Atormentados pelos fantasmas, medos de ontem, hoje

Atualizado: 18 de out.

Por Estacio Valoi



São pessoas que lutam para sobreviver após cinco anos de conflito em Cabo Delgado, atormentadas pelos fantasmas de ontem, hoje profundamente marcados na vida destas pessoas que vem tentando apagar os horrores nelas inflectidos com recurso a catana - forçadas a assistir ou não à decapitação dos seus entes queridos, outros que apenas dizem "graças a Deus, aqueles que caminharam quilómetros, dia e noite, aqueles que, exaustos de caminhar tanto, crianças, jovens e velhos, sucumbiram na floresta, outros foram levados pelo mar, e outros no milhão de refugiados em resultado de uma guerra que os sobreviventes são incapazes de explicar.


São sobreviventes de tantas mortes que por eles passaram, mas ainda os fantasmas de ontem, medos continuam os de hoje, traumatizados, deprimidos e os números não são poucos. Não basta uma enxada e uma ida a machamba.


Segundo a organização Medicos Sem Fronteiras do leque das suas atividades (MSF) in Cabo Delgado in 2021, uma das organizações que actua na área da saúde mental tiveram um registo de consultas de saúde mental de 3,500 e outras 64,000 fizeram parte de sessões de atendimento de grupos de saúde mental


Tormentos


diz a MSF que devido ao contexto volátil e em constante mudança, apaesar da sua flexibilidade e adaptação ' A assistência humanitária está desproporcionalmente distribuída em Cabo Delgado, com mais assistência a ser prestada no sul da província, que é considerada mais estável."


Segundo a mesma em alguns dos distritos onde vem implementando as suas actividades como Macomia, Palma e Mocímboa da Praia, muitas vezes nenhuma ou muito poucas outras organizações têm uma presença regular sendo necessario fazer mais para que as pessoas em zonas de difícil acesso tenham acesso a apoio para salvar vidas.

"Muitas pessoas não só perderam os seus bens e as suas famílias, como também perderam o seu sentido de dignidade", diz Moreira.


A MSF tem uma longa história em Moçambique que remonta a 1984, durante a guerra civil moçambicana. Em Cabo Delgado, as nossas equipas conduzem actualmente projectos em Macomia, Mocímboa da Praia, Palma e Mueda e distritos vizinhos através de clínicas móveis, tais como Muidumbe, Nangade e Meluco. O nosso apoio envolve consultas gerais de saúde, serviços de saúde mental, melhorias na água e saneamento, apoio especializado de saúde a hospitais locais e a distribuição de kits de artigos de emergência.


Quase um milhão de pessoas estão actualmente deslocadas no norte de Moçambique depois de terem fugido das suas casas em busca de segurança, devido ao conflito que começou na província de Cabo Delgado em Outubro de 2017.

Muitas pessoas foram deslocadas várias vezes, forçando-as a abandonar os seus poucos bens, meios de sobrevivência, entes queridos e comunidades durante cada deslocação. Viver um conflito tão prolongado, com poucas ou nenhumas perspectivas de um futuro estável, vem com profundas consequências para a saúde mental.


Cinco anos depois, algumas comunidades em Cabo Delgado continuam a viver num medo constante e continuam a sofrer traumas e perdas. Muitas testemunharam assassinatos; outras perderam o contacto com os seus familiares e ainda não sabem onde estão.

Maria, uma mulher idosa de Ancuab, foi deslocada pela violência "Quando a guerra eclodiu, todos nós corremos numa direcção diferente. Eu cheguei aqui sozinha com uma criança que encontrei no caminho. O seu pai foi morto a tiro. A sua mãe foi raptada".

Cabo Delgado: Uma crise longe de ter terminado

Uma ambulância destruída fora do centro de saúde em Muatide, no distrito de Muidumbe, na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Moçambique, Outubro de 2021.


"Estamos separados da nossa família e do resto do nosso povo", diz um líder comunitário de Mocímboa da Praia, um distrito no norte de Cabo Delgado. Teve de começar do zero uma e outra vez, e vive actualmente numa povoação temporária no distrito de Palma.

