Afinal, quem controla o estratégico Porto da Mocímboa da Praia?


Localizada na costa norte de Cabo Delgado, a vila municipal da Mocímboa da Praia era o mais importante centro urbano da província, depois da capital Pemba. Atravessada pela Estrada Nacional Nº 380 (EN 380) que liga a turística baía de Pemba e a “capital” do gás (Palma), e servida por um aeródromo com capacidade para receber voos internacionais e por um porto, Mocímboa da Praia era a plataforma giratória que dinamizava os distritos do norte de Cabo Delgado.

Era ali onde os trabalhadores das petrolíferas que operam na bacia do Rovuma faziam a escala ou trocavam o avião pelo helicóptero ou mesmo pelo carro e seguiam para o “el dorado” de Palma. Era ali onde os distritos vizinhos se abasteciam com todo o tipo de produtos e bens. Com o relançamento da cabotagem, Mocímboa da Praia seria paragem obrigatória dos navios que ligam Pemba e Palma (península de Afungi). Mas desde a madrugada de 12 de Agosto de 2020 a vila deixou de ser aquela paragem obrigatória para quem viaja pela EN 380. Foi naquela madrugada que um grupo de terroristas tomou de assalto o Porto da Mocímboa da Praia, até então último reduto das Forças de Defesa e Segurança (FDS) naquela vila municipal. O assalto ocorreu depois de intensos confrontos entre os fuzileiros da Marinha de Guerra e os terroristas, que já tinham protagonizado ataques em outros pontos da vila. O apoio aéreo solicitado aos mercenários do DAG foi ineficaz para neutralizar o assalto. Após a tomada do Porto, os insurgentes passaram a controlar toda a vila, situação que precipitou a fuga das autoridades do Estado e dos residentes locais que ainda continuavam na vila depois do ataque de Março de 2020. Mocímboa da Praia virou uma vila fantasma, pilhada e destruída. A insegurança tomou conta da região e a EN380 foi fechada ao trânsito em toda a extensão que atravessa Mocímboa da Praia. A via alternativa de terra batida que parte de Mueda, passa pelo distrito de Nangade e entra em Palma através do Posto Administrativo de Pundanhar, também não oferece segurança. Na terça-feira, por exemplo, três pessoas morreram quando os insurgentes atacaram uma viatura de passageiros e mercadoria, em Pundanhar. Três dias antes, um outro ataque contra viaturas de passageiros e de mercadoria em Pundanhar tinha feito seis vítimas mortais e avultados danos matérias.1 Depois de um longo período de silêncio, o Ministro da Defesa Nacional, Jaime Neto, anunciou, na primeira semana deste ano, que a Marinha de Guerra tinha recuperado o Porto de Mocímboa da Praia. “O Porto da Mocímboa da Praia não continua com o inimigo. Eles andam no distrito (vila), sim, um e outro, e se calhar promovem as suas actividades lá, mas a Marinha de Guerra fortificou o seu trabalho de fiscalização”. 2 Apesar do anúncio, o facto é que as FDS ainda não mostraram evidências da recuperação daquela importante infra-estrutura. Quando em Novembro do ano passado as FDS recuperaram a sede do Distrito de Muidumbe, o Comandante-geral da Polícia fez questão de ir anunciar, a partir do “teatro das operações”, que Namacande já não estava nas mãos dos insurgentes. Seria interessante que Bernardino Rafael fizesse o mesmo exercício em Mocímboa da Praia para sanar, de uma vez por todas, as dúvidas que pairam no ar sobre quem, efectivamente, controla a vila e o porto local. Aliás, há meses que circulam informações dando conta de que o Porto de Mocímboa da Praia está a ser usado para facilitar as operações de tráfico de drogas que entra em Moçambique a partir de Cabo Delgado. Com a intensificação das incursões dos insurgentes, a fiscalização na costa de Cabo Delgado praticamente deixou de existir, o que abre espaço para o trânsito livre de droga produzida no Paquistão e Afeganistão. Moçambique é praticamente um corredor, pois a droga segue por via rodoviária até África do Sul, de onde parte para os destinos de consumo, nomeadamente a Europa e os Estados Unidos da América. Vezes sem conta, as autoridades sul-africanas realizaram apreensões na sua fronteira, depois da droga ter passado pelo posto fronteiriço de Ressano Garcia, em Maputo. Uma das apreensões de vulto foi registada em Maio de 2019, quando três moçambicanos foram detidos, na estrada N4 em Kaapmuiden, perto de Nelspruit, capital de Mpumalangana, na posse de heroína avaliada em 60 milhões de rands, cerca de quatro milhões de dólares norte-americanos. Em Junho do ano passado, dois camionistas moçambicanos que atravessaram a fronteira de Ressano Garcia foram interceptados do lado sul-africano com mais de 200 quilogramas de heroína.


