Aida e Omar entre 125 mil painéis da maior central solar de Moçambique

Omar Mussá, 29 anos, pega num dos 125.000 painéis da central solar de Metoro, norte de Moçambique, em cuja construção trabalha há dois meses e meio


© Reuters


"Não, não é tão pesado assim", diz, enquanto estica os braços e testa o equilíbrio da peça extensa, até porque o trabalho é feito em equipa.


Quem pega do outro lado é Aida João Mueleia, 28 anos, e ambos coordenam movimentos para colocar o painel no sítio, na oitava de centenas de filas de painéis a instalar na central.

Hoje instala-se a oitava fila, mas até janeiro vão estar centenas montadas com cerca de 125.000 painéis para a central começar a trabalhar e a produzir eletricidade na província de Cabo Delgado.


A central terá uma capacidade de 41 megawatt (MW), a maior do país, capaz de injetar 69 gigawatts/hora por ano na rede da Eletricidade de Moçambique (EDM), suficiente para cerca de 75% da população de Pemba, capital provincial, que conta cm 200.000 habitantes.

A covid-19 fechou fábricas na China, origem dos painéis solares, e isso fez com que o projeto se atrasasse, senão já estaria pronto, explica Dinis Vilanculos, representante da empresa francesa Neon - parceira da Eletricidade de Moçambique no projeto avaliado em 47,3 milhões de euros.


"Vai ser possível assegurar uma alternativa no fornecimento a Cabo Delgado", disse o ministro dos Recursos Minerais e Energia, Max Tonela, durante uma visita à obra na sexta-feira, numa altura em que a província depende de uma única fonte, a barragem de Cahora Bassa.

Há 426 pessoas contratadas diretamente pela central de Metoro durante a fase de construção, como Aida e Omar - durante a operação serão apenas 32.

Aida é natural do vizinho distrito de Chiure e encontrou nas obras da central o seu primeiro emprego, precioso para o rendimento familiar, diz.


"Não é um trabalho difícil", diz, seguindo o plano de tarefas da equipa a que pertence numa das encostas do parque solar - na outra encosta ainda se perfura o chão e instalam-se cablagens e suportes para os milhares de painéis.

Oportunidades de emprego são raras na província e o objetivo é que a energia ajude a multiplicá-las, diz Max Tonela.


O objetivo do Governo é instalar 600 MW de fontes de eletricidade até final de 2024 em todo o país, cerca de um terço dos quais com origem em fontes renováveis.

Metoro será a segunda central solar de grande dimensão a entrar em funcionamento no país, depois de já estar em operação a central de Mocuba (centro) e com outra em Cuamba (norte) em construção.


Para 2022 está previsto o arranque das obras de mais parques solares, um em Cabo Delgado, junto à costa, em Mecufi, e outro no centro do país, no Dondo, junto à cidade da Beira.

São acionistas da central em construção em Metoro a francesa Neoen (75%) e a Eletricidade de Moçambique (25%), sendo que o financiamento do projeto é prestado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), com um empréstimo de 40 milhões de dólares (34 milhões de euros), e o remanescente pelo Governo moçambicano.


Após 25 anos, a infraestrutura passa para a Eletricidade de Moçambique.

Metoro fica na província aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico - embora a insurgência afete o norte da província, enquanto Metoro fica no sul.


O conflito já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, segundo as autoridades moçambicanas.

Desde julho, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda permitiu aumentar a segurança, recuperando várias zonas onde havia presença de rebeldes, nomeadamente a vila de Mocímboa da Praia, que estava ocupada desde agosto de 2020.

A Lusa viajou a Cabo Delgado a convite do Governo de Moçambique. (NM)

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