A UA deve agir contra a ameaça real do Estado Islâmico (IS) em Moçambique


A África do Sul que detém a presidencia da União Africana (UA) tinha como agenda o silenciar de das armas até o final deste ano, mas com a eclosão da pandemia de Covid-19, náo parece que seja viável.

É verdade que para muitos pontos de ebulição no continente, com a excepção no Sahel, partes da África Ocidental onde IS continua activa, tem ligações com os insurgentes, no norte de Moçambique vai aumentando.

No mês passado, a liderança do Estado Islâmico instruiu os combatentes a aumentar os ataques após o surto de Covid-19, dizendo que os países ocidentais desviariam a atenção do terrorismo para a luta contra a pandemia. Como resultado, no mês passado houve um aumento de ataques na África Ocidental, Saara e Moçambique.

Este último foi um desafio particular, uma vez que a escalada e intensidade dos ataques no norte de Moçambique preocuparam o governo numa altura em que falta recursos para combater o Covid-19, e a situação representa um sério perigo para a região da SADC. A Organização Mundial de Saúde estima que apenas 36% dos moçambicanos tem para que acesso a um posto de saúde num raio de distancia de 30 minutos das suas casas, e existem apenas 24 ventiladores em todo o país. Moçambique já pediu aos seus parceiros $700 milhões para combater o Covid-19.

Durante os primeiros dois anos do conflito, não ficou claro se os insurgentes islâmicos no norte de Moçambique estavam de facto ligados ao (IS) ou apenas aos clérigos muçulmanos extremistas na Tanzânia e na Somália. Mas, mais recentemente, o número de combatentes no norte de Moçambique aumentou exponencialmente, passando de células de cerca de 10 para mais de 100, com ataques coordenados há infra-estruturas governamental e civil, onde começaram a hastear a bandeira preta do IS e o grupo do Estado Islâmico da Província Central da Africa (ISCAP) que assumiu a responsabilidade por mais de 30 ataques.

A ideia de que grupos ligados ao IS poderiam estar a ganhar uma posição real no sul da África é algo que requer nossa atenção urgente. Até à data, a SADC não fez nenhum comentário sobre a insurgência e, embora o Conselho de Paz e Segurança da UA tenha manifestado preocupação na Cimeira da UA em Fevereiro, não está claro como exactamente ajudou Moçambique a combater esta nova ameaça.

Por enquanto, parece que Moçambique está por conta própria, mas claramente incapaz de derrotar as forças islâmicas que agora mudaram de táctica, passando de decapitações e terror para uma campanha de conquista dos corações e as mentes do povo. Tem sido tanto quanto bem-sucedido nesse sentido, pois toma sob seu controle os bancos e supermercados locais, distribui dinheiro e comida para as pessoas locais, que aplaudiram essas tácticas.

Em 23 de Março, os insurgentes realizaram a sua maior operação militar de insurgência em 30 meses. Eles realizaram um ataque bem-sucedido por terra e por mar na cidade portuária estratégica de Mocímboa da Praia, a 60 km ao sul das instalações de gás líquido em construção na península de Afungi. Os insurgentes destruíram barcaças que as empresas de petróleo e gás vem usando para descarregamento de equipamentos no porto para a construção das instalações de gás.

Depois da tomada de Mocímboa, os insurgentes assumiram controle de uma base militar e capturaram equipamento militar para dois batalhões, além de barcos e patrulhas militares. Destruíram o aeroporto, roubaram três bancos, destruíram as instalações portuárias e os prédios do governo, libertaram prisioneiros da prisão, adoptando amplamente o modus operandi dos extremistas islâmicos que operam na África Ocidental e no Sahel.

Uma vez que os insurgentes conseguem isolar fisicamente a população nas áreas sob seu controle, destruindo pontes, estradas e tomando bases militares, policiais, sua intenção é a implementação da lei da Sharia com força brutal.

