Antigo bispo católico de Pemba diz ter sido ameaçado de morte pelo Governo de Moçambique



Luíz Fernando Lisboa resume a situação em Cabo Delegado em "recursos, multinacionais e guerras" e garante que não é uma guerra religiosa, mas económica


O antigo bispo católico de Pemba, Dom Luiz Fernando Lisboa, acusa o Governo de Moçambique de o ter ameaçado de expulsão, apreensão de documentos e de morte por ter falado sobre a guerra em Cabo Delgado, quando o Executivo de Maputo preferiu calar todas as vozes que abordavam os ataques contra aquela província desde Outubro de 2017. Em entrevista ao jornal italiano La Republica, na sua edição de domingo, 11, o antigo bispo lembra que o Governo negou a guerra desde o início e quando o conflito e o perigo se tornaram evidentes, ele proibiu que se falasse sobre o assunto.

“Impediu que os jornalistas fizessem seu trabalho. Um repórter está desaparecido desde Abril do ano passado. Ele trabalhava para uma rádio comunitária e falava sobre a guerra. Na sua última mensagem, disse que havia sido cercado pela polícia. A Igreja era a única que falava sobre a situação. E isso não agradava ao Governo. Acima de tudo, não tolerava que saíssem notícias sobre o Estado” acrescenta Luiz Fernando Lisboa, quem classifica esse posicionamento de Maputo de “orgulho nacional, negócios”.

Na entrevista à jornalista Raffaella Scuderi, traduzida para o português pelo Instituto Humanitas Unisinos, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, o bispo destaca que “quando há um ano a Conferência Episcopal condenou o que estava a acontecer num documento, as autoridades reagiram mal, começando a jogar lama sobre mim”.

“Recebi primeiro ameaças de expulsão, depois de apreensão de documentos e no final de morte”, assegura Luiz Fernando Lisboa, quem foi convencido pelo Papa Francisco a sair de Moçambique e a regressar à sua terra natal, o Brasil.

Na altura, ele diz ter apelado ao Governo para que pedisse ajuda à comunidade internacional porque sozinho ele não pode fazer frente a isso.


Multinacionais não tratam o povo bem


“O nosso apelo chegou ao Parlamento Europeu e duas comissões pediram-me para expor a situação”, lembra o bispo, que resume as causas da situação em Cabo Delgado a três coisas que, segundo ele, “sempre estão juntas: recursos, multinacionais e guerras”.

Na entrevista ele alerta ainda que a situação piora rapidamente, “há muita gente nas matas, há muitos idosos, crianças e pessoas que não sabem como sobreviver.

“Disseram-me que os helicópteros contratados lançaram bombas atingindo terroristas, mas também civis”, afirma Luiz Fernando Lisboa, para quem “a relação das multinacionais com a região não é boa.

“A maneira como essas grandes empresas actuam não é boa. Existem leis que orientam sobre como realizar os passos: consultas com a população, participação na discussão, mas eles não fazem. E a população tem que deixar as suas terras. Isso cria descontentamento”, sublinha o antigo bispo de Pemba que viveu 20 anos em Moçambique.

Questionado se a guerra é religiosa, Luiz Fernando Lisboa é peremptório em afirmar que os extremistas usam o nome do Estado Islâmico, mas não é uma guerra religiosa.

“Se fosse, eles teriam nos atacado. Mas eles atacam a todos e destroem tanto igrejas como mesquitas. Eles matam líderes cristãos e muçulmanos. Esta é uma guerra económica pela apropriação dos recursos naturais: gás líquido, ouro, rubis, pedras semi-preciosas. No momento, existem mais de 700 mil pessoas deslocadas e mais de dois mil mortos”, conclui o antigo bispo de Pemba.

Em Fevereiro, ele foi transferido para a diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim, no Estado do Espírito Santo (VoA)

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