Aparente silêncio das armas esconde o drama humanitário que se vive em Cabo Delgado


Depois do ataque devastador do dia 27 de Junho à vila municipal da Mocímboa da Praia, um aparente silêncio voltou a predominar em Cabo Delgado. O silêncio é aparente porque tem havido registo de pequenas incursões dos terroristas, como o recente ataque ao Posto Administrativo de Chai, no distrito de Macomia, que terá destruído o Museu de Chai, um importante monumento sobre a história da Luta de Libertação Nacional. Mas o silêncio aparente não significa o fim do sofrimento de milhares de pessoas afectadas pela violência armada nos distritos do centro e norte de Cabo Delgado. Depois de Quissanga, cujo Governo distrital foi forçado a trabalhar a partir do distrito de Metuge, Mocímboa da Praia está a transformar-se na segunda vila fantasma da província. Desde finais de Junho, milhares de residentes estão abandonar a vila por via rodoviária e marítima para os distritos de Palma, Mueda, Nangade, Montepuez, Metuge e para a Cidade de Pemba. Devido à chegada massiva de deslocados, o Governo distrital de Nangade teve que “improvisar” um pequeno centro de acomodação, numa escola primária local. Nampula e Niassa, duas províncias que fazem limite com Cabo Delgado, também estão a receber milhares de pessoas que fogem do clima de insegurança que vive nas suas zonas de origem. Um dos grandes problemas que os deslocados enfrentam nos seus destinos é a falta de assistência humanitária: falta-lhes quase tudo, desde abrigo, comida e roupas. Em Pemba, há casas que chegam a acolher 40 pessoas, situação aumenta o risco de propagação da covid-19 numa cidade que já foi declarada área de transmissão comunitária da doença. Enquanto as famílias procuram refúgio em locais relativamente seguros, alguns Governos dos distritos afectados pelos ataques terrorista estão a mobilizar os funcionários a apresentarem-se nos seus postos de trabalho, alegando que a segurança já foi reposta. Ora, este foi o mesmo argumento usado pelas autoridades da Mocímboa da Praia para solicitar a apresentação dos funcionários e agentes de Estado, depois do segundo ataque contra a vila, ocorrido em finais de Março. Três meses depois de aparente tranquilidade, a vila voltou a sofrer o terceiro e o mais mortífero e devastador ataque terrorista, que deixou todas as instituições púbicas destruídas, incluindo a sede do Governo distrital e do município. Desta vez é o Governo do Distrito de Muidumbe, cuja vila sede distrital e várias aldeias foram alvo de ataques entre finais de Março e princípios de Abril, que parece disposto a repetir o erro. Através de uma nota de 13 de Julho, as autoridades solicitam que todos os funcionários afectos ao Serviço Distrital de Educação, Juventude e Tecnologia (chefes de repartição, membros de direcção de escolas, professores, pessoal técnico e de apoio) se apresentem nos seus locais de trabalho até 20 de Julho. O Governo de Muidumbe diz que já há segurança no distrito e fala mesmo do arranque das obras de reconstrução das infra-estruturas destruídas no dia 7 de Abril. Já na Cidade de Pemba, a Direcção Provincial de Educação e Desenvolvimento Humano está a promover reuniões com professores e técnicos do sector que se encontram refugiados na capital de Cabo Delgado. Hoje, quinta-feira, a Direcção da Educação reúne com professores e técnicos dos distritos de Quissanga, depois de ter mantido encontros com os funcionários de Muidumbe e Macomia, na quarta-feira, e de Mocímboa da Praia, na terça-feira. O Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD) apurou que as autoridades da Educação querem reafectar os professores e técnicos nas escolas onde haverá retoma das aulas a partir do dia 27 de Julho. Enquanto isso, as Forças de Defesa e Segurança (FDS) terão capturado, em plena Cidade de Pemba, 15 homens que se supõe serem integrantes do grupo terrorista que actua no centro e norte de Cabo Delgado. Os suspeitos entraram na cidade usando a via marítima e tinham como missão fazer o reconhecimento e recolha de informações estratégicas. As FDS suspeitam que, entre os milhares de deslocados que estão em Pemba e Metuge, estejam infiltrados alguns insurgentes que recolhem informações para o grupo terrorista. Quando os terroristas assaltaram sucessivamente as vilas de Mocímboa da Praia, Quissanga e Namacande (Muidumbe), entre finais de Março e princípios de Abril, a baía de Pemba chegou a ser considerado como sendo um dos próximos alvos do grupo, o que elevou os níveis de alerta e obrigou a um recolher obrigatório entre às 19H00 e 05H00. A situação aumentou a violência policial contra os residentes locais, sobretudo do bairro Paquitequete, local de desembarque dos deslocados que chegam à cidade pela via marítima. (Centro para Democracia e Desenvolvimento)

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