Cabo Delgado, gás e congresso da Frelimo vão marcar 2022 em Moçambique


O congresso da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder desde a independência, deverá marcar a agenda do país em 2022, ano que será também de preocupação pelo possível alastrar da violência de Cabo Delgado a outras províncias.

Fernando Lima, jornalista e presidente da Mediacoop, primeiro grupo de media privado em Moçambique, questiona-se, em declarações à agência Lusa, sobre se haverá segurança em Cabo Delgado para o recomeço do projeto de extração e liquefação de gás do consórcio da Área 1, liderado pela TotalEnergies.

É o maior investimento privado em África, avaliado em cerca de 20 mil milhões de euros, e é a grande esperança para reanimar a economia moçambicana, mas "há sinais de grande preocupação" e o Governo "não parece ter respostas muito evidentes".

A par da repressão dos rebeldes pelas tropas do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla inglesa) desde julho, alguns ataques sugerem uma dispersão e alastramento da violência para outras províncias.

"Eventualmente, daqui a uns meses teremos situações preocupantes no Niassa, Nampula e Zambézia" porque "a reação das forças de segurança moçambicanas tem sido muito ténue. Tudo o que tem sido feito, tem sido graças à presença internacional", sublinhou.

Borges Nhamire, investigador do Centro de Integridade Pública (CIP), organização não-governamental (ONG) moçambicana, considera importante "a clarificação sobre a saída ou não das tropas do Ruanda".

"Há círculos de opinião que questionam: parece que há um exército privado em Moçambique", porque "os mecanismos que fizeram com que aqui chegasse não estão claros", disse.

No próximo ano e com uma eventual retoma de trabalhos pela petrolífera Totalenergies, deverá "ficar claro quem é que vai proteger o local do projeto" no contexto "de um conflito que não está terminado: ficam os moçambicanos, ficam outros, fica o Ruanda de forma aberta ou camuflada", questiona Nhamire.

Segundo refere, a força da SADC funciona como contrapeso às dúvidas sobre o papel ruandês e o investigador considera que seria "catastrófico" se aquele efetivo multinacional não encontrasse financiamento para continuar em Cabo Delgado em 2022.

Por outro lado, considera relevante observar "como é que os insurgentes se vão comportar no final da época chuvosa", mais propícia a novas movimentações.

Para já, uma certeza é a chegada ao largo da costa de Cabo Delgado da plataforma flutuante que vai dar início à exploração das reservas de gás do Rovuma - que estão entre as maiores do mundo -, abrindo uma nova era na economia moçambicana, que já contará com alguma receita em 2022.

O congresso da Frelimo, em setembro, vai ser importante para o país, tendo em conta que o partido controla as esferas do poder e "o congresso vai eleger os órgãos internos" e "eventualmente abrir caminho para um candidato ou candidatos" à liderança da força política e previsivelmente do Estado nas eleições de 2024, nota Fernando Lima.

Os dois analistas ouvidos pela Lusa esperam por clarificação sobre um debate que dizem estar a acontecer nos bastidores sobre a possibilidade de um terceiro mandato presidencial de Filipe Nyusi - obrigado a revisitar o artigo 147 da Constituição segundo o qual "o mandato do Presidente da República é de cinco anos", sendo que "só pode ser reeleito uma vez".

Borges Nhamire pensa que o debate agora "é mais sério" do que quando já foi tentado anteriormente, no final dos 10 anos de funções do Presidente Guebuza, antecessor de Nyusi.

"O Presidente [Nyusi] não se pronunciou sobre isto, mas sabemos que muitos dos seus colaboradores, em privado, têm vindo a defender esta opção", refere Fernando Lima, que a classifica como "muito difícil": além de obrigar a mudar a Constituição, não faz parte da "tradição política", diz, questionando ainda se "um país tão dependente do exterior estará disposto a enfrentar mais um vez a hostilidade da comunidade internacional" face a tal proposta.

Nhamire considera ainda importante o congresso da Frelimo de 2022 para perceber se dele emergirá alguma ala dominante no partido.

A forma como a Frelimo gere o poder tem estado sob escrutínio acrescido com o julgamento das dívidas ocultas do Estado, escândalo de corrupção envolvendo garantias de 2,2 mil milhões de euros emitidas pelo Estado sob a presidência de Guebuza em 2013 e 2014 - com Nyusi como ministro da Defesa.

Réus chave deverão ser condenados numa sentença "histórica", diz Borges Nhamire, dado que é o maior julgamento desde a independência do país, mas o mais importante para o avanço do caso "vai ser a sentença do recurso que os réus deverão apresentar" e aí não se sabe se as instâncias superiores se irão pronunciar "no próximo ano ou noutro", acrescenta.

"Penso que vai haver áreas de penumbra no atual julgamento", refere Fernando Lima, com o desfecho a aproximar-se - deverá acontecer no primeiro trimestre do novo ano

"Haverá sempre pontos de interrogação sobre pessoas que estão atualmente no Governo e passaram por entre os pingos da chuva", acrescenta, sublinhando, no entanto, que agora "há muita informação que é do domínio público".

Pairam ainda sobre 2022 dúvidas sobre os efeitos da covid-19, nomeadamente quanto a uma quarta vaga que eventualmente se aproxima do país, muito afetado pelos impactos da pandemia por ser extremamente dependente do exterior, nota Nhamire.

Fernando Lima realça outro ponto: "Moçambique está a receber milhões de vacinas, o que coloca o país sob outro tipo de pressão: como usar todos estes recursos e como transportá-los, sobretudo durante a época das chuvas" de outubro a abril.

Uma coisa é certa: 2022 ainda começa com máscara posta e distanciamento social recomendado. (Fonte Noticias ao Minuto )

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