A necropolitica; a psicopolitica e a biopolitica para enxergar o Fenomeno Cabo Delgado


A NECROPOLÍTICA; A PSICOPOLÍTICA E A BIOPOLÍTICA COMO LENTES PARA ENXERGAR O FENÔMENO CABO DELGADO: um discurso entre o realístico e o normativo.


O cruzamento entre a Necropolítica de Achille Mbembe; Biopolítica de Michel Foucault e Psicopolítica de Byung Chul Han é suficiente para obter lentes que permitem ler o actual cenário de Cabo Delgado, em dois prismas: realístico e normativo.


Tenho comigo que quando se nega a humanidade do outro qualquer violência torna-se possível de agressões que resvalam à morte. É óbvio que a negação da humanidade pode ser objecto de uma hermenêutica que reúna escassos consensos entretanto a minha interpretação sobre o fenômeno de Cabo Delgado está alicerçada às lentes construídas pelo camaronês Achille Mbembe no seu paradigma Necropolítica e o sul-coreano Byung Chul Han. A Biopolítica do francês Michel Foucault é trazida apenas para sustentar a parte normativa (o que é suposto ou minimamente ideal) deste artigo. Neste arcabouço teórico, a Necropolítica de Mbembe refere-se à um Estado que é soberano quando decide sobre a vida e a morte de seus cidadãos. Nesse estado fala-se muito em soberania sem que haja, de facto, o lato sentido soberano. Por exemplo, o estado moçambicano pode arvorar-se soberano face à retirada de uma comunidade de um local para fixar assentamentos humanos em outro lugar mas não fala de soberania em relação aos Estados Unidos e seus desmandos face à sua ingerência. Não fala em soberania face à actuação das entidades externas internacionais que lideram o processo de exploração mineira em Palma, tão pouco as questiona. Para Achille Mbembe, a soberania aqui propalada refere-se ao poder que o estado tem de decidir a morte. É assim como a Necropolítica é abordada por este teórico, como uma forma de os Estados exercerem a soberania pela decisão de escolher quem deve morrer e quem deve viver na sociedade.


A psicopolítica de Chul Han é um importante dispositivo referente à organização econômica que podemos denominar neoliberalismo. Actua sobre um campo fictício de igualdade e requer a todo momento diferenciação competitiva dos indivíduos. Lembremo-nos que no regime disciplinar liberal clássico visava ao corpo entretanto o neoliberalismo visa à psique, daí a readequação por parte do poder em buscar mais eficiência que se resume em psicopoder. Aqui ressalte-se que o psicopoder espevita a autoexploração - A liberdade do capital se realiza pela liberdade individual ou seja a liberdade individual é uma servidão na medida em que é tomada pelo capital para sua própria multiplicação. Aqui a limitação de Byung Chul Han reside na ausência de uma abordagem que estabelece um paralelismo entre as características sob ponto vista cultural e a facilidade ou dificuldade da implementação da PSICOPOLÍTICA. Sobre isso vale a pena referir-se às características culturais, sob o ponto de vista do histórico das convulsões sociais ou emersão de conflitos cuja guerra é parte integrante, do Sul e Norte de Moçambique. A Psicopolítica encontra comodidade no Sul de Moçambique se considerarmos que a liberdade é aparente e tal aparência manifesta-se apenas no ciberespaço e nunca no pragmatismo. Embora a ciber expressão seja aberta para todos, do Rovuma ao Maputo, no sul tornou-se materializável a ideia de uma manifestação iniciada no ciberespaço. O mesmo não sucede no norte de Moçambique que é donde emergiu a luta de libertação nacional ao ponto da paternidade de combatente ter sido implicitamente atribuída à esta classe.


Michel Foucault utiliza o termo Biopolítica para designar a forma na qual o poder tende a se modificar no final do século XIX e início do século XX. Antes as práticas disciplinares visavam governar o indivíduo. Hoje, com a a Biopolítica o alvo é o conjunto dos indivíduos (a população). Para Foucault a Biopolítica é a prática de biopoderes locais cujo alvo é a população que simultaneamente configura o instrumento do poder. Aqui o governo usa tal instrumento (população) para atender às necessidades e desejos dessa mesma população. Ora, até aqui, sob o ponto de vista normativo isso não é, quanto a mim, problemático senão ideal. Neste prisma a Biopolítica é uma alternativa à governação de Moçambique, embora não se possa assumir como sublime. Se o biopoder ocupa-se da gestão da saúde, da higiene, da alimentação, da sexualidade, da natalidade, dos costumes - literalmente ausentes em Cabo Delgado e parcialmente presentes no sul; Se a biopolítica contrasta com modelos tradicionais de poder baseados na ameaça de morte - literalmente presentes em Cabo Delgado e parcialmente no sul;

Se o Biopoder permite o controle da população inteira, num contexto em que tal poder deve ser justificado racionalmente (ausentes em quase todo o território nacional), é justo que tenhamos a BIOPOLÍTICA como alternativa à Necropolítica e Psicopolitica que hoje caracterizam Moçambique sob vários prismas, alguns supracitados.


Portanto


O fenômeno Cabo Delgado pode ter inúmeras interpretações à luz de várias lentes e dados realísticos entretanto a Necropolítica e Psicopolitica, centradas na ameaça de morte e pseudo liberdade, constituem a visão realística pois estão lá presentes e a Biopolítica é a visão normativa pois seria uma alternativa à estas duas primeiras “bombas” destruidoras que nos foram elucidadas por Achille Mbembe e Byung Chul Hun. Seria a grande medicina social capaz de cicatrizar as úlceras sociais ainda que prevalecessem os hematomas.


Circle Langa

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