Como o Governo “gratifica” reformados num país cheio de jovens


Armando Panguene foi empossado semana passada, como presidente da Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), recentemente criada pelo Governo.

A nomeação de Armando Panguene de 77 anos, com uma folha de serviços no Estado onde chegou a reforma, virou motivo de chacota e indignação em vários quadrantes. .

Panguene foi empossado pelo Primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário que no acto frisou que as linhas estratégicas da agência devem centrar-se na geração de renda e na criação de mais empregos, sobretudo para os jovens.


O Centro para Democracia e Desenvolvimento fez uma radiografia do seu percursso.


A sua carreira começou no Governo de Transição em 1974, quando foi nomeado Governador da Província de Nampula. Nessa altura, Panguene tinha 32 anos, mais ou menos a idade de milhões de jovens que hoje não têm oportunidades de emprego. Alcançada a Independência Nacional, Armando Panguene foi nomeado vice-ministro dos Negócios Estrangeiros (o ministro era Joaquim Chissano, já reformado), cargo que ocupou entre 1975 e 1977. Neste ano, é nomeado primeiro Embaixador de Moçambique em Portugal, tendo ocupado o cargo até 1980. Volta a Moçambique para exercer as funções de Governador de Cabo Delgado, entre 1980 e 1983. Já em 1984, Samora Machel nomeia Armando Panguene para o cargo de Vice-ministro da Defesa Nacional. Exerceu as funções até 1987, ano em que foi chamado por Joaquim Chissano para ser Embaixador Itinerante, Extraordinário e Plenipotenciário de Moçambique. Entre 1988 e 1996, Panguene foi Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário de Moçambique no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. De 1996 a 2001, foi Embaixador de Moçambique na África do Sul, respondendo igualmente por Namíbia e Lesotho. De 2001 a 2009, trabalhou em Washington como embaixador de Moçambique nos Estados Unidos da América. Oito anos depois de um descanso, Panguene volta a exercer funções públicas: em 2017 é chamado por Filipe Nyusi para integrar a Comissão de Assuntos Militares, criada no âmbito das negociações para a paz definitiva entre o Governo e a Renamo. Pelo peso da idade e pelos longos anos de serviço prestado ao Estado, era expectável que aquela fosse a última missão de Armando Panguene. A verdade, porém, é que o Conselho de Ministros nomeou este diplomata de carreira para o cargo de Presidente do ADIN. Quando Moçambique celebrar 45 anos de Independência em Junho próximo, ele estará a celebrar, também, 45 anos de serviço ao Estado. Armando Panguene é dos poucos combatentes da Luta de Libertação Nacional que exerceu funções no Governo de Transição, foi nomeado para vários cargos pelos quatro Presidentes de Moçambique: Samora Machel, Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi. Apesar de reconhecer a sua vasta experiência de diplomata e de governante, o Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD) entende que Armando Panguene devia abdicar do cargo de Presidente da ADIN para gozar tranquilamente a sua reforma. Da mesma forma que em 1974, com apenas 32 anos, ele foi nomeado Governador de Nampula, o CDD acredita que hoje também existem jovens capazes de ocupar cargos relevantes e de dirigir instituições de Estado. Por isso, não se justifica que o Governo tenha de recorrer à “Geração 25 de Setembro” para “recrutar” dirigentes, quando existem milhões de jovens preparados para os desafios do país. A “Geração 25 de Setembro” já deu o seu valioso contributo na construção e consolidação do Estado, pelo que o Governo devia apostar mais na juventude, através de exemplos concretos. Numa altura em que Cabo Delgado é palco de ataques terroristas, a ADIN pode desempenhar um papel importante na busca de soluções para o problema, através de criação de condições sociais e económicas que desencorajem os jovens a juntar-se aos grupos radicais. Mas para tal, seria necessário que a agência fosse liderada por jovens com ideias criativas e inovadoras, jovens cheios de energia para correr e pôr a instituição a correr. Vale aqui lembrar as palavras de Filipe Nyusi proferidas no discurso de tomada de posse: “Moçambique é um país de jovens. Não haverá desenvolvimento de Moçambique sem o envolvimento dos jovens. Apostaremos na educação e formação profissional de jovens, promovendo o seu contributo nos espaços políticos e no aumento de produção e produtividade”. Mais do que palavras, Filipe Nyusi deve demostrar com acções que a juventude ocupa um lugar central na sua governação. No mesmo discurso de 15 de Janeiro, Nyusi defendeu o seguinte: “Continuaremos a enaltecer o heroísmo dos que sacrificaram a sua juventude e vida para que os Moçambicanos sejam hoje donos do seu destino. Atenderemos às preocupações dos Combatentes assegurando o pagamento das suas pensões, garantindo-lhes o acesso à saúde e educação dos seus filhos conforme previsto na lei”. O CDD entende que este é o caminho que o Governo devia seguir para atender às preocupações da “Geração 24 de Setembro”. Os combatentes sacrificaram a sua juventude para a libertação de Moçambique, pelo que não faz sentido e nem é justo que hoje, 45 anos depois da Independência, sejam chamados para consentir novos sacrifícios no sector público, num contexto em que não há falta de quadros no país. O CDD respeita os combatentes que, por iniciativa própria, continuam no activo no sector privado. Aliás, depois de terminar a sua carreira diplomática, Armando Panguene integrou o Conselho de Administração da Companhia de Búzi, uma empresa tecnicamente falida. Localizada em Sofala, a Companhia de Búzi parou de produzir açúcar em 1994 e nos últimos anos produz e vende cana-de- -açúcar à Açucareira de Mafambisse. Ainda assim, a empresa continua em falência técnica, com dívidas aos fornecedores e salários em atraso. (Moz24h com CDD)

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