As mudanças climáticas invertem o progresso no acesso das pessoas ao saneamento em Moçambique



Segundo novo Estudo sobre o Impacto das Mudanças Climáticas no Saneamento em Moçambique a ser divulgado no âmbito do Africa Climate Week que terá lugar em Gabão a partir de hoje segunda-feira, 29 de Agosto. O número de pessoas com acesso a saneamento melhorado diminuiu de 28% para 19% nos últimos oito anos


Os ciclones, as inundações e secas mais frequentes atrasaram desenvolvimentos essenciais, particularmente, nas zonas rurais e urbanas mais pobres de Moçambique, de acordo com um novo estudo produzido pela WaterAid, Organização Não Governamental com fins não lucrativos que opera nas áreas de água, saneamento e higiene.


O relatório documenta que as mudanças climáticas estão a ter um impacto devastador em décadas de progresso no acesso das pessoas ao saneamento em Moçambique, uma vez que as infra-estruturas e latrinas têm sido destruídas durante os eventos climáticos extremos. Esta tendência pode ter um impacto grave na saúde das pessoas, alerta a WaterAid.


O relatório O Impacto das Mudanças Climáticas no Saneamento em Moçambique antecipa-se à Semana Africana do Clima 2022, para a qual ministros africanos, líderes do sector privado, organizações de desenvolvimento, jovens e sociedade civil se reunirão no Gabão, a partir de 29 de Agosto, para discutir o impacto das mudanças climáticas no progresso social. A semana do clima é um marco importante para a COP27, que irá realizar-se no Egipto, em Novembro.


O novo estudo centra-se no fornecimento de serviços de saneamento em todo o país e demonstra que, nos últimos vinte anos, tem havido uma lenta mas constante melhoria no acesso da população ao saneamento ao nível nacional. Contudo, desde 2014, esse progresso tem vindo a inverter-se, pelo menos em parte, devido aos impactos climáticos.


Os valores mostram que o número de pessoas que utilizam “instalações sanitárias melhoradas”, que separam com segurança os seres humanos dos seus resíduos, tinha duplicado para pouco mais de 1 em 4 pessoas (28%), entre 2000 e 2014. Porém, desde então, voltou a cair para menos de 1 em 5 (19%), em grande medida devido, à destruição de infra-estruturas incapazes de resistir a ciclones e inundações mais regulares. (Fonte: Inquérito do Orçamento Familiar)


“Partes de Moçambique, especialmente nas zonas costeiras, têm vindo a retroceder nos seus progressos, e os agregados familiares estão a voltar a utilizar casas de banho inseguras”, disse Robert Kampala, Director Regional da WaterAid na África Austral. “Isso terá efeitos prejudiciais para a sua saúde e, como consequência, para a sua capacidade de frequentar a


escola ou trabalhar. E se isso está a acontecer em Moçambique, está a acontecer noutras áreas de África que também são afectadas por cheias ou ciclones.”


Embora os peritos ainda não consigam prever exactamente qual será o cenário climático para Moçambique, espera-se que o aumento das temperaturas venha a afectar os padrões de pluviosidade. É provável que o país assista a um aumento tanto de inundações como de secas.


Grande parte do país encontra-se na rota dos ciclones tropicais, que provavelmente se intensificarão, e será susceptível aos impactos da subida do nível do mar. As zonas rurais verão também um aumento de fenómenos meteorológicos extremos, com períodos de seca mais longos seguidos de chuvas intensas. (Fonte: Ministério da Economia e Finanças (MEF) – Direcção Nacional de Saúde).


O relatório constata que: “Num país vulnerável como Moçambique, muito menos pessoas morrem por afogamento ou morte violenta durante uma inundação ou ciclone do que aquelas que morrem de doenças transmitidas pela água no rescaldo de uma inundação ou ciclone. Esta [é a consequência da] interrupção do abastecimento de água segura e poluição do abastecimento de água existente pelos vírus e bactérias presentes nos resíduos humanos não tratados.”


Foi o que aconteceu quando o ciclone Idai atingiu a zona costeira em torno da segunda cidade da Beira em 2019, na qual morreram pelo menos 1.300 pessoas. Apenas semanas após o Idai, o ciclone Kenneth atingiu o norte de Moçambique e, no início deste ano, a linha costeira foi fustigada por várias tempestades tropicais.


Luísa João é apenas uma residente da Beira cuja vida foi virada do avesso na altura: “A nossa latrina foi destruída pelo Idai. Era feita de chapas metálicas. Acabámos de encontrar uma forma de juntar a chapa metálica com sacos para resistir às intempéries. Vemos sempre pessoas a receberem tijolos para reparar as latrinas. Mas nós?... nada. Assim, a chuva apenas enche a zona com água, que se mistura com a sujidade e vai para a rua.”


Adam Garley, Director Nacional da WaterAid em Moçambique, disse: “Mais de 65% dos moçambicanos vivem nas zonas rurais, a maioria com menos de 1 dólar americano por dia. (Fonte: Destaques do INE – Instituto Nacional de Estatística). Quando as tempestades danificam as suas casas e edifícios, eles são obrigados a fazer reparações da melhor forma possível, utilizando os materiais mais baratos que são ainda mais vulneráveis a futuros eventos meteorológicos. Isto está a encurralá-los num círculo vicioso de pobreza e doença.”


Mesmo nas zonas urbanas como a capital Maputo, onde o acesso é melhor, o aumento dos eventos de inundações representa riscos de saúde para a população, disse a WaterAid. Existe apenas uma estação de tratamento de resíduos para toda a cidade e há provas de que pelo menos 25% dos resíduos que foram recolhidos em segurança são despejados ilegalmente e acabam por ir parar ao ambiente local durante as cheias, de acordo com o relatório.


Senhor Matlombe, de 78 anos, do bairro de Maxaquene, Maputo, partilha a sua casa de banho ao ar livre com a sua família numerosa, incluindo cinco netos. “Já tivemos um surto durante uma época de cheias, quando choveu durante três dias e as casas de banho com latrinas se encheram de água e as águas sujas resultantes entraram em contacto com o solo e as pessoas. Na semana seguinte, as pessoas queixaram-se de erupções cutâneas,


queimaduras na pele, alguns poços foram contaminados e as pessoas que beberam aquela água acabaram por ter graves problemas de estômago.”


O relatório da WaterAid insta os responsáveis pela tomada de decisões a promoverem sistemas de saneamento resistentes ao clima, com finanças e políticas adequadas, a fim de garantir o acesso sustentável ao saneamento para aqueles que se encontram na linha da frente da crise climática. “À medida que a frequência e a gravidade dos eventos climáticos aumentam, há determinados cenários que são relativamente previsíveis. Ter um plano articulado e orçamentado sobre como responder pode aumentar significativamente as hipóteses de ser dada prioridade ao saneamento e reduzir as consequências dos eventos relacionados com o saneamento, tais como inundações.”

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