"Por vezes ouvimos falar de um membro da família doente, mas não temos forma de os visitar", diz ele. "Por vezes ouvimos falar do falecimento de alguém, mas não conseguimos chegar até ele. Cada dia que passa, ficamos mais tristes com isso".


Tatiane Francisco, Médicos Sem Fronteiras (MSF)


Tatiane Francisco, Médicos Sem Fronteiras (MSF), gestora da actividade de saúde mental, diz que o stress agudo e a ansiedade devido à incerteza e falta de perspectivas, bem como a perda e o luto, são as principais razões pelas quais as pessoas procuram consultas sobre saúde mental nos nossos projectos.


"Quando se está constantemente sob este medo, é difícil pensar no futuro, é difícil planear as coisas. Ainda se vive em modo de sobrevivência. As pessoas têm vivido numa espécie de limbo há anos".

Moçambique: Dentro dos kits de distribuição de artigos de socorro dos MSF a pessoas recentemente deslocadas em Cabo Delgado

Em Mumane, uma comunidade perto da cidade de Montepuez, mais de 500 famílias recentemente deslocadas recebem kits de artigos de ajuda. Desde Junho, estima-se que a violência tenha expulsado mais de 80.000 pessoas das suas casas em Cabo Delgado. Moçambique, Julho de 2022.


Maria, uma mulher idosa de Ancuabe, chegou à cidade de Montepuez em Julho após um surto de violência que desenraizou mais de 80.000 pessoas durante algumas semanas.

"Quando a guerra eclodiu, todos nós corremos numa direcção diferente", diz Maria. "Cheguei aqui sozinha com uma criança que encontrei no caminho. O seu pai foi morto a tiro. A sua mãe foi raptada. Gostaria que a guerra acabasse para podermos voltar para a nossa terra".


Tal como Maria, muitas pessoas sonham em regressar a casa e reconstruir as suas vidas como agricultores, pescadores e membros da comunidade. No entanto, a incerteza, o medo e o trauma tornam difícil o regresso à vida normal.

Tatiane Francisco, MSF gestora de actividades de saúde mental "As histórias que as pessoas nos contam são sobre mães que tiveram de deixar os seus filhos durante uma fuga e não sabem como eles são hoje; crianças que testemunharam a morte dos seus pais; pessoas que testemunharam a morte de outros membros da família".


Cinco anos de medo: O impacto humano de um conflito imprevisível em Moçambique

Tatiane Francisco, MSF gestora da actividade de saúde mental em Moçambique, diz que as pessoas deslocadas pelo conflito em Cabo Delgado vivem constantemente com medo e por isso não conseguem pensar no futuro. Moçambique, Agosto de 2022.



© Mariana Abdalla/MSF


Medo

"Neste momento, em diferentes partes da província, há pessoas tanto a regressar aos seus locais de origem como pessoas forçadas a fugir e a serem novamente deslocadas", diz Tatiane Francisco, gestora de actividades de saúde mental dos MSF. "Pode não haver violência onde algumas pessoas estão, mas, para elas, nada garante que isto não mude no futuro".


Além disso, a violência extrema deixa frequentemente cicatrizes psicológicas dolorosas para aqueles que sofreram com ela.

"Algumas pessoas têm a coragem e o desejo de voltar para onde estão, mas outras, devido ao tipo de acontecimentos que viveram, preferem não arriscar voltar até terem a certeza de que as coisas estão bem", diz Josuel Moreira, psicólogo de MSF em Palma.


"Isto mostra-nos que tanto as experiências, como os sentimentos associados a estas experiências passadas, são vívidos e as pessoas ainda os transportam. Nem se lhe pode chamar stress pós-traumático; o trauma ainda está lá".

medida que o conflito em Cabo Delgado prossegue, estas questões de saúde mental, assim como o acesso a serviços básicos, tais como cuidados de saúde, água, alimentação e abrigo, continuam a ser uma luta para muitos.


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