Será mais difícil derrotá-los militarmente a’ medida que vão adquirindo novos armamentos significativos e expandem suas redes financeiras através do comércio ilícito de madeira, rubis, marfim e carvão na Tanzânia.

Desesperado, o governo de Moçambique inicialmente contou com a assistência do grupo Russo- Wagner, uma das maiores empresas militares privadas do mundo. Mas o grupo tem sido ineficaz em esmagar a insurgência, vários soldados russos foram decapitados pelos insurgentes em uma emboscada e alguns mortos a tiros em uma base militar. Foi relatado que o Grupo Wagner entrou em Moçambique em Novembro, contratado pelo governo, mas acredita-se que eles tenham fracassado em sua missão.

Actualmente o governo de Moçambique vem usando o Dyck Advisory Group (DAG), com sede na África do Sul, para lançar ataques aos insurgentes. Alega-se que o DAG foi contratado por quatro semanas e com uma grupo de cerca de 100 mercenários para ajudar o governo moçambicano. DAG é propriedade de um ex-coronel militar do Zimbábue Lionel Dyck, que ajudou a Frelimo a derrotar a Renamo na década de 1980 e também trabalhou com Emmerson Mnangagwa e Zanu-PF no processo da campanha de Matabeleland no início dos anos 80, que resultou em massacres generalizados.

Recentemente o DAG voou em três helicópteros para Pemba- Cabo Delgado, na costa norte de Moçambique, dois dos quais estão registrados na África do Sul. Um dos helicópteros está supostamente registrado para um ex-membro da Executive Outcomes Cobus Claasens, que é agora o chefe da Pilgrims Africa. Foi relatado que Dyck foi contratado por Erik Prince, fundador do infame Blackwater and Frontier Services Group, para levar os helicópteros para Moçambique. Prince é apontado como conselheiro não oficial do governo Trump e é irmão da secretária de Educação de Trump, Betsy De Vos.

Na semana passada, foi relatado que os ataques realizados pela DAG tiveram lugar a 8 de Abril último, em que helicópteros atingiram as bases de insurgentes usando canhões leves instalados na aeronave.

Lionel Dyck, chefe do DAG, é um residente permanente da África do Sul, e foi relatado que nenhuma permissão foi recebida do Comité da Convenção Nacional da África do Sul para o Controle de Armas para envolvimento de seu grupo em Moçambique. Se esse fosse o caso, estaria em violação directa da Lei de Proibição de Actividades Mercenárias e Regulamento de Certas Actividades nos Países de Conflitos Armados de 2006. O objectivo da Lei é proibir a actividade mercenária e regular a prestação de assistência ou serviço de natureza militar ou militar em um país de conflito armado e regular o alistamento de cidadãos sul-africanos ou residentes permanentes em outras forças armadas.

Se os mercenários do DAG deixaram a África do Sul ilegalmente, é uma questão que não deve ser varrida para debaixo do tapete. De acordo com a nossa lei, deve ser objecto de processo. Mas uma ressalva importante é que não podemos permitir que a insurgência prolifere inabalável no norte de Moçambique, e a UA tem a responsabilidade de alocar uma força de prontidão para enfrentar o grupo militarmente.

Se a arquitectura de paz e segurança da UA não entrar em acção e enfrentar o desafio dos insurgentes islâmicos em Moçambique, que o governo não conseguiu neutralizar por dois anos e meio, estabelecerá um perigoso precedente para os governos democráticos que dependem de mercenários para fazer seu trabalho de contra terrorismo a seu favor. Esses mercenários são os fantasmas do passado do apartheid e estão a operar livremente, sem prestar contas a ninguém por seus excessos ou violações dos direitos humanos. Está na hora de serem controlados.


Shannon Ebrahim é editora Internacional da Independent Media.

https://www.iol.co.za/news/opinion/the-au-must-act-against-mozambiques-very-real-is-threat-46895025

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