Estudo revela que países africanos dispõe de reservas de água subterrânea para 5 anos


A maioria dos países africanos dispõe de reservas

de água subterrânea suficientes para enfrentar pelo

menos 5 anos de seca, revela novo estudo

Existe água subterrânea suficiente no continente africano para que a maioria dos

países sobreviva a pelo menos 5 anos de seca (e alguns, mais de 50 anos),

segundo um estudo da WaterAid e da British Geological Survey (BGS) lançado hoje.

Porém, o manifesto subinvestimento em serviços a fim de extrair a água do solo

para aqueles que mais precisam e os recursos inexplorados ou mal geridos levam a

que milhões de pessoas não tenham água limpa e segura suficiente para as suas

necessidades diárias, quanto mais para enfrentar os impactos da crise climática,

alertam a WaterAid e a BGS num novo relatório.

Água subterrânea: A defesa negligenciada do mundo contra as mudanças

climáticas é lançado hoje pela WaterAid e pela BGS, enquanto decorre a reunião

de chefes de Estado no Fórum Mundial da Água, no Senegal, África Ocidental.

A água subterrânea, que existe no subsolo em quase todos os lugares, em

cavidades do solo, da areia e da rocha, tem o potencial para salvar centenas de

milhares de vidas e ser a apólice de seguro do mundo contra as mudanças

climáticas, asseveram as organizações.

Pode ajudar as comunidades a lidarem não apenas com impactos de início lento,

como as secas e as chuvas irregulares, mas também providenciar resiliência a

impactos de início rápido, como as inundações, assegurando a disponibilidade de

água segura para todos, inclusive nas escolas e nos hospitais, segundo o relatório.

Tim Wainwright, Director-Executivo da WaterAid no Reino Unido, afirmou: “As

nossas ilações desmistificam a narrativa de que África está a ficar sem água. A

tragédia, contudo, é que milhões de pessoas no continente continuam sem água

limpa suficiente para beber.

“Existem vastas reservas de água mesmo debaixo dos pés das pessoas, muitas das

quais são reabastecidas todos os anos pelas chuvas e outras águas superficiais,

mas essas pessoas não conseguem aceder-lhes porque os serviços são

cronicamente subfinanciados.

“O aproveitamento da água subterrânea asseguraria que milhões de pessoas

tivessem acesso à água limpa e segura, independentemente do que a crise

climática lhes trouxesse.”

A WaterAid e a BGS elaboraram um conjunto de mapas que cartografam o acesso

actual à água potável em toda a África e a resiliência à seca, com base nas águas


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subterrâneas potencialmente utilizáveis ​​à escala nacional. Esse levantamento revela

que:

 A maioria dos países de África dispõe de água subterrânea suficiente para

que as pessoas não só sobrevivam, como também prosperem, em alguns

casos por mais de 50 anos.

 Tal inclui a Etiópia e Madagáscar, onde apenas metade da população tem

água limpa perto de casa, e grandes zonas do Mali, do Níger e da Nigéria.

 Todos os países africanos a sul do Sara poderiam fornecer 130 litros de água

potável per capita e por dia a partir de água subterrânea sem usarem mais de

25% da recarga média de longa duração; 1 na maioria, usando até menos de

10%. Tal significa que a água subterrânea pode ter um efeito amortecedor

contra as mudanças climáticas por muitos anos, mesmo no caso improvável

de não chover.

O Professor Alan MacDonald, director de resiliência da água subterrânea da

BGS, afirmou: “A água subterrânea é o reservatório de água da natureza e um

recurso fundamental para ajudar o mundo a adaptar-se às mudanças climáticas.

Está amplamente disponível, é controlada pela variação natural da geologia, mas

está longe da vista, sob os nossos pés.

“Para desbloquear o grande potencial da água subterrânea, precisamos do

investimento certo em conhecimento para efectuar o seu levantamento, perfurar

poços sustentáveis ​​e encontrar maneiras de manter e gerir os recursos e serviços

hídricos.”

Karimatu, de 17 anos, de Adamawa, Nigéria, que é apresentada no relatório,

acorda todos os dias às 6h00 para buscar água de um riacho próximo, fazendo pelo

menos três viagens antes da escola. Karimatu gostaria de ser médica, mas a busca

de água de manhã cedo afecta a sua actividade escolar. “Conseguir um

abastecimento de água regular far-me-á feliz”, disse ela à WaterAid.

O relatório também explica que, embora a água subterrânea na África Subsariana

esteja amplamente subutilizada, noutras partes do mundo, sobretudo no Sul da

Ásia, o seu uso excessivo é generalizado. Tal, juntamente com a falta de

regulamentação e a insuficiência de conhecimento e investimento, muitas vezes,

leva à má gestão, contaminação e poluição, com consequências potencialmente

devastadoras.

 Em algumas áreas, a agricultura é responsável por até 90% de todo o uso de

água subterrânea. Embora actualmente as colheitas prosperem, os furos

podem secar, o que significa que as colheitas serão afectadas mais tarde e

as pessoas terão de beber água insegura para sobreviver. No Paquistão, por

exemplo, 94% da água subterrânea bombeada é para a irrigação .

 Noutras regiões, a água subterrânea está contaminada naturalmente com

arsénico e fluoreto, o que pode levar a doenças ou mesmo à morte. Na Índia,

por exemplo, a contaminação por arsénico afecta os estados nortenhos de

Uttar Pradesh e Bihar, bem como Bengala Ocidental a leste. Vários distritos

1 A recarga é a reposição de água nos aquíferos por meio da chuva. Um

aquífero é uma massa de rocha e/ou sedimento que retém água subterrânea.


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de Odisha são afectados por teores elevados de fluoreto, ferro e salinidade e

partes do centro e do sudeste da Índia também apresentam níveis mais altos

de contaminação por nitrato e ferro.

 Tanto no Sul da Ásia como em África, a água subterrânea é vulnerável à

poluição, seja por fertilizantes e pesticidas da agricultura intensiva, produtos

químicos tóxicos de indústria mal regulamentada ou esgotos de saneamento

mal gerido. Por exemplo, um levantamento recente de furos na Etiópia, no

Uganda e no Malawi encontrou E. coli na água de 20% das bombas manuais

rurais, provavelmente como resultado de má impermeabilização dos furos, o

que permite que a água contaminada das casas de banho próximas escorra

para o interior das bombas.

Água subterrânea: A defesa negligenciada do mundo contra as mudanças climáticas

realça a necessidade de aumentar o financiamento da água e do saneamento para

as comunidades marginalizadas por meio de uma percentagem fixa dos orçamentos

de Estado anuais e do aumento do investimento dos doadores internacionais e do

sector privado.

Também sublinha a importância de um consenso na COP27 quanto ao facto de o

investimento no desenvolvimento responsável da água subterrânea e o

conhecimento, a experiência, o financiamento e o apoio institucional que o mesmo

exige serem cruciais para obter água e saneamento sustentáveis, seguros e

salvadores de vidas para as comunidades que vivem na linha de frente da crise

climática.

Uma das formas de o conseguir é através do investimento em melhores

levantamento e monitorização do subsolo terrestre para determinar onde a água

subterrânea de boa qualidade não só está disponível, como é extraível de forma

sustentável e económica, para libertar todo o seu potencial, afirmam a WaterAid e a

BGS.

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