13 milhões de pessoas terão de enfrentar a pandemia da Covid-19 sem terem onde lavar as mãos


13 milhões de pessoas terão de enfrentar a pandemia da Covid-19 sem terem onde lavar as mãos


As pessoas mais pobres do mundo estão a ser deixadas a enfrentar, sozinhas, a pandemia da Covid-19 sem, no mínimo, ter acesso ao meio de defesa mais básico contra a doença - água limpa e uma barra de sabão.

À escassos dias da Assembleia Mundial da Saúde, que se realiza na Segunda-feira, 18 de Maio, a WaterAid Moçambique apela o Ministério da Saúde a fazer da higiene uma parte fundamental do plano do nosso país para responder à pandemia do coronavírus.

Em Moçambique, 46% das pessoas não têm acesso à água e, por isso, não podem lavar as mãos com água e sabão, apesar de esta ser uma das únicas formas de evitar a propagação da doença mortal.

A lavagem das mãos é um dos métodos disponíveis mais eficazes para a prevenção de doenças. Dados existentes sugerem que pode reduzir os casos de pneumonia em 50%, as infecções respiratórias agudas em 16-23% e o risco de diarreia endémica em 40%.

Os centros de saúde correm o risco de se tornarem os epicentros da doença, colocando em risco a vida de médicos, enfermeiros e parteiras que trabalham arduamente para salvar os utentes das unidades de saúde. Dois em cada cinco centros de saúde em todo o mundo não têm onde lavar as mãos com água e sabão onde tratam os doentes. Em Moçambique, não existem dados exactos sobre a percentagem de centros de saúde com ou sem acesso a serviços básicos de água / higiene, mas no entanto, há indicações de que a situação não é das melhores.

Antes da mais importante reunião global de saúde, a WaterAid está a instar os ministros da saúde de vários países a protegerem as vidas das populações e dos profissionais de saúde e a fornecerem sabão e água limpa a todos para ajudar a mantê-los em segurança.

Actualmente, não existem tratamentos ou vacinas aprovadas para a Covid-19 e todos dependem de uma boa higiene para a prevenção e controlo das infecções para, assim, impedir a sua propagação. Embora as vacinas e a terapêutica sejam urgentemente necessárias, todos os dias são postas em risco vidas, porque os próprios princípios básicos da prevenção de doenças estão a ser ignorados. No ano passado, os ministros da saúde de todo o mundo comprometeram-se a garantir a disponibilidade de água potável em todos os hospitais e centros de saúde, mas os progressos têm sido lamentavelmente escassos.

Apesar das terríveis estatísticas, a importância do acesso à higiene e à água potável tem sido preocupantemente negligenciada pelos líderes mundiais na actual crise. Os governos têm sido rápidos a promover a higiene das mãos e a lavagem das mãos, mas sem reconhecerem que isso ainda é impossível para os cerca de 13 milhões de pessoas em Moçambique que não têm água limpa e sabão nas suas casas, e para milhões de profissionais de saúde que estão na linha da frente no combate à Covid-19 e para os seus pacientes em clínicas, hospitais e centros de saúde.

O projecto de resolução da Assembleia Mundial da Saúde (AMS) sobre a Covid-19, que será discutido virtualmente na próxima semana, não faz qualquer referência à água e ao acesso à higiene como medidas fundamentais de prevenção e protecção, e não estabelece qualquer tipo de plano para colmatar as enormes lacunas no acesso a esta primeira linha de defesa.

A WaterAid insta os chefes de governo e ministros da saúde a tomarem as medidas cruciais seguintes, em harmonia com a orientação da OMS, assegurando que o investimento urgente em higiene e saúde pública seja nuclear a uma resposta à COVID-19 e a uma estratégia de reconstrução[1].

A WaterAid considera que se trata de um incumprimento do dever, tanto por parte dos países doadores, como dos governos nacionais dos países onde o acesso é reduzido, e contraria os conselhos da Organização Mundial da Saúde (OMS) aos estados-membros, que exigem a prestação urgente de serviços de higiene nas comunidades e nos centros de saúde.

Isto segue-se à exclusões semelhantes da componente de água, saneamento e higiene de quase todos os financiamentos de emergência para prevenção da Covid-19 concedidos pelos governos e agências doadoras nos últimos dois meses. Dos 51 grandes anúncios de apoio financeiro das agências doadoras aos países em desenvolvimento, apenas seis incluíram qualquer menção à higiene*.

A WaterAid, organização que opera em Moçambique desde 1995, perguntou à enfermeira Ernesta Culpa, da Localidade de Chicoma, Centro de Saúde de Matibane, Posto Administrativo de Matibane, Distrito de Mossuril, Província de Nampula, sobre a situação de acesso à água e higiene.

Apesar de ter acesso à instalações de lavagem de mãos no Centro de Saúde de Matibane, Ernesta Culpa clama pela falta de produtos básicos de higiene, tais como sabão ou álcool em gel.

“Os produtos são caros na Cidade de Nampula e o Centro de Saúde não tem recursos financeiros para a sua aquisição”, explica ela, lançando um apelo para “qualquer ajuda na disposição destes produtos para os profissionais e pacientes da unidade sanitária”.

Além de produtos de higiene, Ernesta Culpa, de 29 anos de idade, clama pela falta de máscaras, não só para os colegas, mas também para as comunidades locais.

Ernesta afirma que nunca tratou um doente de Covid-19, até porque ainda não foi registado nenhum caso na sua Província, mas também diz não esperar que isso venha acontecer porque “seria um desastre total para uma região sem meios humanos e nem equipamentos para o tratamento da Covid-19”.

Entretanto, reconhece que a Covid-19 tem impacto no seu dia-a-dia laboral: “Já não posso me envolver directamente com os meus pacientes como costumava fazer; tenho de usar máscaras e tomar conta de cada momento. Além disso, estamos a notar a redução em termos de número de pessoas que chegam ao centro de saúde. As pessoas estão a ficar em casa e com medo

Adam Garley, Director Nacional da WaterAid Moçambique disse:

“Assistimos, com razão, a um enorme investimento na procura de vacinas e tratamentos da Covid-19, mas isso não está a ser acompanhado de um verdadeiro empenho na prevenção. Não se pode falar da lavagem das mãos, enquanto ignoram-se milhões de pessoas que não têm água e sabão. Os líderes estão a ser voluntariamente complacentes na abordagem de uma crise com décadas de existência, impulsionada por uma desigualdade profundamente enraizada, mas que agora ameaça a saúde de todos. Nenhum país pode afirmar ter vencido a Covid-19 enquanto a falta de higiene e a debilidade dos sistemas de saúde lhe permitem correr desenfreadamente por outras partes do mundo. Esta é uma ameaça para todos nós e é tempo de a nossa resposta incluir compromissos adequados em matéria de prevenção, bem como de cura”. (Moz24h)

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