Comando Operacional devia estar na Mocímboa da Praia


Alguns oficias das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) defendem a ideia de que o Posto do Comando Operacional Norte deveria ter sido instalado na vila da Mocímboa da Praia e não em Mueda. O primeiro argumento é a localização estratégica da Mocímboa da Praia: está na principal estrada que liga Pemba e Palma, e fica a menos de 100 quilómetros de Afungi, o centro das operações petrolíferas. O segundo argumento está ligado às infra-estruturas de apoio às operações das FDS: Mocímboa da Praia tem um porto que poderia facilitar as operações da Marinha de Guerra, tanto para a fiscalização costeira como para o combate em mar; o Aeródromo local seria fundamental para as operações aéreas da Força Área ou da empresa de mercenários DAG. As potencialidades que as duas infra-estruturas (porto e aeródromo) oferecem nunca foram exploradas pelas FDS para o combate ao extremismo islâmico. Antes do ataque de Março de 2020, as petrolíferas que exploram gás na bacia do Rovuma estavam a usar o aeródromo da Mocímboa da Praia para facilitar as suas operações, sobretudo para o transporte de carga e de trabalhadores. Algumas multinacionais já tinham manifestado interesse para explorar o Porto da Mocímboa da Praia, sobretudo na fase de construção da fábrica de LNG. Mocímboa fica a poucas milhas de Afungi e tinha essa vantagem em relação a Pemba, cujo porto serve agora as operações das empresas petrolíferas que não podem seguir via rodoviária (EN 380) devido à insegurança. Apesar disso tudo, as elites dirigentes das FDS preferiram instalar o Posto do Comando Operacional Norte no planalto de Mueda, a cerca de 100 quilómetros da Mocímboa da Praia. Além de estar distante do mar (uma das portas de entrada dos insurgentes estrangeiros e do abastecimento), Mueda não oferece facilidades para as multinacionais que operam em Afungi. Por isso, alguns oficiais das FADM questionam a escolha de Mueda para servir de centro das operações militares contra o extremismo violento. E há quem defende a ideia de que o Posto do Comando Operacional Norte foi instalado em Mueda por ser a terra natal do Presidente da República e do Comandante-geral da Polícia. Aliás, Bernardino Rafael foi por muito tempo o homem forte do Posto do Comando Operacional Norte, mas agora partilha o poder com Eugénio Mussa, recentemente promovido para Chefe de Estado-Maior General das FADM. Quando as FDS recuperarem de facto a vila da Mocímboa da Praia e todas as infra-estruturas, será que o General do Exército Eugénio Mussa irá transferir o Comando Operacional de Mueda para Mocímboa da Praia? (Centro para Democracia e Desenvolvimento)

1,240 visualizações0 comentário

Subscreva a nossa Newsletter

  • facebook

Ficha técnica

Director Editorial: Luís Nhachote (+258 84 4703860)

Editor: Estacios Valoi 

Redaçao: Germano de Sousa, Palmira Zunguze e Nazira Suleimane

Publicidade: Jordão José Cossa (84 53 63 773) email jordaocossa63@gmail.com

 

NUIT: 100045624

Nr. 149 GABIFO/DEPC/2017/ MAPUTO,18 de Outubro  

Endereço Av. Cardeal Don Alexandre dos Santos 56 (em Obras)

© By BEEI