Carta de Maputo

Atualizado: Mai 26


Foto : Estacio Valoi

Do nosso correspondente

MOÇAMBIQUE, no canto austral da África, parecia estar a sair-se relativamente bem nestes tempos incertos. Um fluxo decente de ajuda externa ajudou a nos manter solventes e o Governador Rogério Zandamela dirige o Banco Central com um punho forte transparente.


Certo, a dívida ainda se mantém estratosférica depois que o antigo Presidente Armando Guebuza solicitou secretamente um empréstimo de 2.2 bilhões de dólares que lançou-nos ma ruína financeira em 2016. Mas temos mega-projectos de gás que estão em larga medida no caminho certo e, por isso, devemos recuperar gradualmente. Nada mal, comparado com o caos das vizinhas Zámbia e Zimbabwe.


Mas o nosso potencial para sermos um bastião de esperança na região foi frustrado por uma insurgência sangrenta na província de Cabo Delgado. No norte, mesmo abaixo da Tanzania, enormes descobertas de gás chamaram atenção à áreas largamente islâmicas e esquecidas repletas de contrabando e com uma sensação de abandono do governo central a mais de 1.600 quilómetros de distância. Após três anos de crescente conflicto, as forças governamentais praticamente perderam a província. Um futuro com os projectos de gás bloqueados em enclaves enquanto a população foge ou se junta aos insurgentes não é impossível.


O Presidente Filipe Nyusi tem estado em grande medida mudo enquanto os insurgentes tomam vilas e ilhas idílicas, onde gente como Will ‘e’ Kate costumava passar férias em uma reclusão luxuosa e importada. Ele tem estado a dizer pouco sobre os 300.000 deslocados internos famintos, excepto para castigá-los por não usarem as máscaras contra a Covid, e o descontentamento no seio do seu exército desnutrido e com poucos recursos está a crescer. Enquanto isso, parece impassível ao portofólio de produtos de luxo desfrutados por seus filhos susceptíveis à acidentes. O jovem Florindo, em particular, está com um maré de azar, primeiro espatifou a sua lancha Riva dourada (em frente ao Clube Naval em Maputo) ao fazer a engajar a marcha-ré no motor Lamborghini numa tentativa de reduzir a velocidade, antes de acidentar o seu vistoso Aston Martin.


Para um ex-ministro da Defesa, Nyusi sabe surpreendentemente pouco sobre defesa. Mais versado em linhas férreas do espingardas, ele veio da parte certa do país e foi nomeado por Guebuza, que esperava que Nyusi o ajudasse a manter influência, já que seu segundo mandato terminava em 2015. Isso não tornou Nyusi querido para os militares que têm estado a lutar uma guerra ou outra, ano após ano em cerca de meio século.


Graças aos nossos veteranos da guerra civil, os insurgentes encontraram, pelo menos, uma oposição mais dura nas últimas semanas. Embora exagerado na propaganda da Frelimo, tem havido agora algumas vitórias estratégicas depois que os “antigos combatentes”, com o seu conhecimento das guerras no mato, se apresentaram para ajudar. Isso é útil para Nyusi, após a péssima recepção de seu livro de estreia, “Legado: Organizando-nos em Defesa da Pátria Mãe”, em Setembro. Ele diz que seu trabalho não é fornecer uma solução, mas uma “inspiração” para uma solução para o conflicto. Seus generais perplexos balançaram a cabeça e concluíram: “ele não tem vergonha”.


Ele também não tem sentido de ironia. Tendo ganho uma vitória esmagadora no final do ano passado sob uma nuvem de flagrante fraude, Sua Excelência fez um apelo à nação para “trabalhar, trabalhar, trabalhar”. Para o presidente, foram mais “golfe, golfe, golfe” - e noitadas exóticas que teriam feito Berlusconi corar. Mesmo com o país ameaçado pela Covid, Nyusi ainda gosta de festas, e às vezes ele não vai para a cama antes do amanhecer.

Outros líderes foram corruptos, incompetentes ou preguiçosos. Mas ninguém celebrou a mediocridade como Nyusi. O partido Frelimo está no poder desde a independência de Portugal em 1975 e as suas barbas grisalhas estão cada vez mais ansiosas. Guebuza e o seu antecessor Joaquim Chissano foram convocados para uma intervenção. Se as coisas não melhorarem logo, não é impossível que Nyusi fique fora do que passa por trabalho.(Moz24)

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