Filho de Matavele suspeita haver motivações políticas no crime


No primeiro dia de audição de declarantes, o Tribunal Judicial da Província de Gaza inquiriu os familiares de Anastácio Matavele e duas trabalhadoras do Fórum das Organizações Não-Governamentais de Gaza (FONGA), instituição onde a vítima era director executivo. Terceiro a prestar declarações, Licínio Matavele entrou para a sala com uma certeza: “Eu sei quem matou papá. Foram estes senhores sentados aqui atrás, agentes da Polícia”, disse, apontando para os arguidos. Acossados com a declaração-surpresa do filho de Anastácio Matavele, os arguidos não esconderam o desconforto e agitaram-se no silêncio imposto pelo ritual das sessões de julgamento. Perguntado pela juíza Ana Liquidão se sabia das motivações do assassinato do pai, Licínio não hesitou na resposta: “Não sei quais foram as motivações. Melhor do que ninguém, só eles é que podem dizer”, disse, virando-se de novo para os arguidos já encolhidos com a primeira declaração à queima- -roupa. Enquanto a juíza tomava nota, o filho de Matavele lançou uma suspeita: “Eu acho que a morte de papá teve motivações políticas. Ele era activista social e membro da sociedade civil. Meu pai conhecia a realidade desta província e como director executivo do FONGA ele colocava as preocupações do povo nos fóruns apropriados. É provável que haja pessoas que não gostavam da forma como ele colocava as preocupações da sociedade”, disse, sublinhando que não conhecia ninguém com concreto. Confrontado com a versão dos arguidos (Edson Silica) de que a missão era “assaltar um cota com muito dinheiro”, Licínio foi taxativo: “Isso é blasfémia”. E justificou: “Meu pai sabia das necessidades que eu passava e se tivesse muito dinheiro, eu seria a primeira pessoa que ele ajudaria”. O filho de Matavele não foi o único declarante a desvalorizar a versão de “cota com muito dinheiro”, uma tentativa de última hora dos arguidos de maquilhar um homicídio com motivações políticas através de pinceladas de um simples assalto à mão armada. Aliás, Sónia Tembe, secretária de direcção do FONGA, disse que no fatídico dia 7 de Outubro Anastácio Matavele não tinha sequer dinheiro para abastecer a sua viatura. “Depois de dirigir a abertura da formação de observadores eleitorais, o director saiu da sala e disse que precisava de abastecer o carro, mas não tinha dinheiro. Um colega deu-lhe mil meticais e ele despediu-se e foi embora”. Portanto, o único dinheiro que “o cota com muito dinheiro” - na versão dos arguidos - trazia quando foi crivado de balas eram mil meticais que acabava de receber no “Salgadinho da Mamã Argentina”, o salão onde decorria a formação, localizado na estrada vai dar à praia de Xai-Xai. “Um pedreiro ligou-me a dizer que devia procurar um carro para socorrer o director, porque ele acabava de ser baleado na zona da Mocita. Quando os colegas foram ao local, ele já tinha sido socorrido”, contou a secretária Sónia Tembe. Ela foi a pessoa que logo pela manhã ligou para Matavele e disse que o director do FONGA não tinha nenhuma viagem agendada para aquela data: “Estávamos à sua espera para fazer as notas de boas-vindas aos participantes da formação. Ele veio e dirigiu a cerimónia de abertura. Saiu com promessa de voltar para o encerramento”, contou. Uma promessa que Matavele nunca mais cumpriu, pois minutos depois de ter deixado o “Salgadinho da Mamão Argentina” foi crivado de balas.


SERNIC ainda não devolveu o Samsung de Matavele


Por ironia do destino, Abílio Matavele estava na “paragem Mahumane”, o local onde capotou a Toyota Mark X que transportava o sinistro pelotão dos agentes do Grupo de Operações Especiais (GOE). Estava à espera do seu carro em reparação na oficina que funciona perto do local, quando viu um carro que vinha em alta velocidade e, de repente, capotou. “Todos aproximamos para socorrer as vítimas. O acidente tinha provocado muita poeira, mas conseguíamos ver pessoas feridas debaixo do carro”.

Quando o advogado da família pediu ao Licínio que falasse dos prejuízos que o assassinato de Matavele criou na família, ele resumiu dizendo que “papá era o pilar da família”. Era Matavele que cuidava da mãe doente, cuidava da esposa doente, dava assistência à família, pagava os estudos dos filhos, incluindo de Licínio. “Papá queria construir uma casa que servisse de base de sustento da família, mas com a sua morte todos os projectos pararam. E os responsáveis são estes senhores da Polícia que continuam a receber visita e comida das suas famílias todos os dias”, disparou no meio de muita emoção. A juíza apelou à calma e disse que ele não era o único que estava preocupado com o sucedido. “O Estado também está preocupado, por estamos todos aqui. Mesmo se não tivesse havido uma queixa particular da família, esses senhores estariam aqui. Isto é sinal de que o Estado está à procura da verdade para aplicar a justiça”, explicou Ana Liquidão. Mas a chamada de atenção da juíza exacerbou os ânimos de Licínio. “Meritíssima, compreendo a sua chamada de atenção. Mas quando diz que o Estado está preocupado, está a falar deste Estado que não consegue localizar um indivíduo que dizem que é fugitivo. Que Estado é esse que não consegue localizar um individuo seu território. Será que está mesmo foragido”, questionou. Além de prejuízos económicos, o filho de Matavele disse que o assassinato do pai está a causar problemas psicológicos na família, sobretudo nos netos da vítima. “Tenho uma sobrinha que não pára de perguntar pelo avô. E um sobrinho que tem pavor de polícias. Não quer ouvir falar de polícias. Ele está traumatizado”.


Órgãos sociais do FONGA queriam destituir Matavele


Os declarantes (familiares e colegas de Matavele) ouvidos ontem nunca tiveram conhecimento de nenhuma ameaça de morte contra a vítima. Mas quase todos acompanharam as “reportagens na imprensa” em que apareciam os “órgãos sociais do FONGA” que defendiam a destituição de Matavele do cargo de director executivo. As reportagens passaram em Maio de 2019 e os declarantes citaram os nomes de Leovigildo, presidente do conselho fiscal, e Manuel Muchabje, presidente do conselho de direcção, como os rostos da contestação. Entretanto, Anastácio Matavele foi assassinado numa altura em que decorriam os preparativos para a realização da Assembleia-geral que iria discutir as divergências e, provavelmente, eleger novos órgãos de direcção. Eldina Nhantave, trabalhadora do FONGA, e Stélio Manjate, sobrinho da vítima, também foram ouvidos ontem como declarantes. Nhantave contou que foi ela quem levou o carro que estava com Matavele no dia 7 de Outubro até à casa da “dona Arminda”. “O filho de Matavele ligou a dizer que queria deixar a viatura que estava com o pai no FONGA. Como nós não temos espaço suficiente para parquear, pedi à Arminda que fossemos deixar a viatura na sua casa. Arminda é a proprietária daquele carro, mas frequentemente andava com o director e ela usava a viatura do FONGA, que já não aguentava percorrer longas distâncias”, explicou. Hoje, o julgamento prossegue com a audição de mais declarantes, nomeadamente os membros da Unidade de Intervenção Rápida (UIR). (Centro para Democracia e Desenvolvimento)

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