças aqui. Muitas crianças estão a morrer no mato", declarou.

Testemunho de habitante de Palma em fuga, entrevistado pela agência Lusa

Paralelamente à fuga massiva de população, a petrolífera francesa Total que investiu biliões de Dólares para erguer uma das maiores infra-estruturas de exploração de gás do continente em Afungi, a apenas 10 quilómetros de Palma, começou hoje a efectuar os voos de repatriamento dos seus funcionários a partir da cidade de Pemba, um primeiro voo com 100 funcionários tendo aterrado hoje na cidade de Maputo.

Neste contexto conturbado, a Total anunciou igualmente a suspensão das suas operações na Bacia do Rovuma, após os ataques jihadistas da passada quarta-feira, um dia depois da multinacional ter anunciado a retoma das suas actividades com vista à exploração do gás.

A empresa que justifica a sua decisão pela necessidade de salvaguardar a vida dos seus trabalhadores, refere estar a trabalhar juntamente com as Forças de Defesa e Segurança na evacuação da população local para zonas seguras.

Entretanto, o anúncio da suspensão das actividades da petrolífera Total está desde já a suscitar reacções. O tecido empresarial moçambicano receia que isto venha a ter consequências graves para a economia nacional, as PMEs, prestadoras de bens e serviços podendo vir a ser as mais afectadas.

Gulamo Aboobakar, presidente do Conselho Empresarial de Cabo Delgado deu voz a esta preocupação, considerando que "agora infelizmente, esse parece ser o incidente mais grave e não sabemos ainda qual vai ser a consequência disso".

É que do investimento global de 20 biliões de Dólares já efectuados na área 1 da bacia do Rovuma, 2,5 biliões de Dólares foram disponibilizadas pela Total para a contratação de bens e serviços junto das Pequenas e Médias Empresas.

Parte destas últimas buscam agora o paradeiro dos seus funcionários. "Muito complicado tudo isto que está a acontecer. Vamos rezar a Deus. Os negócios eventualmente poderão voltar mas as vidas humanas são o mais importante", declarou Gulamo Aboobakar.

Depois dos sucessivos ataques terroristas que se registam desde quarta-feira, o Conselho empresarial de Cabo Delgado considera que o futuro é incerto em Palma. Eis o relato de Orfeu Lisboa.

Tecido empresarial moçambicano preocupado perante decisão da Total

Desde Outubro de 2017, a violência está a provocar uma crise humanitária com quase 700 mil deslocados e mais de duas mil mortes. Os grupos armados que têm aterrorizado esta região que faz fronteira com a Tanzânia nos últimos três anos, aumentaram o seu poder na costa norte de Moçambique, tendo tomado o controlo no passado mês de Agosto de Mocímboa da Praia, um dos pontos motores para a edificação da infra-estrutura de exploração do gás na região.

"É evidentes que a descoberta dos recursos naturais joga um papel muito importante no imaginário das pessoas e sobretudo quando as pessoas ouvem todos os dias que há milhões e milhões de Dólares em causa", considerou o estudioso moçambicano Salvador Forquilha, para quem contudo, existe também uma dimensão religiosa nestes ataques."Há um processo de radicalização", constata o investigador referindo que "é um fenómeno que tem vindo a crescer nos últimos anos bem antes dos primeiros ataques."

Perante a gravidade da situação, vários países propuseram apoio militar no terreno a Maputo, mas até ao momento não houve uma acção coordenada no sentido de combater os insurgentes, embora existam relatos dando conta da presença de empresas de segurança e de mercenários estrangeiros na zona. (RFI)

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