A guerra silenciosa e silenciada que deixa milhares de pessoas desesperadas


L onge dos holofotes dos media, o terror espalha-se em Cabo Delgado a cada dia que passa. Os ataques armados que começaram na madrugada de 5 de Outubro de 2017 em Mocímboa da Praia já atingiram 9 distritos do centro e norte da província. Depois de atacar o posto administrativo de Bilibiza, no distrito costeiro de Quissanga, os “insurgentes” reduziram para cerca de 120 quilómetros a distância para alcançar Pemba, a capital de Cabo Delgado. Enquanto o país vive assustado e confinado devido à pandemia do Covid-19, nos distritos do centro e norte de Cabo Delgado o susto e o confinamento impostos pelos “insurgentes” duram há dois anos e não há fim à vista. Aliás, mesmo com o novo Coronavírus que “paralisou” o mundo inteiro, os “insurgentes” não dão tréguas e continuam a atacar as comunidades do centro e norte de Cabo Delgado. A situação aumenta a vulnerabilidade das pessoas deslocadas em relação ao Covid-19, pois os serviços de saúde praticamente deixaram de existir. Em quase toda a província, nenhuma autoridade de Estado aceita falar abertamente sobre a guerra silenciosa que já causou cerca de 500 mortos, entre civis e elementos das Forças de Defesa e Segurança (FDS). “Não temos autorização para falar sobre esse problema. É melhor contactar Maputo”, é a resposta mais recorrente dos dirigentes da província. Mas as informações que Maputo solta de quando em vez não espelham o drama que se vive no terreno. Há uma semana, Filipe Nyusi voltou a voar de Maputo para Pemba e de lá para o planalto de Mueda, onde está o quartel militar que coordena as operações conjuntas das FDS. “Ele sempre vai para lá. Muitas vezes só desce no Aeroporto de Pemba para fazer a ligação para Mueda”, conta um trabalhador aeroportuário que testemunhou a passagem do Presidente da República na sexta-feira, 13 de Março. Nas suas idas à Mueda, Nyusi é acompanhado pelos órgãos de informação do sector público, nomeadamente a TVM e a RM. Já na segunda-feira, o Comandante-geral da Polícia, Bernardino Rafael, “voou” de Pemba para a vila de Mocímboa da Praia com um grupo de jornalistas de órgãos públicos e privados, depois de ter mantido um encontro com a imprensa na noite de sábado. Um jornalista contactado pelo CDD descreveu um ambiente aparentemente calmo e de poucas pessoas nas ruas da vila da Mocímboa da Praia, em tempos um entreposto comercial de referência. “Não houve tempo nem espaço para entrevistar os residentes locais. Foi tudo às pressas. Só temos discursos oficiais”, contou. E os relatos oficiais sempre procuram mostrar que a situação está sob controlo, mesmo perante o grito de socorro de milhares de pessoas desesperadas. Os únicos dados oficiais que descrevem o drama económico e social causado pelos ataques armados constam do “Informe sobre o impacto da acção dos malfeitores nas zonas norte e centro de Cabo Delgado”, único documento do Governo que “vazou” para o público nos primeiros dias de Fevereiro. No informe, as autoridades reportavam 154.609 pessoas afectadas nos nove distritos: Palma, Nangade, Mocímboa da Praia, Muidumbe, Macomia, Mueda, Meluco, Ibo e Quissanga. Os distritos mais afectados são Macomia, Quissanga e Mocímboa da Praia, todos localizados no litoral da província. As pessoas afectadas correspondem a 32.126 famílias e a maioria viu as suas casas queimadas pelos atacantes. Nas contas do Governo, os “insurgentes” vandalizaram 76 escolas, afectando 21.280 alunos e 349 professores. Há ainda o registo de vandalização do Instituto Agrário de Bilibiza, instituição de ensino técnico-profissional gerida pela Fundação Aga Khan e que tinha cerca de 400 alunos; e a vandalização da Escola de Formação de Professores do Futuro - ADPP. As comunidades afectadas pelos ataques dependiam da agricultura de subsistência e da pesca artesanal, mas foram forçadas a abandonar a zona costeira e as plantações devido à insegurança. Até Janeiro, as autoridades contabilizavam 14 mil famílias que tinham abandonado os campos de produção e 1.981 pescadores que tinham fugido do litoral. Na saúde, dados oficiais apontam para cinco centros vandalizados. Curiosamente, o documento do Governo não menciona o número de vítimas mortais nem de pessoas feridas. Uma estratégia para ocultar a imparável “carnificina” de civis e agentes das FDS. E mais: quem acompanha de perto a situação não tem dúvidas de que o número de pessoas afectadas e de casas e infra-estruturas destruídas ultrapassa de longe as contas oficiais. (Centro para Democracia e Desenvolvimento)

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