Desmond Tutu, Arcebispo sul africano e Nobel da Paz morre aos 90 anos


Contemporâneo de Nelson Mandela e uma das vozes ativas contra o regime que vigorou entre 1948 e 91, o arcebispo emérito, laureado com o Nobel da Paz em 1984, morreu este domingo. Funeral no sábado.


Um líder religioso que “deu significado à expressão bíblica de que a fé sem trabalho está morta”. “Patriota sem paralelo”, o arcebispo emérito Desmond Tutu, um dos rostos da luta contra o regime do apartheid na África do Sul, morreu ontem, aos 90 anos.

A sua morte foi anunciada esta manhã na Cidade do Cabo pelo presidente do país, Cyril Ramaphosa, que descreveu o clérigo como um “líder espiritual icónico, ativista anti apartheid e defensor dos direitos humanos em todo o mundo”.

O funeral do arcebispo decorrerá no próximo sábado na Catedral de São Jorge, a sua antiga paróquia na Cidade do Cabo. “Os preparativos para uma semana de luto estão na sua fase inicial”, disse a fundação através de uma declaração, acrescentando que “vários eventos foram confirmados para a próxima semana, que antecede o funeral do arcebispo, no sábado, 1 de janeiro de 2022”.

No Twitter, Ramaphosa voltou a evocar o nome de Tutu e a assinalar a perda para a nação sul africana que se tem vindo a despedir da “geração extraordinária” que garantiu um país livre.

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Um “tesouro nacional” nas palavras do presidente Ramphosa, quando Tutu alcançou a proveta marca dos 90, em outubro passado, foi ordenado sacerdote no começo da década de 60, após estudar no St. Peter’s Theological College, em Rosettenville, o popular bairro de portugueses no sul de Joanesburgo.

Assumiria as funções de bispo do Lesoto entre os anos de 1976 e 1978. Depois da função de assistente, tornou-se bispo em Joanesburgo em 1985, usando a sua influente voz no combate à segregação que vigorou naquele país entre 1948 e 1991. Foi nomTambém a Tutu se deve o termo “nação arco-íris”, usada para descrever uma África do Sul multi racial num cenário pós-apartheid, apesar de nos anos mais recentes o arcebispo emérito admitir que a nação não caminhara em absoluto para o projeto que sonhara.

Diagnosticado com cancro da próstata em finais de 90, o arcebispo foi submetido a várias intervenções em diversas ocasiões. O arcebispo anglicano estava debilitado há vários meses, durante os quais não falou em público, mas ainda cumprimentava os jornalistas que acompanhavam cada uma das suas saídas recentes, como quando foi tomar a sua vacina contra a covid-19 num hospital ou quando celebrou os seus 90 anos em outubro.

Acabou por morrer “de forma tranquila no centro de repouso Oasis Frail”, na Cidade do Cabo.

A Cidade do Cabo vai iluminar a Table Mountain e o edifício da Câmara Municipal de roxo, a cor com a qual o arcebispo costumava vestir-se. As luzes roxas acenderão às 20 horas locais (18 horas em Lisboa) e permanecerão acesas todos os dias desta semana até a meia-noite.

Políticos e ativistas recordam Tutu. Twitter lembra lemas inspiradores

As reações à notícia estão a suceder-se e não é apenas na África do Sul. A fundação Nelson Mandela lembrou as “contribuições nas lutas contra a injustiça, local e global”, que Tutu acompanhou com um “pensamento profundo sobre a construção de futuros de liberdade para sociedades humanas”. A reação da fundação, citada pela Reuters, define o líder religioso assim: “Um ser humano extraordinário. Um pensador. Um líder. Um pastor”.

Bernice King, filha de Martin Luther King, já veio dizer-se “triste” por saber da morte de um “sábio global, líder de direitos humanos e peregrino poderoso da terra”: “Estamos todos melhor porque ele esteve cá”, resumiu.

O Papa Francisco considerou que Tutu esteve “ao serviço do Evangelho”, através da “promoção da igualdade racial e da reconciliação na sua África do Sul natal”, como pode ler-se num telegrama enviado pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin.

Já o Dalai Lama recordou, como refere a agência Lusa, um amigo de longa data e um homem “que se dedicou inteiramente a servir os seus irmãos e irmãs pelo bem comum”, dizendo que ele foi “um verdadeiro humanista e um defensor comprometido dos direitos humanos”.

Também vão surgindo as reações da esfera política internacional: o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, reagiu à morte do que descreveu como uma “luz que guiava inúmeras pessoas no mundo”, frisando o seu empenho na luta pela “dignidade humana e igualdade”.

A Rainha de Inglaterra reagiu esta tarde no Instagram, louvando os “esforços incansáveis” de Tutu pelos direitos humanos e dizendo recordar com carinho os seus encontros com o líder religioso, nos quais se mostrava “caloroso e bem humorado”. Por toda a Commonwealth, frisa a rainha, a sua falta será sentida, dado o “carinho e estima” que as populações lhe reservavam.eado, em 1986, arcebispo anglicano da Cidade do Cabo, o primeiro negro a alcançar semelhante posição. (Observador)

Depois de Nelson Mandela se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul (1994-1999), Desmond Tutu foi designado para liderar a Comissão de Verdade e Reconciliação destinada a investigar atrocidades cometidas por ambas as partes durante o período do apartheid, presidindo ao mecanismo criado pelo Governo de Unidade Nacional para facilitar o processo de reconciliação nacional sul-africano após a queda do regime. Tutu acabaria por passar à História como a consciência moral do país.


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