Era uma vez um país que não dava certo...


Por Sérgio Cossa


Havia um país que podia dar certo.Tinha tudo mesmo para dar certo. O país era independente há 44 anos mais ainda era só esparança. Os cidadãos eram chamados a olhar para horizonte onde estava a promessa do país dar certo. Muitos compraram binóculos, olharam para o horizonte onde estavam as promessas, e não viram nenhuma esperança. Chegaram a pensar que era da qualidade dos binóculos. Mandaram vir outros. No país que tinha tudo para dar certo, não se fabricam binóculos. Manda-se vir. O que muda é o país de onde se manda vir. Com novos binóculos olharam para o horizonte das promessas e não viram esperança. Mas mesmo assim bateram palmas, para quem lhes dizia haver esperança no horizonte das promessas. Não podiam dizer que não tinham visto esperança, mesmo depois de terem usado binóculos de alta fidelidade.

Mas era assim há 44 anos. O Chefe do país prometia e outros sonhavam que a promessa dele já tinha acontecido. E muitos batiam palmas. Havia as palmas obrigadas e as palmas voluntárias. As voluntárias eram também obrigatórias.

No princípio, as promessas vinham em intermináveis comícios. Onde não se podia ter fome nem sentir-se sede. E nos comícios prometia-se acabar com a fome e vencer o subdesenvolvimento. Não se sabe se venceu a fome. Mas sabe-se que com repolho os pratos de muitos ficaram menos vazios. Atacava-se os burgueses em nome do socialismo. Todos queriam ser do proletariado. No horizonte das promessas havia quem via uma sociedade justa já construida no vermelho do socialismo. Perseguia- se aos que não viam que o socialismo já tinha chegado.

E houve guerra no país que podia dar certo. E um país em guerra não pode dar certo.

E depois veio um novo Chefe. Prometeu um “futuro melhor”. Os defensores do proletariado tornaram-se burgueses. Mas para apertar o cinto em nome do Programa de Reajustamento Estrutural, foi chamado o povo. E muitos bateram palmas. Apertaram o cinto em nome do “Futuro Melhor”. E futuro chegou. Mas só melhor para alguns. Para os que estavam próximos do chefe. Os “ empresários de sucesso” e muitos outros empresários que começaram a surgir escondidos num cartão vermelho.

E veio a paz. Mais do que nunca acreditou- se que o país ia dar certo. Mas futuro continou a chegar muito melhor só para alguns.

O Chefe mudou. Prometeu que ia acabar com a “ pobreza absoluta” e “ combater o deixa-andar”. Muitos apalaudiram. Não havia dúvidas, desta vez o país ia dar certo.

Mas pouco depois muitos aperceberam-se que havia umas riquezas absolutas que cresciam en nome do combate a pobreza absoluta. O chefe zangou-se com os críticos. E chamou- lhes nomes: “ apóstolos da desgraça”, “ marginais” e outros.

As hostilidades começaram. Já não se chamava guerra. E com ela fanstasmas antigos voltaram a ganhar. Já estava claro que o país não ia dar certo. O Chefe e alguns chefinhos um dia viram a necessidade de proteger a costa. E foram pedir emprestado dinheiro.Assunto complicado. Porque depois disso, ficou claro que o país não ia dar certo.

Antes de sair o Chefe, correu e fo buscar a paz de volta. Talvez assim, o país fosse dar certo.

E um novo Chefe sentou-se na cadeira do poder. Disse que, “ o povo é o meu patrão”. Muitos acreditaram que desta vez tinham um chefe que era “ seu empregado”. Um país assim, só podia dar certo. O tempo passou, e as hostilidades voltaram. O cheiro a pólvora infiltrou-se no ar. O país já não estava a dar certo.

Ficou-se a saber que o dinheiro que o chefes e chefizinhos anteriores tinham pedido emprestado tinha afinal nome: “ dívidas ocultas”. O problema afinal era sério. O novo chefe ainda não sabe dizer se sabia ou não do assunto. Enerva-se quando é perguntado sobre o assunto.Mostra-se mais patrão do que um empregado.

Aliás, já poucos acreditam que é mesmo “ empregado do povo”. Tornou-se patrão mesmo. Ser da sua etnia tornou-se vantagem no país. O filho conduzia carros de alta cilindrada sem nunca ter trabalhado. Afinal, o empregado era igual a todos os patrõe. Um país assim não parecia que ia dar certo.

Correu atrás de paz que ele próprio tinha deitado fora.

De Cabo Delgado chegaram más notícias. Surgiram insurgentes a matar o povo.

E no gás da Bacia do Rovuma começaram a desenhar-se novas esperanças. Mas mesmo assim o país ainda não deu certo.

Talvez o povo esteja a olhar para o horizonte errado. Há 44 anos.

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